Mundo Livre Comemora 20 Anos no PE No Rock

Mundo Livre S/A

Batemos um papo com Zeroquatro e Bactéria
em 20/09/2004 por Hugo Montarroyos

O Mundo Livre está comemorando 20 anos de carreira. Será a principal atração do PE NO ROCK deste ano e foi o grande destaque na coletiva de lançamento do Festival, realizada no bar “O Cangaceiro”, no Pina, no final de agosto. Como Zeroquatro é politizado até a medula, decidimos abordar questões mais abrangentes do que a participação deles no PE NO ROCK e direcionamos a entrevista para outro foco; o das políticas de incentivo cultural, a participação da iniciativa pública e privada na consolidação dos principais festivais do Recife e todos os enclaves políticos que ajudam ou atrapalham a cena local. Confira abaixo a conversa que tive com Zeroquatro e Bactéria, que se empolgaram tanto com o tema levantado que só pararam de falar porque foram interrompidos por uma banda de forró que começou a se apresentar no local

Qual o papel do Governo do Estado e da Prefeitura na realização dos principais festivais de Pernambuco. Existiria Abril pro Rock, Rec Beat e PE no Rock sem a atuação direta do poder público ?

Zeroquatro – Não vejo problema nenhum no fato desses festivais terem relação com o poder público, até porque são eventos de interesse da população. Acho que é obrigação mesmo da Prefeitura e do Estado incentivar esse tipo de empreendimento.

O que eu acho lamentável é que ainda é muito pequena a participação da iniciativa privada. Ainda há uma mentalidade muito equivocada do empresariado local. A gente sabe que aqui não tem a mesma disponibilidade de recursos e quantidade de verba circulando do que em São Paulo ou no Rio de Janeiro, ou até em outros centros que têm maior participação privada como Porto Alegre e Curitiba. Mas, guardadas as devidas proporções, ainda é muito pequena a participação da iniciativa privada aqui no Estado, tanto na cena cultual de uma forma geral como na música. Só para dar um exemplo, Renato L. teve um programa de rádio (“Manguebit”, na Caetés FM) que foi líder de audiência durante três anos, e a coisa mais rara do mundo era chegar alguém interessado em apoiar, em anunciar. Mas a medida em que eventos como esse (PE no Rock) ou a festa de 15 anos do Eddie, ou o Palco Pernambuco tiverem uma seqüência mais regular, acho que cedo ou tarde o próprio volume que a coisa for tomando vai atrair a atenção das empresas. Eles vão começar a ver que estão deixando de ter mais visibilidade com esse público, que hoje em dia não é um público como era há dez anos, quando ainda era um público muito underground. Você hoje tem uma festa como a do “Enquanto Isso na Sala de Justiça”, que atrai milhares de pessoas; você percebe que cada vez mais o público está ficando mais heterogêneo.

Por outro lado é muito positivo essa série de coincidências surgindo agora no começo do verão. Além do PE no Rock, vai surgir quase simultaneamente o novo programa de Roger, que terá um espaço bacana na TV, num bom horário.

É essa falta de visão do setor privado que impede a criação de um mercado auto-sustentável em Pernambuco ?

Zeroquatro – Voltando a falar da questão política: uma coisa legal da prefeitura foi ter encomendado um estudo da cadeia produtiva da música. E o resultado foi o seguinte: a gente ainda não conseguiu atrair alguns elos importantes da cadeia como rádio e TV.

Por que não ? Conservadorismo ?

Zeroquatro – Não. A gente ainda está passando por uma fase em que ainda precisamos da prefeitura. Por questões de agenda mesmo, a gente ainda não pôde sentar para cobrar uma atuação mais eficaz de alguns setores do poder público que ainda não foram sensibilizados. Cabe a gente mesmo o papel de pressionar. Mas aí tem a coisa das casa de show, rádio e TV, ou seja, do empresariado mesmo que teria um interesse direto em investir na cena, pois o empresariado seria beneficiado diretamente com esse investimento.

Sem a iniciativa do poder público não haveria a cena musical em Pernambuco ? Ou a relação não é tão direta assim ?

Zeroquatro – Discordo. Os primeiros eventos, que foram realizados antes mesmo do Abril pro Rock, não tiveram nenhum apoio público. O “Diário Oficina do Mangue” era um evento totalmente autônomo, era um evento feito pelas bandas, sem a participação de nenhum produtor profissional. As bandas faziam tudo

Bactéria – Eu me lembro de Chico Science tocando com o Lamento Negro no primeiro “Mangue Feliz”, que foi no Joana D’arc. A galera tava montando o palco! O Otto junto com o Lamento Negro montando o palco… a estrutura era muito precária…

Zeroquatro – Pois é, a gente mesmo produzia. As primeiras edições do Abril pro Rock não tiveram apoio público. A turma fez na raça e acreditou no apelo que aquilo teria junto ao público. Os poderes públicos só acordaram depois de alguns anos.

Bactéria – Eu aponto isso como uma revolução musical. Acho que teve muito a ver com o e a vontade da periferia e do subúrbio de mudarem a história…

Zeroquatro – É lógico que o apoio público ajudou a tirar a cena de um certo gueto. A cena era enxergada até então como um coisa alternativa, maldita, marginal. O poder público ajudou a desfazer esse preconceito. Mas acho que não foi, não é e nunca vai ser uma condição ou um requisito para que a cena exista e cresça.

