Gutie Conta Passado, Presente e Futuro do Recbeat

Logotipo do RecBeat 2004

em 21/02/2004 por Hugo Montarroyos (entrevista) e Guilherme (intro)

São quase 10 anos de RecBeat e muitas histórias pra contar… Hora de escutar a palavra de Guttie.

É Impossível falar do RecBeat sem escutar a palavra de seu Idealizador: Antonio Gutierrez ou Gutie ou Gutty. A idéia inicial era fazer uma pequena entrevista, mas vocês sabem… uma pergunta puxa outra e vem outra… resultado ? Além de contar a história do festival e apresentar a escalação de 2004… Gutie fala também do Cordel e já nos deixa morrendo de curiosidade para o próximo ano, quando o RecBeat chega a décima edição… Olha aí:

Como nasceu o festival ?

Criei o Festival Recbeat em 1995, já como um desdobramento do Projeto Recbeat, que vinha realizando desde 1993 no Bairro do Recife, em um antigo puteiro chamado Franc’s Drinks, onde escalava as novas bandas da cidade com djs, etc. Mas a idéia do festival como concebido atualmente nasceu dois anos depois. Surgiu porque percebi que durante o carnaval a cidade (no caso Olinda, nessa época o melhor carnaval se concentrava em Olinda) ficava cheia de turistas curiosos, todos querendo saber o que era o tal do “manguebeat” que eles estavam vendo pelos jornais, revistas, tvs (a MTV era mais inteligente na época e abria um espaço legal pra Recife) e que, na realidade, pouco chegava até eles. As bandas ainda não saiam do Recife com tanta freqüência como ocorre hoje.

A primeira edição do Festival Recbeat foi num pequeno bar em Olinda, chamado Oficina Mecânica, que funcionava no Pina, mas que abriu uma “filial” em Olinda, naquele ano. Foi um sucesso, um inferninho bombando em pleno carnaval. Em 1996 não fiz o Festival porque estava na estrada com mundo livre s/a (empresariei o mlsa de 1994 até 2000). Mas planejei voltar com o Festival em 1997. Nesse ano viajei pro México com mlsa e deixei uma amigo articulando a montagem do Recbeat. no México, na noite em que nos preparávamos para voltar ao Brasil, recebemos a notícia da morte de Chico Science, Quando desembarquei no Recife, esse meu amigo havia cancelado toda a produção do Festival. Estávamos todos extremamente abatidos com a morte de Chico. Acho que este foi um momento importantíssimo para nós todos. Era um momento decisivo: ou a gente mergulhava na tristeza pela morte de Chico, ou fazia o Festival Recbeat em homenagem a ele e a nova música pernambucana que ele havia criado. Optamos pela celebração. E assim, neste ano, de 1997, o Festival aconteceu no Centro Luiz Freire, em Olinda, com capacidade para mil pessoas. E continuamos fazendo o Festival lá até 1999.

Em 1999 recebemos um convite da Secretaria de Cultura do Recife para levar o Recbeat para o Bairro do Recife, na Rua da Moeda, atendendo a uma estratégia de estimular o carnaval no Bairro do Recife. E como o festival teve suas origens no bairro, ainda com o Projeto Recbeat, no Francis Drink’s, foi um processo natural voltar pro bairro, pra rua da Moeda, pro mesmo local onde tudo começou. E daí em diante o Festival Recbeat foi crescendo, crescendo e ficou grande demais pra Moeda. Por conta do Festival a Rua da Moeda se tornou um “point alternativo”. no ano passado havia muita gente e sentimos que as pessoas estavam ficando incomodadas, desconfortáveis com isso. Calculamos que o público chegou entre 10 e 12 mil pessoas por show na Moeda.

Este ano, o que muda com o festival sendo realizado no Cais da Alfândega ?

