Rec-beat 2005 (Terceiro Dia)

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REC-BEAT 2005 (Terceiro Dia)
data: 07/02/2005 (Segunda) – local: Caís da Alfândega (Recife Antigo)
com Cordel do Fogo Encantado, Black Alien (RJ), Lula Queiroga e Wolfgang e Del Rey
Resenha por Hugo Montarroyos – Fotos por Bruno Negaum

Cordel só não fez chover no RECBEAT…
em 07/02/2005 por Hugo Montarroyos

Curto e grosso: O RECBEAT testemunhou ontem aquele que talvez tenha sido o melhor show de sua história. Poucas vezes no festival houve uma sintonia tão grande entre algumas dezenas de milhares de pessoas e uma banda, aquele efeito mágico, transcendental e inexplicável que os historiadores da arte chamam de catarse. É bom frisar que antes do ápice da noite que foi a apresentação do Cordel do Fogo Encantado, o dia foi marcado por três bons shows que a antecederam.

Del Rey

Um público em sua grande maioria jovem conferiu a ótima performance do Del Rey, projeto de China e Mombojó que resgata o melhor do repertório de Roberto Carlos, em versões inusitadas e absurdamente boas. China possui uma presença de palco que o Rei jamais ousou ter, e o show da banda foi pontuado por momentos da mais pura (sei que a palavra é brega, mas não cabe outra melhor aqui) ternura. O vocalista “encarnou” um Roberto Carlos dançante, educado e digno de mestre de cerimônias, que comandou o público na manha durante todo o show. O clima na platéia era dos mais descontraídos, com meninas fazendo passos de dança e casais dançando colado ao som das baladas que marcaram gerações mais distantes. Mas houve barulho do bom também. “Imoral, Ilegal e Engorda” ganhou uma arranjo acentuado no groove, e “Eu Te Darei o Céu” foi acompanhada por guitarras distorcidas, dando um tempero do capeta à melodia original. Agora, hilário mesmo foi ver o grupo mandando ver “Emoções” enquanto China jogava rosas beijadas para o público, numa menção ao clássico gesto de RC. Outra canção que ganhou roupagem envenenada foi “Você Não Serve pra Mim”, sublinhada por um dos refrães mais poderosos que Roberto Carlos já cantou. Felipe S. comandando uma das guitarras e Chiquinho conduzindo seu teclado jovem guarda foram outros bons destaques da ótima apresentação do grupo, que tem como trunfo para o êxito da empreitada a consciência de que tudo não passa de uma saudável brincadeira. Surreal e muito divertido.

Lula Queiroga

Acompanhado de uma excepcional banda e deixando seus habituais excessos vocais de lado, Lula Queiroga foi outro que fez um show pra lá de competente. Entre emboladas psicodélicas e sambas modernosos, Lula tocou a ótima “Roupa no Varal”, saudou o amigo Lenine com “Dois Olhos Negros” e “A Ponte”, chamou Pedro Luís para cantar “Ah Se Eu Vou” e “Jacira” e esbanjou talento em boas canções como “Cano na Cabeça” e “Eu no Futuro”, ambas amparadas por ótimas letras. Destaque para o sensacional percussionista Lucas dos Prazeres.

Black Alien

Black Alien contrariou as expectativas (pelo menos as minhas) e colocou a multidão para cantar seus bons raps, como “O Informe”. Impressionante a resposta do público para um álbum que foi lançado bem recentemente. Muita gente sabia todas as letras de cor, e Gustavo Black Alien saiu do palco ciente de que tinha cumprido com louvor sua “missão” de disseminar o rap país afora.

Cordel do Fogo Encantado

Difícil classificar a tempestade sonora que foi a apresentação do Cordel do Fogo Encantado, um dos melhores shows que já vi na vida. A química entre a banda e o público, o carisma do incendiário Lirinha e o batuque tribal e áspero produzido pelo grupo são fenômenos que talvez nem a ciência explique. O Cordel não é uma banda pop, não faz um som “fácil”, coisa que dificulta ainda mais o entendimento do fenomenal (e merecido) sucesso que a banda faz. Foi o grupo pisar no palco para ter início uma comunhão e um transe coletivo que só teriam fim quando os caras encerraram a apresentação. Vi o show do palco, e os queixos caídos de jornalistas no backstage era um “espetáculo” (para usar um termo que Lirinha tanto aprecia) à parte. “A Matadeira” foi executada de maneira tão raivosa e “punk” que acabou gerando uma roda de pogo no público. “Tempestade” fez justiça ao título e, enquanto Lirinha entrava em outra dimensão, os milhares presentes pareciam acompanhá-lo rumo ao desconhecido. Não é tarefa fácil descrever um show do Cordel do Fogo Encantado. Ainda mais quando você tem o privilégio de assistir do palco. A banda precisa urgentemente gravar um disco ao vivo. É o tipo de evento que merece um registro histórico e que pouparia nós, pobres jornalistas, da árdua tarefa de tentar justificar o injustificável, explicar o inexplicável, traduzir em palavras aquilo que nem trezentas páginas seriam capazes de decodificar. E sabe como Lirinha encara tal catarse? Com as seguintes palavras: “É um prazer estar aqui fazendo música na frente de vocês, sem medo de errar”. Essa simplicidade e a coragem de conviver com a possibilidade do erro talvez expliquem em parte o processo de construção de uma possível entidade mitológica em forma de banda que o Cordel está prestes a se transformar. Sei que corro o risco de carregar nas tintas, mas, assim como o Cordel, prefiro assumir o eterno convívio com o erro e arriscar, escrever da maneira mais sincera possível sobre o que vi e ouvi . “Nossa Senhora da Paz”, “Zóim” e “Chover (Evocação para Um Dia Líquido)” tiraram do sério até quem estava ali a serviço, desde jornalistas até técnicos de som e músicos de outras bandas. A mistura entre Arcoverde e Morro da Conceição provou ser uma combinação explosiva, um espetáculo que mistura teatro, poesia e música. É muito bom ver uma reação popular tão forte sem ser num show de Ivete Sangalo. É a prova que ainda há espaço para a arte, e que tal termo cada vez mais acadêmico pode se tornar popular sem cair no popularesco. O Cordel do Fogo Encantado só não fez chover na segunda-feira de carnaval. Mas aí já era pedir demais…

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Links:
» Cordel do Fogo Encantado no RecifeRock
» Lula Queiroga no RecifeRock

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Posted terça-feira, fevereiro 8th, 2005 under Coberturas.

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