PE No Rock 2004 (Primeiro Dia)

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PE NO ROCK 2004 (PRIMEIRO DIA)
data: 24/09/2004 (Sexta) – local: Ancoradouro
com Pressão Sanguínea, Nós!, Zantorriff, Comunidade Azougue, Kaia Na Real, Dr. Dedo Verde e Mundo Livre S/A (participações: B.Negão, Jorge du Peixe e Cannibal)
Resenha por Hugo Montarroyos (palco 1) e Breno Mendonça (palco 2) – Fotos por Bruno Negaum

Mundo Livre comemora duas décadas no PE no Rock
em 24/09/2004 por Hugo Montarroyos (palco 1) e Breno Mendonça (palco 2)

Um vazio desconfortável. Um deserto em plenas margens do Rio Capibaribe. Assim foi a primeira noite do PE NO ROCK 2004, sem dúvida a de menor público da história do evento. O que aconteceu ? Talvez pouca divulgação. Ou falta de cuidado na escalação das bandas, afinal, fora o Mundo Livre, nenhuma tinha apelo de público. Há quem possa apontar o “Philips Music World Festival” como culpado. Mas a verdade é que são festivais distintos para públicos idem. Enfim…

Pressão Sangüíena

Pressão Sangüínea abriu bem a edição 2004 do PE NO ROCK para um público ínfimo. Tocaram para menos de 30 pessoas. É o preço que se paga por subir ao palco tão cedo. Uma pena, pois a banda faz um pop rock correto, competente, bem anos 80. Um belo de um contraste; um bando de moleques fazendo som retrô. Alguns momentos soarem bem interessantes, como na ótima “Controle”, música que possuí boas intervenções de teclados e uma textura sonora (para usar uma figura de linguagem) das mais agradáveis. As letras são um tanto ingênuas, mas a parte musical compensa os deslizes textuais. Trata-se de uma banda deslocada no tempo, mas que merece atenção e, principalmente, ser escutada por mais de três dezenas de pessoas.

Nós!

A primeira banda do palco 2 a se apresentar foi a Nós! (antiga Efeito Colateral). Executando um esforçado rock-hardcore com acentuada veia melódica, o grupo chegou a agradar boa parte das quinze pessoas que se encontravam na platéia. Mas só no início. Eles tiveram que começar sua apresentação desfalcados do baixista Daniel, que se atrasou e só chegou durante a execução da segunda música. Para remediar a situação um dos guitarristas assumiu o baixo. Até o baixista chegar tudo ia bem no som. Mas tão logo ele assumiu seu instrumento, tudo desandou. Foi um tal de som embolado, que não teve cristão que entendesse o que o vocalista Manuel cantava. O som da bateria estava horrível também. Fazer o quê. Os caras pelo menos mostraram raça. O caminho para a banda é simplificar o processo. Não é preciso milhares de solos e arranjos mirabolantes para se fazer uma boa música rock.

Zantorriff

O Zantorriff também merecia tocar para mais gente. Os caras fizeram um bom show, mostraram que são muito bons ao vivo e que são músicos mais do que tarimbados. Só que algo foge do controle da banda. As composições não fazem justiça ao talento do grupo. Fica a impressão que algo destoou na receita, que alguma coisa ficou fora de lugar. Nos momentos em que flerta com o peso, o grupo alcança resultados excelentes. O problema é que às vezes eles acabam se perdendo em virtuosismos desnecessários. De toda forma, é “uma banda de surf” (como fazem questão de frisar) que deveria ser escutada por mais gente. Pelo menos bem mais do que os poucos presentes no Ancoradouro.

Azougue

A percussão presente no palco já indicava. E o som comprovou. A Azougue , dissidência do Caiçaras, aposta numa sonoridade que remete diretamente ao mangue de Chico Science & Nação Zumbi. Evocando um sambinha aqui, um funk swingado ali. A verdade é que se novos elementos originais e inventivos não forem acrescentados à fórmula final, o caldo entorna. Enormemente prejudicado pelo som (a percussão só enfeitava o palco, pois estava inaudível), o grupo até que tentou mostrar a que veio. Mas a equação som ruim + sonoridade batida não tinha como não acabar num resultado negativo. Em um determinado momento do show, a impressão que se tinha é que cada integrante estava tocando uma música distinta. Os constantes gritos do vocalista, chamando a galera pra agitar, não surtiram efeito algum. E num set de pouco mais de 20 minutos, os caras ainda repetiram música (a mais acessível e redonda do repertório deles). Muita coisa para melhorar!

Kaya na Real

Já o Kaya na Real continua continuando a continuar a fazer o de sempre (a redundância faz-se necessária quando o assunto é reggae), ou seja, se dedicando a tarefa de embalar romances rastafáris e louvações à Jah. Foi literalmente o estranho no ninho na programação. Os discípulos de Marley não deram as caras no Ancoradouro (aliás, ninguém deu) e o show foi transcorrendo de forma travada, desenrolando-se ao longo da apresentação. Tecnicamente foi impecável, sem falhas. Pegaram algumas bases emprestadas, como foi o caso de “Jungle Boogie”, de Kool & The Gang, que pontuou boa parte de uma das canções. Encerraram com “Coqueiros”, música paleolítica do Eddie. Se foi bom ou ruim? Bem, detesto reggae e não fumo maconha. Mas mesmo assim achei o show do Kaya na Real bem bacana. Cumpriram o papel deles, agradaram aos poucos interessados em reggae da noite e saíram do palco cientes de que fizeram o segundo melhor show da noite.

