Entrevista: Alex Antunes (parte 2)

Acompanhe a segunda parte da entrevista com o jornalista, escritor e músico Alex Antunes. Ele conta como vivenciou os bastidores da fomentação do movimento mangue e fala de como era a imprensa nos anos 80. Alex cobriu a última edição do Abril pro Rock para a Rolling Stone. O texto deve ser publicado na edição de maio da revista.

Alex Antunes (foto Denis Rodriguez)

Qual o problema da chamada “grande mídia”, representada pela “Veja” e pela Rede Globo? Como foi sua experiência na Veja?
Escrevi para a Veja, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. O Estado é o mais conservador e lento nas mudanças, mas é um lugar mais razoável para se trabalhar – SE você não fizer questão de escrever textos que incluam a palavra “bunda”, por exemplo. E eu faço. A Folha é mais friendly com textos esquisitos: a Ilustrada – e o extinto Folhetim – adquiriram essa reputação de caderno inovador nos anos 80. A geração de bons escribas foi-se, mas a paciência com ‘enfants terribles’ (verdadeiros ou não) ficou. A pressão do fechamento lá, por outro lado, é insana. E a Veja é o pior de dois mundos, horrível em todos os aspectos – um péssimo lugar para se trabalhar, e onde a exigência de homogeneidade no texto é ridícula. Aquela inteligência formal e direitizante, sabe? Eu brinco de chamar a Veja de “manual de instruções da vida para a classe média angustiada”. Tem medo do funk carioca? Leia a Veja. Tem raiva do governo petista? Leia a Veja. Já a Globo (isso é meio chute, nunca trabalhei lá) me parece combinar dois aspectos. Um é a necessidade de um produto final bem homogêneo, fluente e de relativo bom-gosto – tipo o Zorra Total é o limite do trash por lá -, herança da sua época de instrumento de integração nacional a serviço dos militares. Outro é ser um ambiente de trabalho herdeiro do funcionalismo público da ex-capital federal. Tipo tolerar algum talento de esquerda ou anárquico (da clássica frase do dr. Roberto, “com meus comunistas ninguémmexe”), que move um ou outro arroubo inovador, como o humorismo da Casseta,algumas novelas da antiga faixa das 22h, algumas séries, esse tipo de coisa.
É um negócio do Rio que eu chamo de “fator baixo-gávea” (hoje em dia seria “fator lapa”, mas aí vai parecer outra coisa); a cordialidade nas relações, que não existe em São Paulo (e nem em Recife, por sinal – o Rio está para a Bahia como São Paulo está para o Recife).
Disso tudo, concluo que minha grande sorte foi trabalhar na Bizz nos anos80, quando o tipo de som que me interessava estava bombando na geral – tipo fazer um fanzine com orçamento corporativo. Eu era feliz e não sabia.

Você tem uma relação muito próxima com o movimento musical pernambucano. Quando e como essa relação começou?
O Miranda avisou. Eu não estava no primeiro Abril Pro Rock, mas já estava em um festival no segundo semestre, que o Paulo André só fez naquela ano (noventa e quantos?). Vim cobrir pra Bizz. E foi uma puta surpresa. As pessoas em Recife eram muito cultas e informadas – bom, algumas pessoas, pelo menos. Figuras como Dolores y Morales (Hiltinho e Dolores, Mabuse, Xico Sá e tal). Descobri que Recife inexplicavelmente tinha os homens mais feios e as mulheres mais bonitas do país (risos). Comecei a frequentar, a vir todo ano.
Andei no Landau do Chico Science por Olinda. Publiquei a foto da carteira de jornalista do Zero Quatro quando substituí o Marcelo Pereira na coluna sobre manguebeat do Jornal do Commercio durante um mês. Cantei sha la la hey com o Paulo Francis Vai Pro Céu. Participei da primeira apresentação pública do DJ Dolores, a convirte do Itaú Cultural de São Paulo, lendo trechos do roteiro de Amarelo Manga, que ainda não havia sido filmado.
Acompanhei (do quarto ao lado, na casa do Gutie) as brigas que resultaram na saída do Otto do mundo livre. Apresentei o Otto pro Apollo 9. Fui do juri num festival que premiou o Dona Margarida Pereira e os Fulanos com um álbum. Toquei na tenda eletrônica do Abril Pro Rock com o Shiva LasVegas. Fui da comissão que julgou o edital dos shows para a Feira Música Brasil neste ano. Continuo vindo sempre que posso. E acho que São Paulo e Rio tem muito a aprender com Recife – e isto NÃO é uma declaração populista.