Como vocês, com 20 anos de carreira, estão vendo a nova cena rock em Pernambuco ? Mudou muita coisa desde a época em que vocês começaram ?

Zeroquatro – Eu acho que uma coisa bem legal desse novo momento é o fato das bandas começarem a acreditar na idéia de que é possível gravar aqui. Isso para mim é um diferencial poderoso. Você monta uma banda hoje e já não tem mais aquela agonia de conseguir logo um contrato para viajar para São Paulo para gravar um disco. Isso já é um puta diferencial.

Bactéria – A partir do momento em que o mercado fonográfico despencou, essa ilusão por parte das bandas foi desaparecendo.

Zeroquatro – Foi desconstruída também a idéia que é preciso ficar no Rio ou em São Paulo por causa da mídia estar estabelecida naquele eixo. Hoje dou entrevistas para vários veículos do País sem precisar sair de Recife. Essa semana mesmo fui entrevistado pelo pessoal do “Jornal do Brasil” e da “Gazeta de Brasília”. Sem falar na quantidade de entrevistas que dou através da internet. Os esquemas hoje são mais descentralizados. O legal é que essa facilidade de comunicação foi surgindo num momento em que a cena já estava estabelecida.

Isso sem falar na cultura da produção local, que era uma coisa que não existia antes.

Zeroquatro – Pois é, os festivais estão ficando mais profissionais. Já temos produtores especializados em levar bandas daqui para o cenário internacional. E isso não foi o poder público que trouxe. Foi a galera na raça mesmo.

Bactéria – Depois de dez anos da consolidação do manguebeat, continuam surgindo bandas como Mombojó, Cordel do Fogo Encantado, Bonsucesso, que são bandas que estão tocando no Rio de Janeiro e em São Paulo, ou seja, a bola de neve continua. E não vai parar por aí. Isso que é bacana. Não é moda, e sim música boa que está sendo exportada não só para o resto do País como para fora dele também.

Zeroquatro – Participo de listas de discussão na internet e fico impressionado com a quantidade de gente que quer vir ao Recife conferir a cena. É um negócio de louco. Em todas as esferas, desde o público até mesmo profissionais da área de música, produtores, diretores de clipe. Como eu falei na revista “Recife”, ou você muda de lugar ou muda o lugar. Acho as duas iniciativas válidas. É legal sair porque você acaba mostrando o trabalho local para gente de fora, amplia o leque de público. E é bacana também a galera ficar aqui consolidando ainda mais a cena, fomentando público.

Uma coisa que desafia os pesquisadores do manguebeat é justamente a longevidade da cena. Hoje já temos o pós-manguebeat, e uma galera que transcende esse rótulo, como A Roda e etc. Isso já rolava no início também. No primeiro Abril pro Rock teve maracatu, rock, blues. Isso acabou sedimentando também um mercado de shows internacionais, quase todo mês tem alguma atração de fora do País… pô, tem o circuito do chorinho também.

Bactéria – Recife é a única capital que sempre priorizou a diversidade. Há muito tempo, quando ainda tocava numa banda de hardcore, eu freqüentava o “Beco da Fome” e todo mundo tava lá junto; os cabeludos, os punks, a galera mais mpb. Todo mundo convivia, e de certa forma ainda convive, na boa, metaleiro, playboyzinho, esse povo todo convive sem maiores problemas. Este é um fenômeno muito bacana daqui de Recife.

Zeroquatro – Hoje há uma integração maior em todo o País. Eu estava em São Paulo e fiquei impressionado com vários cartazes divulgando um festival que teria como atrações Sepultura, Ratos de Porão Inocentes e Nação Zumbi.

Bactéria – Massacration também estava escalado (risos)

Zeroquatro – Então, mas o principal é que pela primeira vez a Nação Zumbi tá tendo uma aceitação com um público que, em São Paulo, costuma ser bastante sectário. Lembro que quando foi lançado “Da Lama ao Caos” os radialistas de São Paulo piraram, acharam do cacete, mas diziam que não poderiam tocar na rádio porque o preconceito era muito grande, o público de lá detestava manguebeat, achava uma baianada dos diabos. Isso mudou hoje…

Neste momento uma banda de forró começa a tocar no “O Cangaceiro” e a entrevista teve que ser solenemente interrompida por conta da tal diversidade cultural local a qual se referia Bactéria..

A Mundo Livre S/A toca esta sexta no PE NO ROCK 2004 com a participações de BNegão, Jorge duPeixe e Cannibal!

PE NO ROCK 2004 (primeiro dia)

Sexta (24/09/2004) 20h

Local: Ancoradouro (Cais de Santa Rita – Em frente a EMTU/Antiga Rodoviária)

Preço: R$ 10 (antecipado) e R$ 20 (dois dias + camiseta) – Info: n/d

Pressão Sanguínea, Nós, Zantorriff, Azougue, Kaia Na Real, Dr. Dedo Verde e Mundo Livre S/A (participações: B.Negão, Jorge du Peixe e Cannibal)

Mundo Livre S/A

Links:
» Mundo Livre S/A no RecifeRock

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Posted segunda-feira, setembro 20th, 2004 under Notícias.

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