Cobertura: Mada 2008 – segundo dia

Algumas coisas são bem chatas de dizer. Ao contrário do que julga o senso comum, não temos nenhum prazer específico em falar mal das coisas. Ao contrário, sempre torço para que tudo dê certo em todos os eventos. Considero-me uma boa pessoa, e quem me conhece de verdade sabe que não sou tão mau quanto meus escritos fazem parecer. Mas a verdade existe para se dita: salvo raras exceções, foi duro suportar o segundo dia do Mada.

Desabafo feito, desculpas previamente pedidas, e vamos ao trabalho sujo, pois ele precisa ser feito.

A abertura da noite coube a pior banda do evento, a tal da The Volta (RN) (sacou o trocadilho?). Um pessoal que, infelizmente, não tem senso de ridículo e não imagina como seu som regado ao que de pior existiu nos anos 80 somado com guitarras pretensamente pesadas soa falso, plastificado, brega e ingênuo (no pior sentido da palavra). O lirismo é ainda pior. Imagine alguém cantando a sério, tipo Dinho Ouro Preto, os seguintes versos: “eu não vou envelhecer sem ver isso mudar / esse mundo de papel e tudo que nele há”. E a coisa ainda piora: “cansei de ouvir desculpas de todos que querem falar / Cansei, não dá / Todos depois vão querer se explicar”. Aí você pensa que não pode vir nada pior do que isso. Mas o mundo é perverso, e a ordem natural das coisas é que tudo piore. Eles fecham o show com um cover horroroso (e novamente levado a sério, com frases do tipo “tira o pé do chão”) de “Enter Sandman”, do Metallica. Vergonha alheia. E acabei perdendo o melhor do show. Abriram com uma queima de fogos, que quase incendiou uma das caixas de som…

Na seqüência veio o confuso show do local Lunares, que tenta ser um êmulo de Muse, Radiohead e até Arcade Fire, e acaba, infelizmente, soando apenas como Lunares mesmo. Com um vocalista talentoso que possui uma voz incrível, o grupo mostrou que ainda está muito, mas muito aquém de suas referências. Pretensioso e muito, mas muito chato mesmo. E foi constrangedor ver o vocalista dançar valsa de olhos fechados com a sua guitarra. Quando achei que fosse o único a achar aquilo o cúmulo do ridículo, percebo um monte de gente virando de costas para desatar no riso. Seria até bonitinho se fosse a Mallu Magalhães na inocência de seus quinze anos…

O nível subiu bastante com a apresentação dos baianos do Subaquáticos, donos de um som encorpado, que mistura blues moderno com pegada roqueira e um quê de surf music com referências nordestinas. E, o mais incrível, não se perdem no meio de caminhos tão disparatados. Tudo soa coeso, extremamente bem executado (o baterista é monstruosamente bom) e gratificante de se ouvir.

Depois entrou a banda mais estranha de todo o festival. O gaúcho Poliéster é tão esquisito, mas tão esquisito, que nem o palco suportou. Deu pane na terceira música, e o palco ficou sem som e luz. O vocalista tem voz de mulher, a banda força tanto a barra para soar original que acaba confundindo originalidade com hermetismo de boteco. O som? Sei lá o que era aquilo, e duvido que alguém consiga explicar. Era tão ruim que preferi conferir a performance de Madame Mim na tenda eletrônica. Dei sorte, pois além de animada, a moça estava incrivelmente bonita (de verdade!) e até se dignou a mostrar a bunda para o público. Mas a realidade fez-se presente novamente…

A potiguar Síntese Modular, banda com apenas um mês de existência (apesar de formada por músicos experientes da cena local) mostrou que tem…apenas um mês de existência… além de um pop bem fraco, mal executado e que bebe em fontes sessentistas, dando a nítida sensação de não passar de um Volver de terceira divisão.

E o aguardado (pelo menos pela crítica) Curumin quase deixa de tocar no Mada. O palco, que já havia se manifestado no show do Poliéster, voltou a dar problemas na apresentação de Curumin, que demorou uma infinidade para começar. O show teve de ser encurtado, o que foi uma pena, pois o paulista brinca de fazer samba cafajeste, na linha “pilantragem” de  Simonal, soando como um Mundo Livre melhorado ao vivo. Debochado, tocou “Feira de Acari”, de Mc Batatinha, e saiu mais cedo do que o previsto, dando vez àquele que foi, de longe, o melhor show desta edição do Mada: Autoramas

Com uma introdução instrumental matadora, a banda colocou boa parte das quase três mil pessoas presentes para dançar. Os riffs de Gabriel são os mais impressionantes e contagiantes do rock nacional hoje. E tome “Paciência”, “Você Sabe”, “Nada a Ver”, “Já Cansei de te Ouvir Falar” e a sensacional “Surtei” no coco. Acachapante. Assim como o carimbó roqueiro de “Hotel Cervantes” e o hino analógico “Mundo Moderno”. Até um jornalista amigo meu, que está muito, mas muito longe mesmo de ser fã da banda, deixou escapar no final: “Showzão!”. Como sempre…

O Pato Fu foi tecnicamente impecável, mas recebido com uma certa frieza pelo público. Nem chegou perto da apoteose que foi o show deles no último Rec-Beat. Mas a culpa, definitivamente, não foi da banda, que toca a cada dia com mais empenho e vigor. Sem falar que John é um senhor guitarrista e Fernanda Takai…bem, é Fernanda Takai, e isto basta.

