Panorock 2004 (Primeiro Dia)

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PANOROCK 2004 (PRIMEIRO DIA)
data: 04/09/2004 (Sábado) – local: Ancoradouro
com Ópio, Ataque Suicida, Revolta Civil, Insurrection Down, Giftshop (Alemanha), Hanagorik, Pecapta, Ação Direta (SP), Ataque Periférico (RJ) e Sociedade Armada (SP)
Resenha por Hugo Montarroyos – Fotos por Bruno Negaum

Ação Direta rouba as atenções do primeiro dia do Panorock
em 04/09/2004 por Hugo Montarroyos

O Local

Ainda não entendi o motivo de tamanho entusiasmo causado pelo Ancoradouro. O lugar é de difícil acesso, terrível para quem não dispõe de carro (maioria do público que curte rock em suas mais variadas vertentes). À direita, sopra um vento insuportável vindo do Rio Capibaribe, que, salvo engano, pode ser responsável direto pela péssima qualidade sonora local. Falando em som, de todos os shows que já vi no Ancoradouro (tá, não foram muitos), apenas dois tiveram inteligibilidade decente.

No mais, acho que o lugar impressiona mais pelo tamanho, que, não é, nunca foi e jamais será requisito fundamental para uma boa estrutura em termos de amplitude sonora. Não sou técnico de som, mas imagino que deve ser mais difícil no Ancaradouro do que em outros lugares a tarefa de montar um bom equipamento de som e obter dele um resultado satisfatório.

O Público

Pouco mais de 400 pagantes. Uma pena que tão pouca gente tenha comparecido ao primeiro dia, pois a escalação das bandas foi bacana, tinha um bom apelo entre os públicos de hardcore e de metal, com boas bandas dos dois gêneros representando as respectivas tendências.

O perfil era dos mais engraçados. Gurizada, maluquinhos dispostos a pogar a noite inteira, menininhas que pareciam presenciar o primeiro show de suas vidas e que não demonstravam se importar em levar umas boas porradas nas rodas de pogo.

Os Shows

Estes foram, na média, bons. Os que não funcionaram, em sua grande maioria (ou seja, tirando o Giftshop), deveram-se a fatores extra banda, como problemas de som ou cansaço do público. Afinal, uma noite com dez bandas, numa maratona de mais de oito horas, não é para qualquer um.

A primeira boa surpresa da noite ficou por conta da Ópio. Embora tenham tocado para pouco mais de 50 pessoas, os caras demonstraram uma evolução monstruosa, provaram que rock não é apenas sinônimo de propaganda de refrigerante e, definitivamente, jogaram por água abaixo a teoria de que o harcore é o ópio da molecada.

O som deles está encorpado e muito bem mesclado. Quando se dedicam ao harcore, ele é executado de maneira crua e consistente. Quando lançam mão da mistura, ela é feita de forma competente e até surpreendente, como é o caso da excelente “Tribo de Sangue”, um nu metal com doses de punk e punch delicioso. Destaque para o ótimo baterista Milton, que mostrou uma habilidade fora do comum no gênero na condução das baquetas.

Depois foi a vez daquele que seria o melhor show do palco 2. Os cariocas do Ataque Periférico ignoraram as péssimas condições do som local e mandaram um punk rock hardcore inspirado em Ratos de Porão que foi responsável pela formação de uma roda de pogo que se estendeu até o final da apresentação deles. A banda, que tem três anos de carreira, mostrou o repertório do disco de estréia, “Esperto que é Esperto Morre de Velho”. O vocalista Valcimar, além de ótima presença de palco, possui um vocal estridente maravilhosamente trabalhado, perfeito para o estilo. “Preto, Pobre e Favelado” e a cover de “Crucificados pelo Sistema”, do Ratos de Porão, garantiram ao Ataque Periférico momentos de histeria coletiva e de extremo trabalho para os seguranças. À minha frente, uma garota que não devia ter mais de 15 anos se orgulhava do murro que levou na roda de pogo. Vai entender…

O Insurrection Down foi outro que lutou contra o som local. Apesar de após o show o guitarrista Gordo me dizer que tudo estava funcionando bem no palco, para quem estava fora dele a impressão era de um som “massarocado”, atabalhoado. Mesmo assim eles deram conta do recado. Com seu metal calcado em nomes como Sepultura e Pantera, eles mandaram boas composições do ótimo primeiro disco, “Ignorant Minds”, tais como a faixa que dá título ao álbum e a excelente e muito bem trabalhada “Screams of Suffering”. Isso sem falar no cover de “Refuse/Resist”, do já citado Sepultura. A partir daí detectamos o óbvio. A galera tinha vindo para ouvir hardcore, O público de metal era minoria.