Conceitualmente não muda nada, por enquanto… A mudança foi em busca da ampliação da capacidade de público. Mas pelo que pude perceber na terça-feira, ao vistoriar a montagem da infra-estrutura (palco e tenda eletrônica), que é de responsabilidade da Prefeitura, foi que o espaço no Cais da Alfândega poderia ser maior, melhor ocupado. A preservação da saída de um estacionamento limitou um pouco a ocupação do espaço, contrariando o que eu imaginava. Mas mesmo assim teremos um local mais amplo, com maior visibilidade do palco, ao lado do Rio Capibaribe (o mais famoso cartão-postal da cidade). Acredito que tão charmoso quanto a rua da Moeda e com uma capacidade superior a 15 mil pessoas. Se no futuro conseguirmos ocupar toda a rua poderemos dobrar essa capacidade.

Como foi o processo de escolha das bandas ?

O processo de escolha é simples: parto do princípio que a banda/artista deve estar buscando algo, em atividade, produzindo, ou que tenha contribuído de forma inquestionável para a história de nossa música, de nossa cultura (aí é que entra a tradição, os mestres).

Na verdade eu passo o tempo todo atento ao que vejo, principalmente em minhas andanças como empresário e produtor do Cordel do Fogo Encantado. Tenho sempre em mente o Festival. Tudo o que vejo e que acho curioso anoto na última folha da minha agenda. Quando o ano está terminando, faltando alguns meses, volto pra essas anotações e começo a montar a grade do festival. Faço umas 30 programações diferentes até chegar à definitiva. Prefiro escalar atrações que eu já tenha visto ao vivo. Este ano, por exemplo saí do Recife e fui até João Pessoa apenas pra ver um ensaio de Eleonora Falcone e me certificar que o show dela poderia funcionar no festival. Não tenho idéia de quantos shows eu vi, mas acho que recebi uns 200 cds. Tem muita coisa legal… é incrível como tem gente nova e boa em todo canto.

Evito repetir atrações. Ou quando faço essa opção, em relação a edições anteriores, existe invariavelmente um gancho que justifica essa repetição. Gosto da idéia de o Festival Recbeat ser uma coisa dinâmica, inquieta, não-estacionária, de ter sempre algo inusitado… que é o espírito do carnaval, na verdade, que é também meu jeito de ver o mundo, as manifestações artísticas. Mas parece que o público as vezes é mais conservador do que a gente imagina, mesmo entre os “jovens”. Agora mesmo estou recebendo vários e-mails de pessoas querendo as mesmas atrações que viram nos anos anteriores.

Sempre busco novidades, principalmente entre os pernambucanos. Neste ano teremos A RODA e REFINARIA entre os pernambucanos, além dos novos trabalhos de Djs Dolores, Devotos, Maciel Salu. Fora de Pernambuco, fomos buscar: Eleonora Falcone, na Paraíba; Narguilé Hidromecânico, no Piauí; Tira Poeira e Rogério Skylab, no Rio; Bojo e Maria Alcina, em São Paulo, etc…etc…

Quais os momentos mais marcantes da história do Recbeat ?

Tem vários, talvez nem me lembre de alguns agora. Posso citar o de 1997, ano da morte de Chico. Tem a edição de 2000, quanto fiz sete dias de festival, uma loucura, onde consegui reunir Fellini, trazer de volta Ira! e pude constatar que realmente o Recbeat já atingira um nível de grande festival. Tem também a edição de 1999, quando Cordel do Fogo Encantado subiu ao palco pela primeira vez como banda, até então era um grupo de teatro. Foi aí que nasceu Cordel do Fogo Encantado como conhecemos hoje. Em 1999 também tivemos pela primeira vez no palco do Recbeat a Nação Zumbi, um show histórico, que espero repetir novamente neste ano.

Existe a preocupação de trazer bandas desconhecidas do grande público ?

Acredito que um festival como o Recbeat tem a obrigação de trazer coisas desconhecidas e de qualidade, para que se tornem conhecidas por merecimento. É um evento que tem o patrocínio de dinheiro público. Não tem necessidade de cobrar ingresso, é aberto ao público, acontece em meio a maior festa popular do país e, portanto, não precisa de atrações que rendam bilheteria. Nosso compromisso é com o público. Não tenho a intenção de fazer um Festival de revelação, no sentido de “lançar no mercado”. Não tenho compromisso com gravadoras, com crítica, com ninguém, a não ser com o público. Por meio do Festival Recbeat temos a oportunidade de mostrar para esse público coisas que dificilmente ele veria em outras circunstâncias. Os visitantes podem ver bandas que dificilmente sairiam do Recife, enquanto que os pernambucanos têm a oportunidade de ver outras que dificilmente viriam para cá. Esse é o compromisso do Recbeat. Acho uma chatice quando me cobram “nomes conhecidos”, acho isso de uma obviedade irritante.

