Tom Zé no Gororoba na Moeda

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TOM Z NO GOROROBA NA MOEDA
data: 14/10/2005 (Sexta) – local: Rua da Moeda
com Tom Zé e Batuque
Resenha por Hugo Montarroyos – Fotos por Bruno Negaum

A consagração de um ex-excluído…
em 14/10/2005 por Hugo Montarroyos

Poucas coisas na vida são tão compensadoras quanto comprovar que ainda existe luz no fim do túnel da cada vez mais escura e imbecil indústria cultural de nossos dias. Ver a Rua da Moeda absolutamente lotada para conferir um show de um artista que jamais foi popular, que carregou por anos a fio nas costas o estigma de maldito e que não toca nas rádios é um claro indicativo de que as coisas não estão tão perdidas assim.

Na mesma cidade onde Tom Zé declarou ter feito o melhor show de sua carreira (no Abril pro Rock 99), no mesmo Estado onde quase morre após uma apresentação (no Abril pro Rock 2002, ocasião em que teve um princípio de enfarte), o baiano nos brindou novamente com sua inteligência, irreverência e musicalidade para lá de particular.

Amparado no repertório do genial “Estudando o Pagode – Na Opereta Segrega Mulher ”, Tom Zé e banda tiveram certa dificuldade em transpô-lo para o palco devido ao precário som no início do show. Obra complexa, rica em detalhes, exige um sistema de som perfeito para reproduzir ao vivo todos os experimentos feitos no disco. Ainda que estivesse longe da perfeição, o problema foi sanado aos poucos, e o amigo de David Byrne pôde desfilar suas idiossincrasias sem ligar para percalços técnicos. Sua performance, que já foi elogiada inclusive pelo “New York Times ”, ajuda bastante a prestarmos menos atenção aos detalhes técnicos. Sua figura se agiganta tanto no palco que parece engolir todo o resto. Pula, interpreta, recita, faz do pedestal do microfone gato e sapato, provoca, instiga.

Do novo trabalho tocou “Ave Dor Maria ”, “Estúpido Rapaz ”, “Mulher Navio Negreiro ”, “O Amor é Um Rock ” e “ElaEu ”, com destaques para as duas últimas, que, despidas de qualquer sofisticação, acabaram funcionando melhor ao vivo devido ao seu formato mais cru e roqueiro. Apresentou um jingle hilário para vender seu disco, que podia ser adquirido no local por 20 pilas, com direito a autógrafo do homem.

Antes de tocar “Politicar ”, canção do conceitual “Com Defeito de Fabricação ”, desabafou: “Vou fazer um discurso aqui. Espero que vocês aprovem. Eu ia discursar na ONU, mas depois que o Lula e o Severino Cavalcanti discursaram lá, acho que me resta discursar no puteiro mesmo ”, provocou. E brincou com o amigo local: “Vou vestir um paletó. Preciso ficar elegante nessas horas. Não vou fazer igual ao Zeroquatro, que vive de boné e com aquele cavanhaque ”, satirizou. Cantou a música, que teve fantástica reação popular. Ao anunciar que um menino de três anos estava perdido à procura dos pais, eis que Tom Zé o localiza no meio da platéia, faz com que o garoto suba ao palco e o carrega no colo durante a execução de “Augusta, Angélica, Consolação ”, a “Sampa ” do baiano menos famoso, arrogante e pretensioso. Depois disso, o garoto ficou instalado numa cadeira no palco, enquanto a banda terminava seu show.

E assim Recife acabou sendo testemunha de mais um show histórico do baiano que vem fazendo história na capital pernambucana nos últimos anos. Coisas de um artista que consegue estar no apogeu da carreira mesmo sendo um sexagenário. Não é para qualquer um chegar a tal estágio nessa fase da vida. Entre os gênios de sua geração, Tom Zé é o único com potencial criativo ativo tão bom ou ainda melhor do que no início de sua carreira. E, convenhamos, isto não é pouca coisa.

Depois de mais de uma hora para a montagem do palco e ajuste de som, o ótimo Batuque, de Peixinhos, fez um show privilegiando o tribalismo (o verdadeiro, não aquela coisa perfumada e irritante de Marisa, Carlinhos e Arnaldo), com ênfase no samba de terreiro e batidas que chegavam a assustar devido ao peso que proporcionavam. Tocaram para metade do público de Tom Zé, mas quem estava lá não reclamou nem um pouco, e acabou entrando no transe provocado pelos tambores. Uma ótima banda que merece ser descoberta, numa noite em que foi coadjuvante de um gigante que, se oxalá permitir e Paulo André quiser, estará no Abril pro Rock 2006 escrevendo novo capítulo de uma história de amor chamada “Tom Zé e o Recife”.

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Posted segunda-feira, outubro 17th, 2005 under Coberturas.

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