O Revolta Civil fez milagre. Tirou leite de pedra. Com uma péssima (e bota péssima nisso) estrutura de som, os caras mandaram um “foda-se” no melhor estilo “do it yourself” e arrancaram forças para fazer um show memorável, sendo responsáveis por uma das rodas mais instigantes que já vi na vida. É aquele típico fenômeno (como o próprio nome entrega) que não tem explicação racional. Tinha tudo para dar errado e deu muito certo. Um puta show comandado com maestria e garra pelo vocalista Elder. Memorável. Fico pensando como seria se o som estivesse bom.

No frigir dos ovos, acabou dando a lógica. Com 17 anos de estrada, o paulista Ação Direta deitou e rolou, mostrou uma maturidade que faz muito bem ao hardcore ao qual se dedica, esbanjou poder de fogo e fez aquele que foi sem dúvida o grande show da noite. Em suma, o Panorock viu uma banda no auge, em sua melhor forma. Nem o fato do baterista Mário ter conseguido a proeza de estourar a pele do bumbo (o que acarretou num intervalo de mais de dez minutos) cortou o clima entre banda e público. E, pela primeira vez na noite, o som do palco 1 deu sinais de que funcionaria com um mínimo de decência. As porradas “Viver com Medo”, Pesadelo” e “Conspiração” ficarão na memória de quem presenciou o show como exemplos perfeitos do bom e velho hardcore, aquele dedicado às temáticas sociais e aos conflitos políticos-ideológicos que assolam o mundo desde que este foi criado. Repito: pena que o público não compareceu em massa…

O ótimo Pecapta enfrentou vários problemas. O primeiro deles foi o cansaço do público após o show do Ação Direta. O segundo, e desta vez mais nítido, foi que o público presente não estava muito interessado em metal. Ainda assim, depois da insistência do sensacional vocalista Rodrigo Colaço, as coisas entraram nos eixos. A banda começou a empolgar com “Territory”, do Sepultura, para depois se garantir em armas do próprio punho, como “Fuga”, “Efeito Colateral” e “Tumulto Generalizado”. No fim das contas foi um bom show, embora os caras estivessem visivelmente abatidos e transtornados depois da apresentação. Tiveram problemas com o bumbo da bateria e com o eterno som meia-boca do palco 2. Mereciam melhor sorte…

Depois foi vez dos extremos, das contradições. A melhor produção da noite, um som refinado e cristalino e uma iluminação fantástica para uma banda que tentou, tentou e não conseguiu agradar. O motor não pegou, a coisa não engrenou e o Giftshop fez um show para alemão ver. O momento mais interessante foi quando um dos guitarristas ameaçou tocar “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana. Durou exatos 5 segundos. O público quase dormiu, pois o resto foi chato, uma mistura de nu metal com indie metal e outras baboseiras metal que não convenceu. Tanto que a banda tinha preparado três músicas para o bis (que nem precisava, pois ninguém pediu bis) e se contentou em tocar uma, a excepcional “Negative Creep”, do Nirvana. Mas o estrago já estava feito. O Giftshop sofre da “síndrome do Jota Eqüestre”, ou seja, muita produção para pouco conteúdo.

Após um período ausente dos palcos, o Ataque Suicida voltou mostrando um belo poder de fogo. A banda, de Peixinhos, mostrou que está com gás renovado. Além das ótimas “Somos Politicamente Incorretos” e “Políticos Merecem Porrada na Cara”, os meninos apresentaram um repertório de alto poder contestador, amparados por uma sonoridade enxuta e vibrante, num resultado perfeito para o hardcore simples e matador ao qual se dedicam. “Negligência Social” e “Eleição” são exemplo perfeitos dessa boa química. Enfim, o público acordou.

O Hanagorik cresce mosntruosamente ao vivo. O palco colaborou, o som estava ótimo e, a iluminação, idem. A banda atingiu um padrão internacional de qualidade. Saímos na terceira música tocada pelo hanagorik, mas fiquei com a sensação de que seria um baita show devido ao entrosamento da banda e da técnica apurada dos músicos. Mas nossa pilha pifou e tivemos que guardar as baterias para mais um dia de trabalho.

Bem, quem ficou até às 4 da matina para conferir o show da Sociedade Armada por favor mande e-mail para dizaih@reciferock.com.br. Gostaria de saber como foi a apresentação dos caras. No fim das contas, tivemos um primeiro dia de Panorock marcado por bons shows para um público infelizmente muito pequeno. Uma pena… vai ver que o culpado é o local de difícil acesso, de som duvidoso, de vento insuportável etc, etc, etc…

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Links:
» Pecapta no RecifeRock
» Hanagorik no RecifeRock
» Revolta Civil no RecifeRock

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Posted terça-feira, setembro 7th, 2004 under Coberturas.

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