Como você monta a grade de programação, uma vez que junta bandas de diferentes estilos numa noite ?

Acho que respondi isso quando falei acima do processo de escolha das bandas. A forma de juntar tudo na grade e dar certo??!! segredo.

Qual a expectativa de público (números) ?

15 a 20 mil pessoas por noite

Se coloque agora na função de apresentador do Recbeat. Como você definiria em uma frase as seguintes bandas:

Abuela Coca: precisamos deixar de dar as costas para nossos vizinhos, existe uma galera legal fazendo som legal na América do sul, na América latina, na áfrica, tá na hora de conhecer essa gente.

Rogério Skylab: um maluco, nonsense, amoral, atração perfeita para um festival que acontece no epicentro da loucura planetária, que é nosso carnaval.

Narguilé Hidromecânico: tava na hora de algo do Piauí.

Bernies Lounge: são holandeses e terão a oportunidade de conhecer o paraíso que seus antepassados tiveram nas mãos.

Tira Poeira: samba e chorinho, quando foi a última vez que você ouviu isso?

A Roda: novidade boa da fonte inesgotável do Recife.

DJ Dolores e a Aparelhagem: o que virá depois de Contraditório? . Em primeira mão o que mister Dolores está aparelhando.

Bojo e Maria Alcina: irreverência, corpinho de mulher e voz de homem… energia pura acompanhada por uma das melhores bandas paulistanas.

Nega Gizza: uma das maiores vozes femininas do rap… e trará um convidado muito especial….

Lan Lan e os Elaines: Cássia Eller aprendeu muito com ela.

Zambo: Recife também dança.

Refinaria: Silvério Pessoa fazendo música eletrônica??!! Imperdível.

Kenny Brown: blues de qualidade, que já não pode faltar no Recbeat

Eleonora Falcone: a melhor compositora e intérprete feminina que me chegou as mãos nos últimos anos.

Como diria o filósofo Sérgio Mallandro: “O povo quer saber”… Por que Cordel não está na programação do Recbeat ?

Cordel do Fogo Encantado não está escalado no Recbeat deste ano porque virou banda mega e não temos dinheiro pra cobrir o cachê… brincadeirinha… Cordel do Fogo Encantado, como banda, praticamente nasceu no Recbeat, em 1999. E de lá pra cá tocou em todas as edições, sempre com um bom gancho, ou seja, ou estreando show novo, ou lançando cd, ou porque quase não estava se apresentando no Recife. Este ano resolvi não colocar, primeiro para dar espaço a bandas que ainda não tocaram e também porque, ao contrário dos anos anteriores, neste final de ano a banda se apresentou no mesmo local, no Cais da Alfândega, no dia de Natal, depois se apresentou no Festival de Verão e, além disso, recebeu convite para se apresentar no Marco Zero no sábado, dia 21. Com isso, me pareceu redundante demais escalar a banda novamente. Mas como a banda tem uma ligação visceral com o Recbeat e no próximo ano estaremos chegando a 10 edição, quem sabe…

Caso queira escrever mais alguma coisa, fique à vontade!

Quero parabenizar vocês pelo excelente site… um dos melhores já surgidos no Recife. Realmente a produção musical pernambucana merecia um site a altura. Parabéns.

E quem quiser saber mais do Festival Recbeat, nos visite: www.recbeat.com.br

É isso aí :) O RecBeat 2004 começa hoje e vai até terça-feira… mas isso você já sabe, né ?

Nos vemos lá! rock!

Links:
» Site do RecBeat 2004

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Posted sábado, fevereiro 21st, 2004 under Notícias.

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