RecBeat 2007 – Segundo dia

Só para avisar logo no início e evitar decepções ao final do texto: não pude acompanhar os shows do Digitaria e do Bonde do Rolê. O amigo e jornalista Bruno Nogueira viu, e disse que o Bonde do Rolê foi “impressionantemente fuderoso“. Ele depois escreve mais sobre esses dois shows.

Uma pena o pouco público presente ontem no Cais da Alfândega. As concentrações estavam voltadas mesmo para o Marco Zero, onde a Nação Zumbi se apresentaria. Sendo assim, um público escasso, oscilante e desinteressado acompanhou a fraca performance da dupla gaúcha Canja Rave. Formado por Paula Nozzari (bateria e vocais, ex-integrante do Defalla) e Christian Kochenborger (guitarra e vocais), o grupo vive de reciclar todos os riffs de todas as bandinhas que rezam pela cartilha estética do Pixies, adicionando vocais femininos afetados e irritantes e letras com Pérolas (com “p” maísculo mesmo) do naipe de “eu me sinto o Elvis tocando para te conquistar”. Ainda conseguiram estragar Sheena is a Punk Rocker, dos Ramones, fazendo uma versão arrastada e tediosa. Para não dizer que só falei de espinhos, havia uma pepita escondida: uma canção espirituosa e de letra muito bem bolada que cita Luma de Oliveira e “seu” bombeiro. Ali a banda deu mostras de talento. No resto do tempo, pareceu forçada de barra mesmo.

Rivotrill (foto de divulgação)

Quem fez um show absurdamente impressionante foi o Rivotrill. Tocando uma música sofístisticadíssima e com pouco apelo popular, o trio pernambucano fomado por Junior Crato (sax, flauta e teclado), Rafael Duarte (baixo) e Lucas dos Prazeres (percussão) juntou jazz, samba, psicodelia, música folclórica, rockão, teclado distorcido e o diabo. O resultado foi denso, climático e envolveu o público, que reagiu de forma inesperada a um show instrumental. Quanto mais “estranha” e “incongruente” a banda soava no palco, mais calorosa era a resposta da platéia. Até os músicos ficaram espantados com tamanha aceitação. Um amigo comentou ao meu lado: “eu sei que é do cacete o que eles fazem, mas ainda não evoluí tanto para gostar”. Enfim, o que parecia inacessível (ou pelo menos de difícil acesso) tornou-se popular justamente no carnaval. Fazia tempo que uma banda nova pernambucana não me impressionava tanto.

Isca de Polícia (foto de divulgação)

Talvez o maior maldito da história da música brasileira, Itamar Assumpção, falecido em 2003, se fez presente no Recife através da banda que o acompanhava em vida, a excepcional Isca de Polícia. A filha dele, Anelis, cantou as letras de uma irônica sofisticação que só o pai dela sabia fazer. A banda mostrou o quão refinado era o trabalho de Itamar. Dono de uma obra-prima chamada Beleléu, Leléu, Eu, o nêgo dito foi praticamente apresentado a uma platéia que nem sequer sonhava em saber quem ele foi. É nessas horas que um festival cumpre uma de suas funções: apresentar ao público o que ele não conhece, mas deveria conhecer. E ainda ter o privilégio de conferir in loco como ele tratou tão bem todas as vertentes da música negra, seja lá de qual continente ela viesse. Emocionante, embora a maioria ali não tivesse a menor idéia do que estava acontecendo. A vida de Itamar, de certa forma, também foi assim.

Bonde do Rolê (foto de divulgação)

Posted segunda-feira, fevereiro 19th, 2007 under Coberturas.

3 comments

  1. eu achei o rivotrill do caralho, mas achei muito coito interrompido por que qd começava com uma estilo eu eu identificava e começar a dancar eles mudavam, mas acho que vai bem por aew, não ficar obvio…

    puta merda isca de policia pode dizer o que for, mas achei um saco, tem importância? deve ter!!! Mas eu não sei e acho que é bem provavel que não queira saber…

    o canja eu não vi infelizmente, queria muito ver, mas, digitaria eles são fofo muito, educados demais, o som deu problema eu começei o coro pros aplusos e tals… é uma das mais simpaticas que eu já vi e o bonde seria melhor se eu não tivesse com calos das olinda da vida e com voz pra gritar mais, mas achei que ele fizeram um trabalho super bem feito

  2. Como eu estava sacando o show da naçao zumbi no Marco zero só deu para sacar o finalzinho do show do Bonde do Role, achei engraçado e super-escrachado!!!!!!

  3. É compreensível achar a Isca de Polícia um saco, mas achar o Bonde do Rolê um trabalho bem feito é demais. Tirar onda com uma estética pode ser legal, mas só se você tiver algo a dizer. Tem que saber fazer e tem que ter muito bom humor pra gostar.