RecBeat 2007 – Primeiro dia

É bom deixar claro: é um fã de Tom Zé que está teclando essas linhas. Assim sendo, vamos aos fatos: o Zefirina Bomba fez o melhor show desta edição do RecBeat. Tudo bem, outros bons shows virão, outras atrações bacanas passarão pelo palco do festival. Mas nenhuma terá o mesmo impacto e a mesma força que a apresentação dos paraibanos teve. Quem testemunhou sabe disso.

Dj Big e Confluência (foto por Vladia Lima/divulgação)

Talvez por conta da escalação mais alternativa, ou até mesmo em função do Galo da Madrugada, acabou sendo tímido o público que compareceu ao Cais da Alfândega no primeiro dia do RecBeat Uma pena, pois a primeira surpresa estava reservada logo no início da noite. O ótimo DJ Big e Confluência teve uma performance que primou pela criatividade. Com três vocalistas, sendo duas mulheres, o grupo deixa uma bela interrogação no ar: adiciona repente e embolada ao rap? Ou traz o rap para a embolada? Banda que tem seu núcleo formado no Alto José do Pinho e em Água Fria, bairros recifenses, A Confluência ousou, colocou o repentista Ivanildo Vila Nova para dialogar com o hip hop, apresentou letras contundentes e criativas e deu um novo viço à um ritmo que parecia já ter explorado todas as suas possibilidades. E descobriu que o novo se faz a partir da tradição. Enfim, um show que foi muito bem aceito, cantado inclusive por um público que estava ali apenas para vê-los. Anotem o nome.

Depois foi a vez de Erasto Vasconcelos entrar em cena. Descrever uma apresentação dele é uma das tarefas mais inglórias para um jornalista. Vamos tentar: Erasto é uma figura ímpar, de presença forte e de uma pureza que faz falta hoje ao ser humano. Ele é acompanhado de um banda azeitada, que passeia por frevos, forrós, xotes e pelas idiossincrasias do percussionista. Músicas como O Baile de Betinha primam pela forma mais artesanal de se fazer música, com flauta em primeiro plano, parecendo um chorinho saído dos livros de José Ramos Tinhorão. Não conhece? Pesquise! Bem, quem viu um show de Erasto Vasconcelos viu todos. E tem vontade de ver mais. Foi uma apresentação que rendeu mais do que o esperado.

O brasiliense Supergalo começou muito bem, com uma sonoridade que remetia ao que o rock tem de mais primal: baixo, guitarra e bateria. Mas foi prejudicado pelo som, que estava alto demais, beirando o insuportável. A banda é a nova formação do Raimundos sem o vocalista Digão, tendo como destaque o baterista Fred. Tinha tudo para ser um excelente show, mas o som comprometeu um bocado. No mais, o que ficou na memória foi a pior versão que alguém já fez para God Save The Queen, do Sex Pistols.

Zefirina Bomba (foto por Vladia Lima/divulgação)

Os poucos acordes de Alguma Coisa Por Aí serviram de pista para o estrago que estava por vir. Sem vergonha de assumir sua devoção pelo Nirvana e de levá-lo para o sertão paraibano, o Zefirina Bomba mostrou com quantas pedradas se faz um legítimo rock n’ roll: sem intervalos entre as músicas, sem blá-blá-blá, deixando de lado toda a frescura que por vezes permeia o gênero e se concentrando em uma só coisa: moer os tímpanos do público. O guitarrista/violeiro (que troço é aquele que ele toca?) Ilson comandou um espetáculo insano. Primeiro, criou um novo formato: o pogo-karaokê. Ao ver que o público pedia Ramones, ele resolveu atendê-lo de uma forma inusitada. Tocou a base de Blietzkrieg Pop para a enorme roda cantar. E deu certo! Após mais algumas lapadas do calibre de Sobre a Cabeça e Dia Inteiro, o final redentor. Uma psicodélica homenagem ao igualmente psicodélico Syd Barret, culminando em uma cena que teve doses proporcionais de drama e hilaridade. Ilson jogou sua guitarra/viola no chão, pulou vezes sem conta em cima dela, a arremessou no chão das mais diversas formas, até deixar o instrumento em forma de farrapo. Em determinado momento de tamanho exercício de sutileza, um pedaço dela acabou voando no rosto dele, abrindo um corte e deixando o vocalista jorrando sangue pela testa. Saiu do palco ensangüentado. Depois teve de aturar uns moleques que cataram os fragmentos da guitarra para pedir o autógrafo da banda nela. Alguns pedaços de guitarra assinados depois, rumou para o hospital…
Você ainda acha que vai ver coisa melhor?

O Digital Groove enfrentou alguns problemas. Seu show, que seria o terceiro da noite, teve de ser atrasado. O vocalista Zé Brown (Faces do Subúrbio) estava tocando em outro pólo. Além disso, o som não estava dos melhores. O grupo, que tem na sua formação original os produtores culturais Felipe Falcão (baixo) e Zezão Nóbrega (samples), conta ainda com as participações especiais deZé Neguinho (vocais), Perna (bateria) e Beto Kaiser (guitarra). Com este time devidamente entrosado, o Digital Groove mostrou uma mistura interessante entre música eletrônica e ritmos tradicionais, como o coco. Lula Queiroga fez uma rápida participação, mas não chegou a
atrapalhar muito. Um bom show que poderia ter rendido mais.

Digital Groove (foto por Vladia Lima/divulgação)

Quem viu o paulistano Z’Africa Brasil na Praça do Arsenal sabe que eles são das coisas mais chatas, óbvias, redundantes e repetitivas que já surgiu no rap nacional. No RecBeat? Bem, quem viu o paulistano Z’Africa Brasil no RecBeat sabe que eles são das coisas mais chatas, óbvias, redundates…

Posted domingo, fevereiro 18th, 2007 under Coberturas.

3 comments

  1. Olha ai, uma cobertura!! :P

  2. SEM DUVIDA NENHUMA ZEFERIA BOMBA FOI O MELHOR BANDA DA PRIMEIRA NOITE DO RECBEAT. OS KARAS FRAM D+!!!!!

  3. Nao concordo com o seu comentário sobre o Z’africa brasil. Sei que cada um tem seu gosto, mas quem realmente conhece HIP HOP, sabe que os caras do ZB são um dos melhores representantes desse estilo. Não é à toa que eles foram convidados para o Rec BEat e ao contrário de vc, muita gente, mas muita gente mesmo curtiu o show pra caramba, principalmente a performance do vocalista MC Gaspar.
    Acharia interessante vc se informar mais sobre o grupo e conhecer melhor o trabalho desses caras que estão na luta a muitos anos e merecem esse reconhecimento.