Skol Hip Rock 2003

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SKOL HIP ROCK 2003
data: 27/09/2003 (Sábado) – local: Pavilhão do Centro de Convenções
com Thaíde, Mzuri Sana, Mundolivre s/a, Instituto, Los Hermanos, Marcelo D2, B Negão, Nação Zumbi e Xis
Resenha por Hugo Montarroyos – Fotos por Guilherme Moura

em 27/09/2003 por Hugo Montarroyos

Estrutura. Poucas vezes essa palavra coube tão bem num evento como no Skol Hip Hop. Só para ter uma idéia da dimensão da coisa, o pavilhão do Centro de Convenções foi equipado com duas pistas de Skate e Bicicross, sala com computadores com os mais variados jogos, sem falar no palco, que teve direito a dois telões laterais com imagens em alta definição, grafitagem reproduzindo o centro urbano de uma cidade e iluminação de primeiro mundo. Coisa rara. Muito, muito melhor mesmo que o Abril Pro Rock.

Pois bem , foi desfrutando dessa estrutura, na sala de imprensa, que começou nosso trabalho. Enquanto batia um papo cordial com José Teles e o pessoal da JovemCap Rock, comecei a ouvir uma voz um tanto familiar. Era ninguém menos que Thaíde, que acabara de entrar no palco.

O cara simplesmente levou a platéia (bem numerosa) na manha, afinal de contas, desde 1982 que ele está no ramo. Thaíde já ganhou status de mito. Não fosse ele, hoje simplesmente não existiria Racionais MCs, por exemplo. A surpresa foi perceber que Recife possui um séqüito de seguidores do Hip Hop. Muita gente foi pro festival só por causa desse estilo. com as sábias palavras “Chico Science está mandando energias positivas”, ele conquistou de vez a galera. Aí, foi só “partir pro abraço” e cantar o ótimo refrão “que tempo bom que não volta nunca mais…”. Foi bonito. Uma aula de hip hop, rap e sociologia.

Depois foi a vez do Mzuri Sana entrar em cena. Trata-se de um grupo de rap paulista formado por três negros que retratam a realidade da periferia em forma de rima. Destaque para a ótima “Pedras no caminho são…”. Drummond ? Não, chefia. Poesia marginal. Depois do excelente show, o trio formado por DJ Suissac, Parte 1 e Secreto, esbanjava simpatia na sala de imprensa. Foram pacientes, mostraram-se extremamente articulados e explicaram que era o primeiro show deles no Nordeste e, surpresa, confessaram que são fãs de Radiohead e Los Hermanos.

Bem, o Mundo Livre S/A, que nunca foi uma maravilha ao vivo, mostrou uma evolução monstruosa. Tiraram do baú a ótima “Homero, o Junkie”, do primeiro e fundamental disco “Samba Esquema Noise”. Esbanjaram malandragem em “Bolo de Ameixa”, parceria de ZeroQuatro com o folclórico jornalista Xico Sá. Mas foi com “Free World” que a banda teve seu melhor momento, botando todo mundo pra pular. O grupo paulista Instituto, fez só figuração. Agora, estranho mesmo (e símbolo da tão deflagrada “Globalização”), foi testemunhar alguns índios da tribo Xucurú, de Pesqueira, interior de Pernambuco, cantando e dançando cercados pelo símbolo da Skol. Bizarro. Estaria o Mundo Livre sofrendo da síndrome Roots, do Sepultura ? Não foi o caso. O certo é que ZeroQuatro é politizado até a medula e, assim sendo, deu para encarar o fato como homenagem e lançamento da música “Chicão Xucurú”.

Quando o show do Mundo Livre estava terminando, Bruno Negaum corre em minha direção e me avisa que Thaíde estava dando uma coletiva na sala de imprensa.

Voei para lá, e o que encontrei foi uma pessoa simples, educada, pregando a união nacional do movimento hip hop e fazendo uma homenagem ao falecido Sabotage.

