Tapa na Orelha – Pernambuco sem Textículos

Toda vez que escuto o álbum “Textículos de Mary e a Banda das Cachorras” bate uma sensação de incredulidade, de indignação. Como uma banda tão boa e ousada morreu tão jovem e com tanto ainda por realizar? Decidi então republicar aqui um artigo que escrevi para a revista Galpão do Rock, em novembro de 2005. Segue o texto abaixo na íntegra.

Pernambuco sem Textículos

Há um ano o rock pernambucano perdia boa parte de sua graça, irreverência, rebeldia, inteligência e transgressão, palavras que combinam tão bem com o universo rock n’roll.
No dia 29 de julho de 2004, em uma noite inusitada no Teatro do Parque, uma das bandas mais interessantes a surgir no país decidiu interromper de forma precoce a sua carreira. Sem encontrar espaço para tocar na cidade, o Textículos de Mary preferiu encerrar suas atividades. Cansou do amadorismo e da caretice que imperam em Pernambuco. Encheu o saco de ficar sem receber cachê, do público que não entendia sua proposta e de todas as portas fechadas durante os pouco mais de quatro anos de história. E que história!

O Textículo de Mary era um grupo liderado por três homossexuais assumidos. Tocavam com fantasias esdrúxulas e simulavam orgias em suas apresentações. Visualmente, era uma espécie de Kiss gay. Por conta das performances para lá de ousadas, o grupo sempre dividiu opiniões. Os mais bem-humorados encaravam tudo como pura e simples anarquia, assim como o rock, de maneira geral, deve ser encarado. Já a ala conservadora, predominante em Pernambuco e no restante do país, achava aquilo a mais pura sem-vergonhice, safadeza, coisa do demo. Nem uma coisa nem outra.

A banda tinha uma proposta diferente: chamar a atenção para o desconhecido através de recursos teatrais. A música era apenas um dos múltiplos aspectos de um projeto multimídia que acabou não vingando. Pelo menos deixaram um registro sonoro. Em 2002, foi lançado o impecável “Textículos de Mary e a Banda das Cachorras”, disco que saiu pela Deckdisc e contou com a produção de Rafael Ramos. Em 12 faixas, Chupeta (vocais), Silene Lapadinha (vocais), Lollypop (vocais), Bambi (guitarra e vocais), Dúbia Keitesuelen (baixo), Scarlet Cavalera (bateria), Loiranêgra (percussão) e Kaiadroga (guitarra) destilam humor, inteligência, ironia e sarcasmo. Brincam com o preconceito gerando ainda mais preconceito. Falam de temáticas gays e contam histórias que beiram o surrealismo, como a do travesti Natasha Orloff, que foi educado em um colégio stalinista de linha militar na antiga União Soviética e se prostituía para garantir o sustento na atual Ucrânia capitalista, que um dia fora república da antiga URSS.

Por um breve momento, o rock foi mais rock do que nunca em Pernambuco. Até o dia em que o fantasma do conservadorismo pôs fim à uma banda que sabia contar histórias e que fez história.

Posted terça-feira, março 25th, 2008 under Tapa na Orelha.

One comment so far

  1. joão do ibura says:

    Parece que os próprios componentes do grupo se desentenderam depois do show no teatro do parque(projeto seis e meia, abrindo para aquele cantor horrivel da decada de 80…,esqueci!), pois o guitarista não gostou da atitude da banda no palco depois da reclamação de parte do público. Agora,convenhamos, musicalmente não trazia nada de relevante,porem,como espetaculo as veses era divertido.
    Mas, como vcs do recife rock dizem(Bruno nogueira) “o mercado não está mais interessado em aspectos musicologicos” é uma pena que pensem dessa forma, pois o acessorio(visual e “atitude”)termina tendo, segundo esse comentário de Bruno, mais relevancia do que o principal, que é a musica.