Coquetel Independente (Primeiro Dia)

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COQUETEL INDEPENDENTE – PRIMEIRO DIA
data: 17/09/2004 (Sexta) – local: Barramundo
com Rádio de Outono, Profiterolis, Superoutro e Mellotrons
Resenha por Hugo Montarroyos – Fotos por Bruno Negaum

Rádio de Outono se destaca no primeiro dia do Festival Independente Coquetel Molotov.
em 17/09/2004 por Hugo Montarroyos

Qual será o futuro da cena indie pernambucana ? Talvez parte desta pergunta tenha sido respondida ontem, no Barramundo, no primeiro dia do Festival Independente Coquetel Molotov. Se depender da qualidade das bandas que se apresentaram ontem, logo o indie será metamorfoseado em mainstream. Mas o buraco é mais embaixo. Explicarei no final do texto.

O fato concreto é que o Barramundo deve ter tido ontem seu recorde de público. Gente pra caramba do lado de fora, uma fila considerável para entrar no local e um público que transcendia o conceito indie.

Ainda não tinha entrado quando começou o show do Rádio de Outono. Assim que entrei, escutei alguém indagar perplexo: “Isso é Strokes ?”. Era. Precisamente “12:51”, em excelente roupagem e com ótimo vocal de Bárbara. Foi a deixa para aquele que seria o melhor e mais animado show da noite. A sintonia entre banda e público foi perfeita. O baterista Gleisson estava inspiradíssimo e mostrou uma desenvoltura endiabrada durante toda a apresentação do Rádio de Outono. O grupo parece estar no ponto, no auge da forma. É talvez a banda mais original de Pernambuco, dividindo o posto com o Mombojó. Eles estão coesos, seguros no palco, esbanjando desenvoltura e naturalidade. A vocalista Bárbara, além de possuir uma presença de palco ensandecida, acertou no timbre em todas as músicas, indo da doçura a agressividade (tanto no vocal quanto no gestual) com uma espontaneidade difícil de se ver por aí. E o som deles é simplesmente irresistível, uma mistura agradabilíssima de cabaré e pop descaradamente descartável. “Antithesis” é meio jovem guarda, meio punk. O Rádio de Outono transita sem qualquer forçada de barra entre o chiclete e o concreto, entre Velvet e Gang 90, entre Blitz e Police. Foi um baita show.

Sabe aquelas bandas cabeçudas universitárias chatas de doer de tão pretensiosas

? O Profiterolis é uma delas. Produto de quem come muito crepe de espinafre em festas particulares alternativas filosofando sobre questões como “o ser é, e o não-ser, não é”. O som é confuso, com ênfase exagerada na percussão e com letras de fazer inveja a Jorge Mautner. Eis um pouquinho da retórica profiterólica: “Eu encomendei pelos correios duas barras de churro para colocar no bolso e não flutuar”. Outro momento bisonho foi o blues sem colesterol “Ovo Frito” , que, ameaça, ameaça, ameaça e não chega a lugar nenhum. Ou o meu Q.I. é baixo demais para entender a genialidade da banda ou então não há nada para ser entendido e o grupo é simplesmente ruim, desnecessário e um verdadeiro desperdício de massa encefálica gasta numa banda indie. Para não dizer que não falei das flores, é bom deixar registrado que muita gente gosta do Profiterolis…

Já o Superoutro teve um começo promissor, empolgando com a psicodelia instrumental de “O Castelo”. Mas, trata-se de um banda que depende essencialmente da qualidade do som local para funcionar ao vivo, e eles foram prejudicados neste quesito. Muita microfonia e distorção numa apresentação onde ficou claro o talento da banda e a criatividade para inventar texturas e paredes de guitarras viajantes. Desafinaram um bocado durante a execução da nova “Dezembro”, mas fizeram um show interessante, oferecendo ao público a oportunidade de experimentar outras dimensões movido apenas pelo som, arma que pode ser mais poderosa e subversiva do que qualquer ácido. A reação do público ilustra bem a sonoridade do Supertoutro; um silêncio absurdo e uma concentração no palco dignos de quem está acompanhando um filme de Kubrick. E isso não é pouco.

O Mellotrons (uma das cinco melhores bandas de Pernambuco hoje) fez um show atípico e raivoso. Desfalcados do baterista Augusto César, sucumbido por um catapora, acabou sendo substituído na condução das baquetas pelo guitarrista Enio, que, definitivamente, pode começar a pensar em mudar de instrumento (sem meias palavras, tocou pra cacete!). Com uma guitarra a menos, a banda acabou ficando mais pesada, e momentos como os proporcionados pela maravilhosa “Evening” e pelo excelente cover de “I Wanna Be Your Dog”, dos Stooges, foram responsáveis por reações acaloradas por boa parte do público, que ainda tinha energia para pular às 4 da matina.

E o futuro do indie pernambucano ? Pelas bandas que vi ontem, arrisco alguns palpites: Rádio de Outono está com um pé no mainstream, é questão de tempo para estourar. Profiterólis morrerá na clandestinidade. Já Superoutro e Mellotrons sofrem do mesmo mal, ou seja, o do preconceito contra bandas experimentais e que se utilizam (caso do Mellotrons) do idioma de Bob Dylan na terra das alfaias.

Bem, em se tratando de um termo tão vazio de significados como o “indie”, minha aposta é que muita gente jamais conseguirá sair desse estágio. Não por falta de talento, e sim por falta de perspectivas locais mesmo. Se eu fosse o Superoutro e o Mellotrons, seguiria rapidinho o exemplo dos Astronautas e picaria a mula para São Paulo. Lá, com certeza, teriam um reconhecimento de público bem maior. Conclusão: Recife ainda não rima com o indie.

Clique na foto abaixo para abrir a PopUp com as fotos do segundo dia do PANOROCK 2004:

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Links:
» Profiterolis no RecifeRock
» Superoutro no RecifeRock
» Mellotrons no RecifeRock

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Posted sábado, setembro 18th, 2004 under Coberturas.

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