Dr. Dedo Verde

Devo confessar que quando vi a escalação do PE NO ROCK 2004, fiquei abismado com o nome dessa banda. Mas que diabos o cara tem em mente pra botar um nome desses numa banda de rock (acreditava eu). Pois bem, o Dr. Dedo Verde não é uma banda de rock, mas sim um grupo de hip hop. Oriundos de Olinda, eles resgatam, pelo menos em Pernambuco, o rap de batida, onde quem dita o ritmo é única e exclusivamente o Dj. No caso deles, os Djs. Aliás, o Dr. Dedo Verde tem essa peculiaridade. Além dos Djs (três no total), o grupo ainda possui cinco vocalistas. E foi aí que se deu o maior problema para eles. Como já foi dito aqui, o som não era dos melhores. E ter cinco caras cantando ao mesmo tempo não contribui em nada. Era um emaranhado de vozes que ninguém entendia era nada. Alguém deles deve ter se tocado disso e os caras maneiraram. Apesar de não inovarem em nada, eles conseguem ser bem sucedidos no que se propõem a fazer. As referências mais claras são grupos pernambucanos como Faces do Subúrbio e Sistema X, tanto na temática das letras (trazendo à tona as mazelas da sociedade), quanto nas batidas, por vezes secas só com o vocal em cima. Essa crueza tem seu lado bom e o ruim. A boa performance depende muito do talento dos “rappers”. E nesse quesito o grupo se garante ( os caras conseguiram agitar bem a platéia , que a essa altura já era bem mais numerosa). Mas por outro lado é impossível aguentar mais do que meia hora de um show desses. Adicionar um pouco de musicalidade não faz mal a ninguém. Mas como o show durou exatos 30 minutos, então tudo bem.

Mundo Livre S/

Quando o Mundo Livre S/A subiu no palco o público já era bem maior, mas, ainda assim, pequeno. Zeroquatro estava visivelmente feliz e orgulhoso. Pôs-se logo a mostrar o tratado antropológico do samba ao tocar “O Mistério do Samba”. Ensinou às novas gerações como escrever boas letras, como nos versos “contrair matrimônio é um atalho para o manicômio” ou “Recife, cidade-estuário, és tu”.

O Mundo Livre é uma banda que transcende a esfera musical. São ruins de palco e sabem disso. A força de sua obra reside na palavra e na ousadia da alquimia, na petulância de inserir cavaquinho no rock e de não ter pudores em compor rock como quem compõe samba. São músicos limitados que possuem um talento divinatório para a composição. Daí o fato de ser uma banda tão amada e ao mesmo tempo odiada.

Voltando ao show… com as bases de “Homero, o Junkie”, Zeroquatro chamou Cannibal, que estava disfarçado de Bob Marley, para juntos cantarem “Punk Rock Hardcore Alto José do Pinho”. Depois, com o instrumental de “Bolo de Ameixa” marcando o ritmo, mandaram uma versão assassina (no melhor e pior sentido) para “Eu Tenho Pressa”. Foi desafinado e bonito, tosco e legal, fuleiro e bacana.

Trataram de chamar o boa praça B Negão para incendiar o local com a genial “A Verdadeira Dança do Patinho”, funk-rock-de-periferia com letra de protesto que faz parte do repertório do alucinado e alucinante “Enxugando o Gelo”. B Negão definitivamente deixou uma pulga atrás da orelha de quem acha que o grande talento por trás do Planet Hemp atende pela alcunha de Marcelo D2.

Como não poderia deixar de ser, Zeroquatro desafinou lindamente em “Compromisso de Morte” e errou um monte na guitarra enquanto tocava “A Bola do Jogo”. Mas estamos falando do Mundo Livre, banda que consegue transformar erro em arte, limitação em poesia.

Jorge du Peixe foi recrutado em “Xicão Xucurú”, permanecendo no palco durante a execução de “Seu Suor é o Melhor de Você”. Poucas vezes tais músicas soaram tão raivosas quanto ontem. Foram tocadas com raça e tesão, resultando num dos pontos altos do show.

Uma rápida pausa e a banda volta para tocar o anti-hit “Livre Iniciativa”, o cruzamento perfeito entre samba e punk, entre tradição e modernidade, entre o ontem e o amanhã. Depois disso veio o melhor da festa; Cannibal, Jorge du Peixe e B Negão voltam ao palco para uma versão histórica de “Malungo”, executada com esmero e emoção, naquele que foi sem dúvida o melhor momento da noite. Só faltou “Meu Esquema”

Vinte anos, cinco discos lançados e uma história e tanto para contar. Duas décadas de malandragem, de novo trabalho, de samba esquema noise, de muito carnaval na obra, de pastilhas coloridas, de um compromisso de morte com a independência e a honestidade, de pernas fortes e braços de aço como os de qualquer trabalhador. Goste-se ou não, este é o novo mundo, o mundo do Mundo Livre S/A . Assim seja.

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Links:
» Mundo Livre S/A no RecifeRock
» Zantorriff no RecifeRock

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Posted sábado, setembro 25th, 2004 under Coberturas.

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