Tapa na Orelha – Não é bem como a gente pensa

Há uns cinco anos li uma matéria que dizia que, apesar do respeito artístico conquistado e de um público relativamente fiel, ninguém da Nação Zumbi e do Mundo Livre possuía casa própria. Semana passada, durante coletiva de imprensa do Abril pro Rock, perguntei a Lúcio Maia e a Jorge du Peixe se a situação citada acima havia mudado. Não havia. Segundo Lúcio, é o preço que eles pagam por não fazer concessões artísticas. Fiquei imaginando como deve funcionar a cabeça desses caras. Em um momento, estão em cima do palco tocando suas músicas para mais de dez mil pessoas, ouvindo todos cantarem em uníssono a letra que eles criaram. E em outro, viram abóboras. Precisam se preocupar com a porcaria do aluguel, com o colégio dos filhos e com o lado comezinho da vida. De uma forma ou de outra, isso deve mexer com a cabeça de qualquer um.
Lembra do Gira, ex-percussionista rastafari da Nação? Pois é, o cara morava em um barraco no bairro de Peixinhos. Agora, imagina o que não se passa na cabeça de um cidadão que tem a oportunidade de tocar em Nova York, gravar clipes, fazer shows e continuar na mesma situação financeira. E ainda ficar escutando gracinha dos amigos na hora do Domingão do Faustão: “você não é tão famoso? Por que não toca no Faustão?”. Gira saiu da banda. Não agüentou a dupla jornada de ser famoso e anônimo ao mesmo tempo. Preferiu ser um dos dois apenas.
Agora você deve estar pensando: “não possuem casa própria? Eles estão sendo roubados ou torraram tudo em besteira. Tem alguma coisa errada.” Tem. A maneira que olhamos para esses artistas é que é equivocada. A fonte de renda deles são os shows, pois a venda de discos quase não conta, uma vez que a Nação não é nenhuma Ivete Sangalo. Eles também não fazem shows todos os dias, não aparecem em programas popularescos e não topam qualquer parada. Não são pobres coitados, longe disso. Mas, pelo tempo de carreira e pelo respeito conquistado, já deveriam ter traduzido sua obra em patrimônio.
Sei que o tempo e o estilo eram outros, mas se você pegar a biografia de todos os gênios da história da música, gente como Mozart, Bach, Chopin ,Beethoven e etc, vai encontrar um elemento em comum: todos eles morreram na miséria. Aí pulamos três séculos, com o advento da tecnologia e o “aperfeiçoamento” da mídia, e nos deparamos com Ivete Sangalo. Melhor nem dizer nada…
Agora, se com a Nação Zumbi é assim, fico imaginando como sobrevivem as chamadas bandas indies. O palpite óbvio é dizer que a maioria é formada por gente de classe média-alta, que pode dar-se ao luxo de brincar de ter banda. E os punks? Bem, conheço um monte de banda punk que não dá certo por um único motivo: o vocalista é agente de saúde, o baterista é cobrador de ônibus e por aí vai…não sobra muito tempo para a música.
Mas o que achei mais importante nessa declaração da Nação Zumbi foi a mensagem subliminar que ela passa para as bandas novas. O que você pretende ao montar uma banda? Quer apenas se divertir? Ou pretende ganhar a vida assim? Porque, se seu objetivo é ficar rico, pode esquecer.
E, da próxima vez que for a um show da Nação Zumbi, lembre-se que aqueles sujeitos em cima do palco, que fazem uma música tão inteligente, ainda pagam aluguel. Não deveria ser assim. Mas como ser de outra forma no país que cultua a burrice?

Posted terça-feira, abril 24th, 2007 under Tapa na Orelha.

24 comments

  1. Rapaz, esse teu tema daria pra escrever uma tese. Em quase dez anos de estúdio, as únicas ocasiões em que uma banda fez um disco com orçamento adequado foi quando rolou patrocínio do governo ou do pai. No geral, ou as pessoas das bandas têm os pés no chão e têm empregos ou então acham que a vida é só “arte” e aí passam o tempo coçando, esperando o dia do ensaio ou o dia do show. O resultado disso é que a galera mal tem a grana da passagem de ônibus pra se locomover e têm instrumentos péssimos pra tocar. A frase que resume tudo é exatamente a que você escreveu: “se com a Nação Zumbi é assim, fico imaginando como sobrevivem as chamadas bandas indies.”

