Rec-beat 2006 (Segundo Dia)

REC-BEAT 2006 (Segundo Dia)
data: 26/02/2006 (Domingo) – local: Paço da Alfândega (Recife Antigo)
com 3ETs Records, Cinval Coco Grude, Beto Kaiser, Carimbó Uirapuru (PA), Jumbo Elektro (SP) e Pavilhão 9 (SP)
Resenha por Sofia Egito – Fotos por Divulgação do Rec-Beat 2006

O festival tem a proposta de trazer o novo e, nesse domingo, assim o fez…
em 26/02/2006 por Sofia Egito

Domingo de carnaval: mais uma vez milhares de pessoas se reúnem para prestigiar o Rec-Bat, um dos eventos mais importantes do carnaval multicultural do Recife. A noite começa devagar, perto das oito horas, com 3 ETs Records. Cheio de batidas loucas e letras mais ainda, Paulo do Amparo e seus três ET’s (marionetes) fazem seu show para poucas pessoas.

Quase uma hora depois, Cinval Coco Grude entra em cena para despertar ainda mais a curiosidade das pessoas. Havia mais ou menos 300 pessoas ouvindo a psicodelia das batidas programadas acompanhadas de uma guitarra, percussão e um trompete, além das letras loucas (“é a noite que o bicho pega/ o som do grilo é um tapa na orelha/ o mundo gira e você quer uma cerveja”) cantadas por Cinval. Uma performance teatral de qualidade musical duvidosa, porém com alguns momentos interessantes: o trompete marcava presença em todas as músicas com uma sonoridade agradável e as letras contemporâneas e críticas de Cinval chegavam a ser engraçadas quando dava para entender. Rolou até uma versão doidona de “Satisfaction”, dos Stones. Foi aplaudido ao final do show.

Dez da noite. Eu não esperava muito de Beto Kaiser com seu rock/blues instrumental num domingo de carnaval no Recife Antigo. Mas me surpreendi. O público – agora constituído de mais de 700 pessoas – estava atento a cada passo que os quatro músicos (Beto na guitarra, Gustavo Albuquerque nos teclados, Bruno Vasconcelos na bateria e Sérgio Eduardo no baixo) davam. A banda faz um rock psicodélico, progressivo, muito bem arranjado nos quatro instrumentos. Tocaram cinco músicas, entre as quais, “Espanhola”, um cover do guitarrista Robben Ford e “Seu Deda”, onde Beto Kaiser sozinho toca seu violão, recebendo aplausos antes mesmo de terminar a música. Ainda ameaçam o “Hino das Vassourinhas” só para empolgar o público, mas logo vão embora, depois de meia hora de show.

Pouco depois das onze da noite é a vez do Carimbó Uirapuru, do Pará. Carimbó é um ritmo popular da região amazônica. O grupo Uirapuru veio de Marapanim e parecia bem tradicional. Das dez pessoas no palco, somente uma não estava vestida a caráter: um menino com seus sete ou oito anos, cantando e tocando banjo. Acompanhando ele, sete percussionistas (incluindo dois tocando o instrumento que dá nome ao ritmo), mais um banjista (que também cantava) e um saxofonista. A música é muito dançante e a percussão só parava para descansar. A diferença entre uma música e outra só era notada nas letras e melodias, a batida era sempre a mesma. Umas 100 pessoas dançavam e mais umas outras centenas ficaram só assistindo. Letras como “ai, quem me dera/ se eu fosse rico/ se eu tivesse dinheiro/ eu casava com ela” mostravam a inocência do som feito ali. À meia-noite, quase uma hora de batuque depois, o show termina.

Abram alas para os malucos do Jumbo Elektro! Guitarra, baixo, bateria, teclado e dois vocais (um deles dj) compunham a banda. Meia-noite e vinte é hora de ouvir o que os paulistas, que lançaram um disco chamado “Freak To Meet You – The Very Best Of Jumbo Elektro (The Ultimate Compilation)” (2004) têm a dizer. Trabalho complicado, porque mesmo que você consiga entender o que eles cantam – em inglês ou alemão ou francês, não se sabe ao certo – não vai fazer muito sentido. O hit é “Freak Cats” e quase todos da banda cantam (ou fazem backing vocal) dizendo nada com coisa nenhuma. Muito bom. Outra música tem um refrão bem singelo: “I wanna fuck!” repetido três vezes em alto e bom som. Músicas como “She Has A Penis”, “Freak To Meet You”, “Stereo Man”, “Happy Mondays” e outra que tem três títulos (e eu não consegui entender nenhum dos três) só podem chamar atenção. E milhares de pessoas estavam lá, ouvindo. Além da bizarra criatividade verbal, o som é outro capítulo à parte: um rock eletrônico bem compassado e muito dançante, que você encontraria facilmente em algumas boates recifenses, não fossem as firulas, efeitos e backing vocals surreais. A platéia, que, diga-se de passagem, estava num clima carnavalesco, adorou: riu e dançou até se descabelar.

Perguntei ao tecladista Dudu Tsuda (ou Dimas Turbo, enquanto personagem da banda) quais as impressões do show e ele disse que a receptividade tinha sido impressionante. “Frevo ali, Pavilhão 9 aqui, a gente tocando… Teoricamente não tem nada a ver, mas o público adora”. Isidoro Cobra (ou Hans Sakamura), baixista, disse que, no começo, não sabiam qual seria a reação do público – que foi o maior que já tiveram -, mas que quando viram as pessoas animadas foi legal. O vocalista Tatá Aeroplano (ou Frito Sampler) – que, aliás, tem uma ótima presença de palco, pulando de um lado a outro ensandecidamente – disse que “com certeza foi o show mais bacana, demais”.

Para fechar a noite, Pavilhão 9. O volume do som já estava alto quando a Jumbo Elektro estava em cena, mas quando o Pavilhão 9 subiu ao palco, o peso tomou conta. O espaço destinado à platéia do Rec-Beat – que não é pequeno – estava lotado. A banda esbanjava energia e, com seus dois vocais e duas guitarras, além do baixo, da bateria e do dj, fez o público (predominantemente masculino) pular entre um hardcore e um rap. Tocaram várias músicas do disco novo, “Público Alvo”, como “Mundo Loco”, “Expressão” (nessa música, uma roda punk levantou poeira na platéia) e “Polícia e Ladrão”. Também rolaram alguns clássicos como “Vai Explodir” (trilha sonora de “O Invasor”), “Reação”, “Otários Fardados” e “Opalão Preto”. Nesta última, sobre uma base do DJ, os vocalistas cantaram o refrão de “A Cidade”, de Chico Science & Nação Zumbi. Tocaram ainda “Grito de Liberdade”, “Terra de Ninguém”, “Trilha do Futuro” e também uma versão da música “Gimme Tha Power”, da banda mexicana Molotov. Músicos habilidosos, com uma boa presença de palco, passando sua mensagem em forma de rap, porém com gosto de rock da pesada.

O festival tem a proposta de trazer o novo e, nesse domingo, assim o fez. O novo que é velho no Pará, o novo que é velho em São Paulo e até o novo que é velho no Recife, mas sempre o novo que é novo para a maioria. O público durante a noite foi mudando, se adaptando aos “novos” que chegavam e a noite acabou com cara de quem agradou a muitos por algum tempo, mas não a todos o tempo todo. Alguém já disse: é impossível.

Links:
» Rec-Beat no RecifeRock!
» 3 ETs Records no RecifeRock!
» Cinval Coco Grude no RecifeRock!

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Posted quarta-feira, março 15th, 2006 under Coberturas.

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