Astronautas – “Electro-Cidade”

Capa do cd

em 18/08/2004 por Hugo Montarroyos

Se pudesse resumir este “Electro-Cidade” em uma frase, ela seria a seguinte: Tecnologicamente claustrofóbico e PERTURBADORAMENTE rock.. Os Astronautas conseguiram fazer um álbum conceitual, cheio de texturas, bem amarrado, futurista e roqueiro. A parte musical, que já era ótima, melhorou ainda mais. As letras, ponto fraco do primeiro disco, “De Algum Lugar do Sistema Solar” , deram um salto qualitativo surpreendente. Todas abrangem a temática da neurose urbana. E, igualmente neurótico ficou o som da banda, assim como a voz desesperada e ao mesmo tempo contida de André Frank.

Os detalhes e destaques são tantos que é difícil não se perder nas primeiras audições do disco. Um solo de guitarra surreal e desconcertante aparece no final de “Tecnologia” .

A letra quase hedonista de “Não Faço Nada” deixa uma interrogação no ar; ficamos sem saber se o tema abordado é melancolia ou euforia, devido a relação ambígua que permeia a música, que possui uma sonoridade densa para uma letra que diz “Não faço nada porque tudo tanto faz”. Não à toa, tal música é amparada por barulhos digitais transformados em elementos essenciais a composição.

Aliás, a ambigüidade é o fator que percorre todo o disco, seja nas letras, na sonoridade, na relação texto/som e na simbiose entre o velho e o novo, o conhecido e o desconhecido.

“Máquinas” , por exemplo, é Krafwerk punk, “De Sol a Sol” é raivosa, com um teclado que provoca um clima de desnorteamento. Poucas vezes uma banda soube usar tão bem a tecnologia a seu favor. Tecnologia, é bom frisar, que se apresenta ao mesmo tempo discreta e essencial neste novo trabalho, provando que a fronteira entre a contenção e o exagero é bem tênue.

“Sentimentos” é uma electro-doideira que tem início robótico e logo resvala para o peso psicodélico, deixando a impressão de que foi inspirada em Kubrick. “Monotonia” segue a linha atormentada de relações contrárias entre letra e música, trazendo uma leveza sonora que contrasta com a urgência e desespero textual. Sem contar o econômico solo de guitarra distorcida no final.

“Negar é Afirmar” tem um fraseado de baixo simples e lindo, assim como um riff despretensioso e absolutamente bem construído, remetendo ao futuro a Lógica Aristotélica, que viabiliza e possibilita a consolidação entre os opostos e as contradições.

“Revolver # 3” é assustadora e neurótica, dona de teclados apocalípticos. “Fora de Controle” é uma crítica em formato rock industrial ao consumismo desenfreado do qual somos vítimas na chamada “pós-modernidade”.

Eis um trabalho consistente, guitarreiro, extremamente bem produzido e, acima de tudo, muito bem pensado.

Os Astronautas pisaram o solo terráqueo e descobriram aqui um material mais fértil do que em outras galáxias. E, ainda por cima, acharam no segundo disco o que algumas bandas levam anos para encontrar: identidade casada com evolução.

Pintou um sério candidato ao prêmio de melhor disco do ano.

André Frank, vocalista dos Astronautas

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» Astronautas no RecifeRock

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Posted quarta-feira, agosto 18th, 2004 under Discos.

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