  2. Como diz os The Playboys: Se não fosse o Rock n´Roll

  3. É, os Playboys estão a 10 anos pedindo mesada.hehehehehehehh

  4. Júlio César says:

    Parabéns pelo texto, criticar todo mundo sabe, agora quero ver neguinho elogiar. Parabéns Hugo pela lucidez do texto. Isso deve caber bem também para você e dezenas de outros jornalistas, atores, autores, etc… Será que vale a pena viver de um sonho, lutar por este sonho, eu particularmente vivo lutando e sonhando já faz 15 anos e nunca canso, ao menos envelhecerei feliz, liso é certo mais nunca frustrado como tantos amigos doutores e endinheirados que eu conheço. O meu conceito de felicidade é esse, eu amo o que eu faço e ganhar dinheiro será conseqÜencia da minha luta e dessa persistência que já está enraigada na minha alma.
    Poderei olhar para trás e contar aos meus filhos e netos que eu fui um lutador e que lutei por meus ideais, a vida da música não tem espaço para os fracos e aproveitadores!!!

  5. Se tá pobre é pq nao sabe cantar! Vai aprender a cantar, enquanto Hugo Montarroyos enriquece nos cofres do RecifeRock!

  6. Rodrigobastos says:

    10.000 pessoas num show de nação só se for no carnaval e em um festival. Pq de outra forma esse numero n existe o ultimo show de lançamento do cd futura no portugues n tinha 2000 pessoas isso a banda na sua terra imagina em outros lugares, fora sp. logico a banda ganha pelo publico q ele tem. Entao se eles ainda n tem suas casas eh pq o publico ainda n os reconheceram como mereciam. E vcs jornalista prestem mais atenção e botem mais embasamento no que falam

  7. Rodrigo,

    pelo menos 30 mil pessoas no carnaval. E a mesma quantidade no rec-beat do ano pasado. E eles não tocam de graça, ganham cachê. O ponto que quis ressaltar é o fato de tocar pra tanta gente em um momento e no outro ter de voltar à realidade. E as bandas ganham por cachê. Raramente têm participação em bilheteria. Ou seja, dá no mesmo ter duas ou 30 mil pessoas.
    E vem falar em embasamento…

  8. Guilherme Carvalho says:

    A maioria não dá valor a música e até mesmo quem diz curtir as bandas daqui preferem ficar bebendo do lado de fora do show pra não pagar um ingresso de 5 reais que seja. Engraçado foi gente chegar pra me pedir cortesia no show do UK com ingresso a 5 reais e clone de chopp até meia-noite. Acho incrível a capacidade sangue-suga de certas pessoas.
    Parabéns pelo texto!!!

  9. pra banda indie com selo e paitrocínio nem precisa dizer como a coisa funciona. quem não tem nada disso é o seguinte: trabalha e te vira! profissões dos meus amigos q tocam em banda: auxiliar de torneiro mecânico, professor de inglês numa escola no Ibura (à noite!), professor de história em escola pública tb, ASA (aqueles carinhas q visitam casa à casa pra controle da dengue), comerciante etc.. e uns ainda fazem faculdade (federal, pq pagar não rola mesmo). no fim de semana esquece tudo e se tranca num estúdio pra fazer música, se chapar e se divertir. qd pode grava alguma coisa num estúdio de 15 reais a hora, bola a capinha, o fotolito, release, tira foto, paga serigrafia, compra cd-r, envelope, leva pra lá, pra cá.. qd o cara começa a pensar se realmente vale a pena isso tudo, vendo um monte de banda merda sendo babada/ hypada.. vem Paulo André e bota a galera pra tocar no Abril Pro Rock! AHAHAHAHAHAHHAHAHAHH e junto com os Mutantes! todo gás de novo! (pense um pouco nisso se vc ficou meio deprê – como eu – com a situação do pessoal da NZ!)

  10. é por isso que paguei com gosto mmeus 70 conto do abril
    e vou pagr com gosto também os 10 do lançamento do CD da vamoz

  11. concordo com o texto a cima.
    É, simplesmente a ignorância tomando conta do povão a cada dia que se passa. ô falta de cultura… e a mídia empurrando merda nos nossos ouvidos todos os dias, meu ouvido não é pinico não porra!!!

