Mundo Livre S/A – “O Outro Mundo de Manuela Rosário”

Mundo Livre S/A - O Outro Mundo de Manuela Rosário (2003) - Candeeiro Records

‘samba punk de protesto’…
em 14/06/2004 por Ricardo Valença Monteiro

Resenha: Mundo Livre S/A – O Outro Mundo de Manuela Rosário (2003) – Candeeiro Records

Zeroquatro revelou recentemente, tanto na entrevista do LE.MANGUE (http://www.lemangue.com.br) quanto nos demais veículos de imprensa, que antes da produção deste álbum, ele e sua banda nunca haviam experimentado uma liberdade criativa total, apesar de terem sempre gravado em selos independentes. Tal informação é essencial para a compreensão de “O Outro Mundo de Manuela Rosário”, gravado no Recife ao longo de um ano, sem preocupações com hora de estúdio, data de lançamento ou músicas de trabalho. Em suma: este disco foi feito do jeito que a banda quis, sem interferências externas.

Contudo, uma independência musical absoluta não está isenta de altos riscos. Se fosse assim, o mundo seria uma beleza. A verdade é que sem um mínimo de visão mercadológica – é importante, sim – a auto-indulgência e a falta de foco invariavelmente rondam o resultado final dos trabalhos. E não são raros os artistas nacionais e internacionais que sucumbem a esses perigos. Na proclamação de sua república, o Mundo Livre S/A e seu “samba punk de protesto” enfrentaram o monstro de duas cabeças e sobreviveram ao ataque, mas não escaparam ilesos.

Nesse cenário atualmente dominado por artistas social e politicamente omissos, o parcialmente conceitual “O Outro Mundo De Manuela Rosário” emerge como um bem-vindo estranho no ninho. As letras do disco abordam questões sociais óbvias, mas que não vêm sendo levantadas em uma Música Popular Brasileira que após a década de oitenta passou a ignorar o papel social que também deveria exercer. O termo música de protesto ganhou até conotação pejorativa. O Mundo Livre S/A desafia esse quase dogma e inova o formato, agregando ao mesmo elementos de reportagem jornalística. É uma grande idéia.

Uma boa música não precisa obrigatoriamente ter melodia, mas timing. Então, é quando identificamos o loop problemático de Manuela. Com 70 minutos de duração distribuídos em quinze faixas, o disco sofre com a falta de melodias e a longa duração das músicas, que soam longas demais justamente pela ausência de uma linha melódica que prenda os ouvidos. Na prática, isso põe as mensagens do grupo em perigo, não é mesmo ? Se as canções, excetuando-se uma ou outra, tivessem sessenta, noventa segundos a menos – edição – Manuela talvez fosse a obra-prima do Mundo Livre S/A.

Os melhores momentos são as faixas centrais – o miolo – entre a sexta e a décima: a refrescante “Caiu A Ficha”, na qual Zeroquatro, fã notório de Jorge Ben(jor), surpreende e revela uma outra influência, talvez até inconsciente – Raul Seixas; “O Triste Fim de Manuelita” narra a “trágica” história da personagem que leva o nome do disco e traz uma ótima batida entre a bossa-nova e o reggae de Sly & Robbie, recheada com percussões latinas e base de órgão barbecue on acid. A batida mangue reclama seu território em “O Outro Mundo de Xicão Xukuru”, que ainda conta com o grave apoio vocal de Jorge du Peixe (Nação Zumbi). Com um minuto a menos, teria ficado melhor ainda. E, finalmente, “Caindo Em Si”, a melodia mais forte – ainda que minimalista – e que foge completamente da temática do disco: uma declaração de amor muito torta que, para os desconhecedores do (mórbido) senso de humor pernambucano, pode soar depressiva ou até lúgubre. “És louca de pensar que eu vou ser teu cão”, bate o pé Zeroquatro no começo, só para depois concluir com resignação masoquista: “Traz minha ração”. É uma canção excelente em todos os sentidos e, apesar dos palavrões, poderia até virar hit.

Onde Comprar:

nas melhores lojas do ramo :)

Preço médio: R$ 18,00

Mundo Livre S/A - foto de divulgação

Links:
» Mundo Livre S/A no RecifeRock
» Site da Candeeiro Records

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Posted segunda-feira, junho 14th, 2004 under Discos.

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