Uma das lendas do jornalismo musical brasileiro reza que você teria escrito, nos anos 80, uma crítica de sua banda, Akyra S., dizendo que o grande destaque dela era o vocalista (no caso, você). É verdade?
Não, foi o Mario Peixoto que escreveu um artigo explicando porque o seu filme Limite era o máximo – e assinou Eisenstein. Na verdade, eu escrevia pra Som 3 e fui escalado para fazer a crítica da coletânea Não São Paulo,que tinha o Akira S estreando com a faixa “Sobre as Pernas”. Aí eu disse proMariola (acho que era isso), o assistente do Kubrusly, que era então editor da revista: “mas eu estou no disco, pô”. Aí ele me botou entre o fogo e a caldeirinha – disse que, se eu não escrevesse, ele não publicaria nada sobre o disco. E eu escrevi, mas reservei os elogios pras outras bandas, o Chance (“insólito”) e o Muzak (“excelente”). Do Akira S eu escrevi só o factual.
Mesmo assim, fui criticado, porque concluí que “as quatro bandas têm em comum a boa qualidade e letras inspiradas” – que eu achei que era irrefutável… Tou citando com a revista na mão. Na verdade, demorei tanto pra responder a segunda parte desta entrevista porque estava procurando essa Som 3 pra tirar essa história a limpo. Mas, se fosse hoje… eu me elogiariadescaradamente, e assinaria com um pseudônimo (risos).

Existe plano para outro livro?
Existe. Na verdade existem dois, com vários capítulos já escritos. Adoro contar as histórias deles, mas só pessoalmente. O primeiro foi “contado” muitas vezes antes de ser escrito, e isso influiu na linguagem casual.

Você talvez seja o free-lancer mais requisitado do país. Dá para viver bem de frila?
Como disse a Gang of Four: oh man, you must be joking (risos). Não, claro que não. É um prazer publicar na Rolling Stone, por exemplo, mas eu teriaque escrever uma matéria média por dia para viver bem disso. Faço umas produções musicais e outros trabalhos. No momento sou curador da série Supernovas no CCBB de São Paulo, por exemplo. O bom é que só faço coisas legais.

Primeira parte da entrevista:
http://www.reciferock.com.br/2007/03/05/entrevista-alex-antunes-parte-1/

Posted domingo, abril 29th, 2007 under Notícias.

8 comments

  1. Jose Henrique says:

    Bom papo, mas cadê a parte um?

  2. Jose Henrique says:

    Valeu Guilherme

  3. faz mais entrevistas… com bandas de outros estilos também…

    a galera tem que se juntar pra fazer divullgações alternativas… pras bandas expandirem seu publico…

    isso nao tem nada haver com a entrevista a cima, mas bem que poderia ser uma boa discusão no site…

    como acabar com a falta de público nos shows…

  4. ROCK NA PRAÇA DIA 10 DE MAIO!!!!

    vai rolar na PRAÇA do ARSENAL DE GRAçA!!!!

    vamo comparecer galera.. depois coloco mais informações na agenda de shows do RECIFEROCK!!!

    assim q tiver as ordens e os horarios..!!1
    ]

    FLW!!!

    http://www.myspace.com/project666metal

  5. paulo floro says:

    uma beleza de ler essa entrevista!

    legal!

  6. Jose Henrique says:

    Hilária a historia do amigo dele que morreu.

  7. " se eu fosse vc" says:

    bem, gostei da materia foi bem legal, nem medeu o pau nem tirou. fico feliz porque o cara sabe curtir a vida e tira onda ainda, mas oque ele acha das bandas de hoje? seria uma boa pergunta para o sr. alencar hein?! fala na proxima vez,ceto fofi!:)

    ah! e poda o link da banda do cara para agente meder o pau ! ahahahahahahahahah