  12. RENATO ( UNLUCKY SECONDS) says:

    A VERDADE É QUE SE VC TÊM UMA BANDA ROCK AQUI, TENTE FAZER AS COISAS POR QUE GOSTA, POR AMOR MESMO. NA VERDADE ACHO QUE NÓS TEMOS NESSA HORA EM RELAÇÃO A MUSICA, PENSAR PEQUENO POR QUE SE VC FOR VIAJAR NA IDÉIA IDIOTA DE QUERER CONSEGUIR UM PATROCINIO… NÃO VAI CONSEGUIR, SE VC TENTAR VIAJAR PARA SÃO PAULO POR QUE, IR ATÉ LÁ IRÁ TE DAR MAIOR PROJEÇÃO , ESQUECE !
    O LANCE É FICAR AQUI! PROCURAR OUTRAS ATIVIDADES, CONSEGUIR ALGUM MEIO DE SE MANTER COMO MUSICO, PELO MENOS AS NECESSIDADES BÁSICAS DE UM MUSICO INDIE:

    ENSAIAR
    MULHER
    CERVEJA

  13. RENATO ( UNLUCKY SECONDS) says:

    HUGO, COMO FAZER PARA ENVIAR UM CD PARA VC COMENTAR ?

  14. Parabéns pelo texto,Hugo.Tava na hora de alguém tocar nesse ”ponto”…aliás,acho que nunca li um texto tocando nesse assunto que faz parte da maioria que tenta pelo menos desestressar de uma vida cotidiana e chata ensaiando e fazendo shows no final de semana.Acho que a maioria ainda tenta vender uma imagem de que ter banda de rock é ser vida boa,viver só de curtição,etc…

  15. rodrigo bastos says:

    Hugo quanto maior o publico maior o cache. se o cache deles n deu pra comprar suas casa. é pq o publico n é tao grande. E quanto a os shows q vc falou foram shows gratuitos pq no portugues n tinha tanta gente nem no palco pe q teve varias atraçoes e o publico foi fraco

  16. mas o playboys eh muito ruim

  17. Rafael Baltar says:

    BOM,

    Na minha humilde opinião o fato dos integrantes da NCSZ E MUNDO LIVRE, não terem casa propria, nao indicam que os mesmos ganham pouco ou nao tem rconhecimento do publico, vejo isso mais como opção. Até porque, hoje em dia qualquer trabalhador que se preze ganhando seus míseros salarios, divindo com a familia e pagando seus rock’n roll pode financiar um ap na caixa e se virar como pode aqui em HELLCIFE. O grande “X” é: Nenhum integrante da NCSZ mora aqui na manguetown, todos estão antenados e fincados suas antenas parabólicas no eixo de SAO PAULO, que na grande maioria tão cagando pra o povo do nordeste.

    Acredito que se a banda estivesse aqui, rolaria mais Apoio aos artistsa locais, projetos sociais nas comunidades poderiam surgir com mais facilidade até fazer com que a cultura “mangue” nao afundasse na lama, que é o que tá acontecendo, cadÊ o manifesto mangue escrito por 04???????? o único que está a frente disso tudo, nutrindo o movimento é o ROGER DE RENOR, se fosse deixar com a NCSZ já estava atolado na lama… tocando jorge ben jor, ao inves de resgatar ainda mais nossa cultura, que diga se de passagem é muito mais rica do que: Spiro Giro é Spyro Gyro…

    nao esqueçam que isso é minha opinião e nao verdade absoluta!!!!!

  18. Os rapazes do The Playbos resumem bem esta história na letra “Se não fosse o rock n roll” que fala mais ou menos…

    Se não fosse o rock n roll eu estaria formado
    Se não fosse o rock n roll eu teria um trabalho.
    Se não fosse o rock n roll eu não estava tentando ganhar a vida tocando

    Se não fosse o rock n roll eu não me humilhava
    depois de velho, pedindo mesada
    o mercado esta dificil eu não queria trair
    mas o movimento ele tambem já comprou

    Se não fosse o rock n roll eu agradava a familia
    Se não fosse o rock n roll outra coisa eu fazia
    Se não fosse o rock n roll eu já estava cansado
    de tocar de graça sem nenhum resultado.

    Se não fosse o rock n roll eu teria imigrado pros EUA para lavar prato nesses anos que passaram tudo que aprendi foi que sonhando com o futuro, o presente mudou, se não fosse o rock nroll!


