Festival de Verão Do Recife 2005 (1ª Noite) – I

Por Hugo Montarroyos em 21 de janeiro de 2005

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FESTIVAL DE VERO DO RECIFE 2005 (1 NOITE) – I
data: 21/01/2005 (Sexta) – local: Chevrolet Hall
com Cidade Negra, Marcelo D2, Jota Quest, CPM 22 e Engenheiros do Hawaii. Tenda Regional: Eddie, Suvaca diPrata, Estrógeno e Zé Bronca
Resenha por Hugo Montarroyos – Fotos por Bruno Negaum

D2 fez o melhor show da noite…
em 21/01/2005 por Hugo Montarroyos

Uma estrutura gigante abrangendo dois palcos, uma “concha acústica” e uma boate localizada na Chevrolet Hall foi invadida por um público igualmente gigantesco na primeira noite do Festival de Verão do Recife. Coisa de primeiro mundo mesmo.

A primeira banda a se apresentar foi o Suvaca di Prata, que tocou para alguns poucos interessados no palco destinado aos grupos locais. Aliás, vale aqui ressaltar a ótima estrutura de som e de luz da concha. O Suvaca fez um show correto, com algumas pitadas de reggae e tentativas frustradas de fazer som black. Trata-se de uma banda ruim formada por excelentes músicos, que não têm vergonha de pegar emprestado bases alheias. O hit “Dia D”, por exemplo, tem uma linha de baixo idêntica a de “Jungle Boogie”, do Kool e The Gang. No mais, o Suvaca di Prata é uma espécie de Jota Quest querendo trilhar caminhos mais alternativos, o que não é lá uma comparação exatamente elogiosa.

Foi a única apresentação local que consegui ver durante toda a noite, pois, a partir daí, os shows da concha rolaram simultaneamente aos dos palcos principais.

O político, demagogo e oportunista Cidade Negra fez um show vergonhoso, mas muito bem aceito pelo público. Com status de apresentador global, Toni Garrido conduziu a platéia tal qual um pastor da igreja universal. Político no pior sentido da palavra, dedicou “Perto de Deus” a todas as bandas que tocariam depois do Cidade, citando musicalmente o Charlie Brown Jr. com “O Côro Vai Comê” e “Zóio da Lua”. Se o original já é ruim, imagine copiado pelo Cidade Negra. Não satisfeito, declarou que “somos nordestinos”, esquecendo que é carioca com sotaque de Copacabana. Esperto, homenageou Chico Science tocando um trecho de “Rios, Pontes e Overdrives”, chamou George Bush de “filho da puta” e o mandou “para a casa do caralho”. Na verdade não foi um show, e sim uma aula de marketing pessoal. O público adorou e embarcou sem medo na demagogia de Toni Garrido. Musicalmente, o grupo cometeu alguns pecados, como atravessar e se atabalhoar desastrosamente durante a execução de “Na Rua, na Chuva ou na Fazenda”, de Hyldon. Ainda dedicaram “Girassol” “ao amigo Cannibal”, tocaram Eu Também Quero Beijar” (Pepeu Gomes), levantaram a platéia com “O Erê” e completaram a saraivada de “homenagens” ao presidente americano ao som de “Geração Coca-Cola”, numa versão que faria Renato Russo cuspir de volta todo o lixo cênico que foi a apresentação do Cidade Negra. De um oportunismo poucas vezes visto na história da música brasileira. O público? Curtiu pra caramba. Esbarrei depois com uma menina que, perdida no tempo e no espaço, me perguntou se o show do Cidade Negra já tinha começado. A cara de decepção que ela fez ao saber que o grupo já havia encerrado a apresentação me deixou com uma pulga atrás da orelha: qual a graça que o povo vê no reggae pasteurizado que a banda faz? Vai saber…

Já o Engenheiros do Hawaii mostrou seu diluído e diminuto acústico para um público pouco empolgado. A verdade é que as versões desplugadas dos Engenheiros são fracas, ou seja, eles tiveram a capacidade de piorar o que já não era lá essas coisas. Paradoxalmente, o que segurou o ânimo da moçada foram justamente as baladas, como “Refrão de um Bolero” e “Somos quem Podemos Ser”. O anacronismo da bonita “Eu que não Amo Você” foi um dos poucos acertos de um show morno, tedioso e muito longo. Sem falar que os escorregões foram grosseiros. “O Papa é Pop” acústico consegue ser pior do que o original, e a versão horrorosamente horrorosa de “Infinita Highway” simplesmente destruiu um dos até então inabaláveis clássicos da banda. Os momentos de maior interação popular foram o cover de “Era Um Garoto” e a execução de “A Revolta dos Dândis”, talvez o único acerto de todo o acústico dos Engenheiros. O show agradou apenas aos fãs que se espremeram na frente do palco. Agora, justiça seja feita: pelo menos Humberto Gessinger não é demagogo e não puxa o saco de ninguém. Neste quesito, o Engenheiros é uma banda mais do que digna.

