Tapa na Orelha – Patrulha ideológica

Está para nascer sujeito mais chato e pentelho do que o fã de música. Não bastasse a competição masturbatória para saber quem conhece o maior número de bandas e os artistas mais desconhecidos, o dito cujo ainda apela para a patrulha ideológica em cima de seus ídolos. Dois exemplos recentes ilustram bem a questão: Lobão e Fred Zeroquatro.
Depois de transitar por mais de uma década no universo paralelo da independência, Lobão enfim gravou seu acústico pela MTV. De quebra, terá seus discos relançados pela Sony Music. E, finalmente, tudo indica que voltará a tocar nos rádios. Ao invés de comemorar o retorno do Lobo aos holofotes, público e mídia trataram logo de esculhambar o sujeito. Acusam Lobão de incoerência e de oportunismo. Mas se esquecem que ele passou mais de dez anos lutando contra o jabá, que foi um dos primeiros artistas a se manifestar a favor da pirataria, que foi o primeiro a lançar disco em banca de revista, que foi o responsável pela numeração de discos np Brasil, que criou uma revista independente que já lançou uma penca de bandas e etc. Ou seja, Lobão, nos últimos anos, ficou mais conhecido pelo seu discurso do que pela sua música. Seu último disco, Canções Dentro da Noite Escura, vendeu apenas 15 mil cópias. É muito pouco para quem já esteve na casa do milhão. Tom Jobim dizia que o brasileiro perdoa tudo, menos o sucesso. João Gordo vive dizendo que para agradar o público no Brasil, é preciso comer merda, viver no lixo e cultuar a decadência. Acho que o acústico de Lobão vem em ótimo momento. Ele não fez concessões para gravá-lo. Estão presentes nele músicas que abrangem os trabalhos menos conhecidos dele. Não vejo motivos para chiadeira. E vale aqui uma informação que poucos sabem: quando a Telebras foi privatizada, uma operadora ofereceu uma grana violenta para que Lobão liberasse Me Chama para um comercial. A resposta foi um não redondo. Chegou, enfim, a hora de dizer sim. Deixemos de ser hipócritas. Lobão, a cultura de massa sentiu muito a sua falta. Seja bem-vindo.

Outra polêmica diz respeito ao comercial de calçado feminino embalado por Meu Esquema, do Mundo Livre. Foi o suficiente para chamarem Zeroquatro de vendido, traidor do movimento, capitalista selvagem, incoerente e por aí vai. Duas coisas: a música é dele, e ele faz com ela o que bem entender. E é um comercial de sandália, e não de cerveja, cigarro, banco e etc. Zeroquatro vive de música. Não lota estádios e não vende milhões de discos. Tem mais é que aproveitar quando surge uma oportunidade dessas. É uma boa forma de ganhar dinheiro (parece até pecado dizer isso no meio musical) e fazer com que seu trabalho atinja mais gente. Eu também prefiro o Zeroquatro que carrega nas costas a causa indígena e que solta fogo pelas ventas contra o capitalismo. Mas não vejo motivo aqui para julgamento tão mesquinho. Não é comercial de refrigerante (alô, Jota Quest) e nem de barbeador que vende atitude por aí. Deixa o homem trabalhar.

Emotivo

“Tem esse negócio de criticar o emo, que é uma música feita para a molecada pela molecada. O emo é o MSN musicado. É a verdade deles. É bom como música? Não acho, mas traduz um monte de gente. O que acho errado são os velhos que fazem emo pra tirar a grana dos moleques”.

Miranda, exercitando seus conhecimentos de sociologia em entrevista na edição de abril da Bizz

Posted segunda-feira, abril 9th, 2007 under Tapa na Orelha.

11 comments

  1. O que pegou pior foram as declarações em entrevista, se não me engano, a Folha de SP.

  2. Sofia Egito says:

    Huahuahauhauhahuah

    Concordo com Hugo e com Miranda.

  3. Só lembrando.. a música NÃO é de Fred 04! =)

    Ele perdeu o fonograma quando a editora de músicas da Abril fechou. “Meu Esquema” foi composta pelo Zero, mas pertence a Deckdisc. É ela quem decide que fim que a música leva.

  4. Pensei que ele tinha perdido os direitos dos três primeiros discos, que são da Warner. Até comentei isso com ele lá no Festival do Sol…

  5. Discordo completamente de você, prezado Hugo Montarroyos. Em tudo. Esses artistas citados no seu texto (se é que Zero Quatro pode receber tal nomenclatura) posaram para os olhos e ouvidos de todos nós como “defensores de uma ruptura nos modelos capitalistas imposto por gravadoras e afins”. Lobão partiu para as bancas de revista, rejeitando o que antes havia – como vc mesmo disse – colocado-o no patamar dos milhões. Zero Quatro, apesar de casado com milionária, sempre com sua cara de sujo e escrevendo letras de uma realidade que não é sua. Agora, ambos se rendem ao que tanto criticaram, revelando, de cara, sua fragilidade de caráter e ausência mais completa de respeito às suas próprias palavras. Então, pera aí. Se os caras rasgam o que dizem com tanta facilidade (300 mil para a música de Fred e alguns trocados com direito autoral para o Acústico MTV Lobão), por que acreditar no que eles se propõem a chamar de “sua arte”?
    Como o espaço aqui, pelo visto, é aberto a opiniões discordantes, gostaria de respeitosamente repetir que, para mim, você está enganado nas suas avaliações. Mas isso veremos adiante, ao medir a herança que Lobão e Zero Quatro deixarão para a música brasileira.
    Para mim, hoje, a única diferença entre Zero Quatro e Jota Quest, por exemplo, é que os mineiros estudaram música e dão escova no cabelo. E só.

  6. Jose Henrique says:

    Luciana falou tudo e mais alguma coisa.
    Parabens.
    O Hugo que dá uma de bonzinho, coisa que ele não é.

  7. Guilherme Carvalho says:

    Cada um tem a sua opinião, acho que a Luciana exercitou seu direito de emitir uma opinião discordante do texto do Hugo, mas eu tenho que dizer que com um pensamento desses ninguém sai do lugar. Uma coisa é você dar a tua cara para um produto que você sabe que é fake, eu gosto muito de coca-cola, cerveja e não sou fumante, mas sei que esses produtos causam um mal às pessoas, e se estivesse na posição do FredZeroQuatro nunca autorizaria uma música minha ser utilizada para uma campanha desses produto. Mas estamos falando de calçados, de uma empresa que sempre mostrou ter um serviço de inclusão social, uma empresa que todos com um mínimo de conhecimento sabem que investe na educação dos seus funcionários e filhos desses. Enfim, não vejo nenhum problema em usar a música do Mundo Livre S/A nessa campanha. E concordo com o que o Hugo falou, o problema do brasileiro é se incomodar com o sucesso alheio. Todo mundo adorava Los Hermanos, quando os caras começaram a fazer muito sucesso e tocar em todo lugar já apareceram vários pra atirar as pedras. O mesmo está acontecendo com Lobão e Zero Quatro. Lobão está correto, em gravar o acústico MTV e relançar os discos dele pela Sony, a realidade agora é outra, as gravadoras estão quebradas, é praticamente um pedido de desculpas que estão fazendo a ele e quase que dizendo que ele estava correto.
    Tudo bem que cada caso tem que ser estudado individualmente, mas Lobão fez o correto e Zero quatro não vai virar lobo mau porque colocou uma música dele no comercial das Havaianas.