A introdução do tema de Chapeuzinho Vermelho serviu para a entrada de Lobão, que surpreendeu e veio com formação elétrica desta vez. Com a mão direita enfaixada devido a uma grave queimadura (num estranho acidente em que tentou acender a lareira de casa e, além de se queimar, quase queima também o gato de estimação), Lobão entrou alucinado e atacou com “Universo Paralelo” e o clássico “Ronaldo foi Pra Guerra”. Boa parte do público – eu inclusive – acabou indo embora antes do show terminar. Saldo da noite: apenas um show de encher os olhos. Muito pouco para um festival…

Posted segunda-feira, agosto 18th, 2008 under Coberturas.

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12 comments

  1. Mario Andino says:

    Se o The Volta é tão ruim, pq vc perdeu tanto tempo com ela?

    Achei a banda redondinha e bons músicos, apesar de não gostar do estilo.

    O bom mesmo é que, pra vc, não existe banda ruim de Recife… o bairrismo de vcs fede ao esgoto que corta a sua cidade…

  2. Da segunda noite eu gostei muito do Lunares. Já conhecia o som da banda ao vivo e foi muito massa.

    The Volta não conhecia. Cheguei um pouco atrasado, mas ainda ainda deu pra sacar umas três músicas banda e o final arrepiante. Gostei do som dos caras, das riffs, e o final com a cover de Enter Sandman do Metallica foi de arrepiar. Inesquecível! Essa sua crítica contra os caras não sei não. Não to entendendo o motivo. Algo tá fedendo por aqui… .

    Outra banda que pensava que seria uma merda mas que curti foi a galera do Curumin. Apesar de não ser o meu estilo musical predileto, os caras são bons e o vocalista é um malandro do tipo sangue bom.

    Depois dessa, fui curtir um descanso na grama e esperei a minha banda predileta. Pato Fu. Show foi perfeito, muito massa.

    Quanto a Lobão, nada contra, mas fui pra casa dormir.

    Valeu MADA. Até a próxima!!!

  3. A galera da banda não sabe ouvir criticas… tsc tsc,
    Se tem uma coisa que não rola em Recife é bairrismo visse?

  4. Desculpa a burrice, mas o que vem a ser hermetismo de boteco??

  5. Muito boa mesmo a resenha. Pra mim só peca na hora que diz que Autoramas fez o melhor show do festival.

  6. É… li várias resenhas e só pau no The Volta, será que é o Hugo que tá errado?

  7. Xi… tão apagando comentários hein?
    Hoje pela manhã tinha 8. Agora só tem 6.

    Hum…”tem gente não sabe ouvir criticas… tsc tsc”

  8. João do Ibura says:

    Mario Andino, vc conseguiu ser pior do que qualquer comentário supostamente bairrista do Hugo. Se vc não gostou do comentario do jornalista faça sua critica melhor direcionada, sem precisar ser tão cretino no seu comentário, pois recife tem problemas semelhantes à outras cidades, inclusive a sua, mas não venha falar de bairrismo agredindo uma cidade gratuitamente, pois se existe bairrismo no Recife ele surgiu como uma defesa contra comentários preconceituosos como o seu.
    Quanto ao evento gostaria de ouvir outros comentários sobre o Mada para saber se tem algum fundamento nas criticas do jornalista.

  9. Mateus Araújo says:

    Porque vc apagou minha análise sobre suas palavras , não entendi voçê gostaria que as pessoas atingidas pela sua falta d competência também o práticasse esse atos sordidos , “no dos outros e refresco ne meu velho” , como vc é despreparado, imoral ainda é escrever para todo mundo ver o que páira no seu universo (mundinho) . rsrsrsr

  10. Fernando Aires says:

    Cara… eu vi o show do The volta e a conclusão que tive é simples… Os caras tocam muito bem, tem presenca de palco, sabem fazer um show sim. A galera correspondeu e vi que entraram no clima da banda. Tiveram outros shows que também gostei. Agora o MADA talvez não fosse o evento certo para eles tocarem, porque só foi eles de Pop Rock e o resto bandas undergrounds. Então vou ser bem imparcial, a verdade é que sim.. a banda é muito boa, agora não é do estilo que o festival se encontra hoje ou na categoria das bandas que eu vi no festival. Agora meter o pau na banda e dizer que foi a pior da noite acho que é perseguicão. Sei lá… quem sou eu pra falar. Espero ver o The Volta em outro show, com mais público voltado para o Pop Rock, e aí eles serão muito bem vindos.

  11. The Volta, voltem para o estudio e treinem mais!

  12. Não dou o devido peso às críticas e comentários pois vivemos num país democrático e a liberdade de expressão é assegurada a todos…Além disso não sei nem qual o seu peso e sua influência na música popular brasileira e se toca ao menos RECO-RECO… Os comentários sobre as bandas só mostram o qunato realmente gosto musical é algo pessoal. Não tem bairrismo em Recife?? hahahahaha conta outra…percebe-se ano após ano o qunato as bandas potiguares são detonadas….