O endiabrado Marcelo D2 começou seu show levantando a massa (no bom sentido) e fazendo uma apresentação que apagou a má impressão deixada no último “Abril pro Rock”. Misturando samba e hip hop, Marcelo interagiu com o público de forma impressionante, esbanjando carisma e competência numa performance arrojada e amparado por um ótimo time de músicos. Homenageou Bezerra da Silva, pai do “sambandido” falecido nessa semana; tocou “Eu Tive um Sonho”, de Thaíde e DJ Hum e saudou a malandragem com a ótima “1967”, tudo isso acompanhado por um mar de mãos chacoalhadas ao ar. “Qual é? ” revelou-se uma jóia rara, um verdadeiro achado entre o samba de velha guarda e George Clinton. E assim Marcelo vai sedimentando seu caminho entre o samba, o rap e o hip hop, indo à procura da batida perfeita, que, aliás, está bem perto de encontrar. Dando seqüência ao show, D2, como de costume, chamou uma menina na platéia para cantar junto com ele “Loadeando”, de longe a coisa mais chata que o cara já compôs. E a garota até que não fez feio.

O final, em compensação, foi apoteótico. Ao cantar “Queimando Tudo”, do Planet Hemp, e enlouquecer a multidão, Marcelo teve que interromper a música para dar uma aula de “boas maneiras” aos seguranças, que saíram distribuindo porrada naqueles que se atreviam a abrir uma roda de pogo. “Deixa a molecada se divertir”, bradou D2. “Parece que eles estão se batendo, mas na verdade estão se divertindo”, explicou o músico, que enrolou um pouco, fez jogo de cena e sapecou novamente “Queimando Tudo” para delírio geral. Fiquei com a impressão de ter presenciado o melhor show da carreira dele.

Foi então que começou o pesadelo de epifania que atende pelo nome de Jota Quest. Não há adjetivos pejorativos suficientes no dicionário para expressar o horror que é testemunhar um show do JQ. Pior é a reação do público diante de tamanho embuste sonoro. O camarote em que me encontrava quase veio abaixo, numa prova cabal que o som da banda é produzido e calculado para cair nas graças de consumidores endinheirados que acham que música se limita ao que toca no rádio e faz sucesso. O Jota Quest é um estelionato em forma de banda. Tang e Gelatina Royal juntos são menos artificiais que o som do grupo, que se resume numa tentativa patética de fazer black music, culminando numa pasta mole e disforme, uma fábrica de hits vazios e imbecis como “Encontrar Alguém” e coisas do gênero. O vocalista Rogério Flausino resumiu bem a linha ideológica da banda ao anunciar uma das músicas dizendo: “Agora a gente vai tocar aquela do rádio”, se referindo a “Mais uma Vez”, novo sucesso radiofônico do grupo, mais um fruto dos jabás da vida. No mais, o que se viu foi pirotecnia em excesso e conteúdo artístico em escassez. Ainda tiveram a audácia de, durante uns vinte minutos, transformar o palco numa verdadeira boate, numa ode à enrolação que acabou dispersando o público. A sensação que se tem num show do Jota Quest é a de voltar ao tempo do “Planeta dos Macacos”, tamanho o grau de imbecilidade das composições. Bem, pelo menos não tocaram “Fácil”.

O fraquíssimo CPM 22 encerrou a noite mostrando seu meloso hardcore melódico feito para adolescentes. Trata-se de uma banda que faz um som frouxo, desprovido de atitude e conteúdo, resultando num dos fenômenos mais canhestros que a música jovem já produziu. Mas a molecada gosta, fazer o quê? As letras são profundas como um livro de Paulo Coelho, e a sonoridade é abafada e regulada ao máximo para garantir seu lugar nas fms da vida. Para não dizer que sou injusto, o show deles foi melhor que o do Jota Quest (o que não quer dizer grande coisa). “Regina Let’s Go” é o espelho da geração “Malhação”, que lê pouco, vê muita TV e talvez por isso acabe engolindo (e achando bom) goela abaixo coisa tão infantil e boboca quanto o CPM 22.

Tiveram a pachorra de tocar “Stay Away”, do Nirvana, e pelo menos admitiram que Kurt Cobain deveria estar se revirando no túmulo enquanto eles assassinavam a obra-prima assinada pelo pai do grunge.

O CPM 22 não passa de um Balão Mágico posando de revoltado. No mais, o melhor momento do show foi quando atiraram uma calcinha no palco. Empolgado, o vocalista Badauí indagou: “Está usada pelo menos?”, e, decepcionado, constatou que estava limpa, jogando então a seguinte delicadeza para o público: “Pô, joguem uma calcinha menstruada da próxima vez”. Pois é, esses são os “rebeldes” do novo século…

No fim das contas, foi o show com menor público, o que não deixa de ser uma surpresa e um alívio. Ainda há esperança na Terra.

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