    A música é uma das melhores do cd do Abril pro Rock que eu ganhei na compra do passaporte.

  19. Inpetor Neira says:

    A verdade é que a Naçao zumbi, depois da morte de chico, e apenas uma banda que se repete a cada cd.
    Com a morte de CHico, foi – se a alma da banda e tudo o que era mais representativo: A estrela de um Chico Science pensador, provocador, critico, sagaz e atual.
    A banda tem o seu respeito,mas se ainda nao moram em casas proprias e nao tem uma vida que queriam ter, das duas uma: Ou largam a musica ou param de se repetir.
    A verdade as vezes doi.

    saudações

    Inspetor Neira

  20. Que bom que está gerando um debate. Minha grande preocupação com isso tudo é que ainda tem gente que acha que dá para ficar rico fazendo música. Não dá, mesmo para quem já está estabelecido como a Nação Zumbi.
    Entrevistei os caras algumas vezes, e em todas elas foram nas residências deles, aqui no Recife. É fato que eles passam boa parte do ano em Sampa, porque é mais central para os deslocamentos nos shows no resto do país. E a Trama, gravadora deles, fica lá.
    O que acho bacana é a atitude deles de dizer “não temos casa pr´ppria, paciência”. Na mesma entrevista, eles reclamaram que foram participar do Altas Horas, na Rede Globo, e os colocaram ao lado do Babado Novo. Resumindo: ninguém tinha perguntas para a Nação.
    Outra coisa é a mensagem subliminar: o povo tem o costume de achar que o simples fato de aparecer na Globo já faz de você um proeminente milionário. O que me arrasa ao saber que os caras não possuem casa própria ainda é que se trata da Nação Zumbi, carambolas! Quantas turnês fora do país? Quantos festivais importantes, incluindo o Tim? Tá, beleza, levam a vida numa boa, viajam e etc, mas deveriam ter uma segurança maior. Aí fica a sugestão de pauta para qualquer jornalista: peguem o telefone e liguem para Silvério Pessoa, DJ Dolores e etc…a maioria ainda está na batalha.
    Para encerrar, vou lembrar uma coisa. Estamos em 2007, era da internet, da informação imediata e etc. Imagina uma galera periférica, de Peixinhos, que em meados de 93 ganham os holofotes da mídia. Devem ter pensado: “meus problemas acabaram”. É essa dualidade que quis ressaltar no texto: a ambivalência de ser o herói de trinta mil pessoas e ainda assim pagar aluguel.

    Continuem comentando!

    Abraços

  21. “Mas como ser de outra forma no país que cultua a burrice? ”

    O que porra é essa?
    Como um país que o povo não tem a mínima condição de vida, o básico pra sobreviver, como a maioria da população(sim a maioria, a que sustenta Ivete Semgraça) vai se preocupar com cultura popular? Isso é coisa pra gente que não tem muito o que se preocupar.Claro existem as exceções, porém deve ser muito fácil pra uma pessoa tão “culta” como você rótular o seu próprio país de país que cultua a burrice

  22. Concordo com vc, Caio, mas o problema não está com o povo, e sim com a classe média. O povo não compra disco e não tem grana para dar em ingresso. É a classe que perpetua e financia a burrice no Brasil. Só que o problema da classe média rende uns 15 textos…

    Abraço

  23. Cada um faz aquilo que acredita e nem sempre aquilo que acreditamos é garantia de retorno, eu acho que bandas como Jota Quest, Skank, O Rappa,CPM 22, Capital inicial,Charlie Brown Jr etc nao passam por esses perrengues, muita gente pode nao gostar deles, assim como muuuuuuuuuuuuita gente gosta, sem falar na Ivete Sangalo que dispensa comentários. Todos eles tem seus méritos, pois fizeram aquilo que acreditaram e deram certo. Por que uma banda de Pernambuco ainda nao despontou verdadeiramente para o cenário nacional? talvez por que, desde Chico Science, que foi um Gënio, nós queiramos impor nosso regionalismo para o resto do Brasil, que nao vai aceitar nunca. Até mesmo a Bahia produziu uma artista de Rock que nao tem uma linguagem Regional, que foi o caso da Pitty, apesar de nao gostar do som dela, ela está aí para todo o Brasil. Bem como The Playboys uma vez falou para produtores de shows pernambucanos ” deixem a gente tocar, nos temos Alfaias!”