Resenha Do Cd Do Mundo Livre S/a



em 05/09/2003 por RecifeRock.com.br

resenha cedida pela REVISTA BALA – http://www.revistabala.com.br

O Outro Mundo de Manuela Rosário

Mundo Livre S/A

O Outro Mundo de Manuela Rosário é o nome do novo disco do Mundo Livre S/A, e já entrega de cara algumas das opções da banda. O título remete ao cinema, à literatura, à construção de um universo particular embasado por um conceito e permeado por personagens recorrentes. Manuela Rosário (ou “Manuelita”) é uma guerrilheira mexicana que tem sua história como fio-condutor do álbum, desde quando a protagonista conhece Pablo (“Nunca esquecerei o momento/em que ela se aproximou, nervosa,/e tentou me vender um livro/de entrevistas com Marcos, `El Sup`*.“, “O Triste Fim de Manuelita”), passando pela sua vinda ao Brasil, o envolvimento com os índios Xucurus, seu desaparecimento, e a dor de Pablo pela perda da amada (“Flores na tumba, odores na mente/lágrima quente embaça a visão“, “Balada de Pablo e Manuelita”).

O teor literário do disco se espalha disforme, ora em letras típicas cantadas como historinha, ora em abraço ao estilo jornalístico – característica que surge de uma clara intenção de protesto e insatisfação. Fred04, agora só Zeroquatro, continua um grande compositor, e apesar de algumas referências já nascerem datadas (como Bush e o subcomandante Marcos – ainda assim, um registro histórico, como uma notícia de jornal), as canções carregam sua atemporalidade na presença de personagens específicos e sentimentos universais.

“O Outro Mundo de Xicão Xucuru” (ou “Xukuru” – ambas as grafias aparecem no encarte) é uma das canções mais representativas do disco e, não por coincidência, o primeiro single. Disponibilizada antecipadamente para download gratuito pela internet no site oficial da banda, a música é uma homenagem ao cacique líder da resistência dos índios Xucurus, assassinado a tiros em Pernambuco, e serve de protesto contra o descaso das autoridades brasileiras em relação aos descendentes dos habitantes originais de nosso país. A similaridade do título da canção ao nome do disco é uma referência ao slogan “Outro Mundo É Possível”, do Fórum Social Mundial que aconteceu em Porto Alegre no início do ano. “Xicão Xucuru” conta ainda com a participação dos companheiros de manguebit Pupillo (que divide a produção de Manuela Rosário com Zeroquatro, e toca em quase todas as faixas) e Jorge du Peixe, ambos da Nação Zumbi.

O anti-americanismo é outro tema presente ao longo das 14 faixas. “Caiu a Ficha”, que tem participação de Naná Vasconcelos, dispara como um avião em direção ao World Trade Center para criticar o capitalismo (“é só o capital cruzando o mar/hoje ele voa mais rápido que qualquer míssil/…/pois seu poder de destruição/é mais fulminante e duradouro“). A canção também pode ser encontrada no site em versão demo. “Marcha contra o Muro do Império” é cantada em inglês e endereça a Bush, Powell e cia. um aviso do mundo dito periférico, endossado pela guitarra de outro amigo-Zumbi, Lúcio Maia. Zeroquatro mais uma vez volta os olhos do mundo para a América do Sul em “Azia Amazônica” (que também tem guitarras de Maia), cantando a “bilionária fronteira” colombiana e afirmando: “Schwaznegger é a salvação“. Sobra até pra OMB, criticada em “Muito Obrigado”. Quem precisa de ordem pra moldar?“, pergunta Zeroquatro, que compara a Ordem dos Músicos do Brasil a uma escola de urubus sem dotes para o canto. “Moral da estória: em terra de urubus diplomados não se ouve/canto de sabiá…

Zeroquatro evoca a internet ao interceder nas músicas com trechos de reportagens, como em hipertexto, trazendo depoimentos de gente do naipe de Noam Chomsky (lingüista e ativista político norte-americano, chamado de “ídolo” e “exemplo de vida” nos agradecimentos) e João Pedro Stédile (líder do MST). Essa opção é mais que um sampler diferente: reflete a importância dada pelo disco à palavra – o que é indiscutível, especialmente nesse que é o trabalho mais politizado do Mundo Livre. O grande pecado de O Outro Mundo de Manuela Rosário, no entanto, e não dar a mesma importância à melodia. Embora o álbum mereça ser chamado assim, por toda sua coesão e integridade temática, peca na redundância de alguns arranjos. Atrevo-me a usar uma “expressão” também lugar-comum, mas que sintetiza bem o momento em que a coisa deixa de dar tão certo nesse quinto CD: não tem pegada.

A maioria dos arranjos é preenchida por instrumentos dos mais díspares – vai do moog à caixa de fósforo (“Caindo em si”), passando pelo baixo acústico, cuíca, caxixi, ganzá e sampler. A produção também é eficiente e inteligente, valorizando as letras à virtuose, ou simplesmente não se deixando levar pelos lugares-comum do “rock regional”. O problema está nas melodias, sempre muito lineares – e o disco é longo, são quase 70 minutos. A inspiração na hora de compôr e o cuidado na hora de gravar elevou o nível para o Mundo Livre, que não acertou tão em cheio na hora arranjar Manuela Rosário. E se lembrarmos das possibilidades que um disco tão conceitual e literário oferece para a música, a decepção pode ser ainda maior.

Claro que existem grandes momentos, especialmente nas baladas e canções que tratam diretamente da história de Manuela Rosário (e remetem a Jorge Ben e suas baladas de samba-canção pervertido). “Inocência” abre o disco se despedindo da juventude (“Mas pode ir dando adeus/à galinhagem, à malandragem/…/você não é mais dono do seu nariz“) e vislumbrando a maturidade (“mas o legal é quando,/mesmo depois de alguns anos/de clausura,/você acorda ao lado de sua amada/e se descobre um felizardo“). Mais que uma canção sobre casamento, uma metáfora pra responsabilidade que o Mundo Livre S/A escolheu adotar – e o fez honrosamente. “Caindo em si” é outra que trata o romance como um chute no saco – dói, mas te faz sentir vivo (“voltaste, canina assombração/fizeste de mim o traste que sou hoje/traz cá minha ração“).

* Subcomandante Marcos é o encapuzado líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), movimento de guerrilha concentrado em Chiapas (sul do México) que luta por liberdade e respeito à identidade indígena, sob o nome e os ensinamentos de Emiliano Zapata (guerrilheiro e revolucionário mexicano do início do séc. XX).

[24.08.03]

FRED LEAL ouviu primeiro.

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Posted sexta-feira, setembro 5th, 2003 under Notícias.

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