Los Hermanos entrou em cena e provou que é a banda mais querida dos Pernambucanos. Tocam como se estivessem em casa. A banda, que atualmente está com um pé no rock e outro na MPB, cometeu o deslize de incluir várias músicas de “Ventura” no set list, disco que, fora o hit “Cara Estranho”, ainda não teve a mesma resposta do anterior, o antológico (sim senhor, antológico mesmo!) “Bloco do Eu Sozinho”. Basta dizer que “Todo Carnaval tem seu Fim” foi cantada em uníssono. Assim como “Retrato de Iá Iá” e “A Flor”. Até as músicas do fraquinho primeiro álbum são muito bem aceitas por aqui. Aliás, o disco de estréia do Los Hermanos está para a banda assim como “Pablo Honey” está para o Radiohead. Ninguém poderia imaginar a evolução sonora que viria depois desses discos. Show correto, competente e, por vezes, emocionante.

Fui procurar um pouco de água na sala de imprensa quando tive uma surpresa. Eis que a porta abre e entram na sala Rodrigo Amarante e Marcelo Camelo. Como dois mortais normais, apertam minha mão e conversam comigo (principalmente Amarante) com uma desenvoltura e simplicidade de espantar qualquer fã. Pergunto para Rodrigo se é um fardo muito grande ser considerado uma “unanimidade” pela crítica. Ele rejeita o rótulo, sorri e diz que tem muita gente que não gosta deles. E ele prefere que seja assim mesmo. Questiono sobre a química que rola entre a banda e o público pernambucano. A resposta, sem um pingo de demagogia, foi “nosso maior público está aqui e, juro, não sei qual o motivo disso. Só tenho certeza de uma coisa, não estou sendo demagogo ao afirmar isso”. A essa altura do campeonato, os caras já estavam cercados por toda a mídia que cobria o festival. Me despedi de Amarante perguntando como foram as gravações de “Ventura”. “Sossegada. Fomos para um sítio no interior do Rio. Sempre gravaremos assim. Descobrimos que é o formato ideal”. Depois dessa, me despedi dos caras, desejei boa sorte, saí da sala de imprensa e esbarrei com Xis, que estava dando uma entrevista para uma rede de televisão. Terminada a entrevista, o cara encarou todos os jornalistas presentes com extremo bom humor e dizendo que se sentia satisfeito e honrado em dividir o palco com a Nação Zumbi. Entre elogios para o Faces do Subúrbio e o grupo paulista Instituto, perguntei quando e como sairia o próximo disco dele. “Ano que vem, de forma independente”. Yeah! Mais um herói nacional na eterna luta contra a exploração das gravadoras…

Marcelo D2 fez um show bem “mais ou menos”. Teve coragem de tocar o hit “Qual é” logo no início da apresentação. Fez média com o público ao pedir que um torcedor do Sport subisse no palco. Homenageou também Santa Cruz e Náutico e despediu-se do rubro-negro da forma mais deselegante possível, empurrando o cara e dizendo “Agora dá licença que eu tenho que trabalhar”. no mais, deu saudade do Planet Hemp ao ver D2 e BNegão cantarem “Queimando Tudo”. Mas a verdade é que o show foi longo e chato. Sim, aquele cheiro que você está cansado de conhecer impregnou o pavilhão do Centro de Convenções durante todo o show , que ainda teve direito a uma versão rap e chatíssima de “Mantenha o Respeito”. Disparado, a pior performance da noite.

Já a melhor ficou por conta da Nação Zumbi. Os “meninos” mostraram maturidade, peso, consistência e foram responsáveis até pela formação de uma gigante roda de pogo. O set list foi perfeito, incluindo Macô (respondida pelo público com o já tradicional “nha”, para compor a palavra “maconha”), “Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada”, “Quando a Maré Encher”, “Cidadão do Mundo”. A platéia, embora exausta, não arredava pé do local. Rolou uma excelente versão de “Manguetown”, que ganhou contornos de jazz e emendaram com “Coco Dub”. Foi aí que o Xis entrou em questão, rimou e improvisou em cima da música e ficou no palco enquanto a banda detonava “Da Lama ao Caos”, com direito a citação de “Umababarauma”, clássico de Benjor que ganhou roupagem mais pesada nas mãos de Max Cavalera.

E foi o fim de um festival que, se não foi perfeito, chegou bem perto disso.

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Links:
» Mundo Livre S/A no RecifeRock
» Nação Zumbi no RecifeRock

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Posted sábado, setembro 27th, 2003 under Coberturas.

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