Cobertura: Final do Microfonia 2008

Haymone Neto, vocalista e guitarrista do Mellotrons, não consegue disfarçar o nervosismo. Do alto do palco, confessa: “Nós temos sete anos de carreira, e nunca tocamos para tanta gente”. O público, que chega como gado ao horroroso Ancoradouro para conferir a apresentação do Los Hermanos, em auge naquele 2004, recebe a informação de maneira carinhosa, parecendo querer colocar a banda no colo.
Pouco depois, um magrinho, mal saído dos 15 anos, maquiado, posudo, esgoela-se até não mais poder em uma versão tosca para “Rock and Roll”, do Led Zeppelin. Ele ficou com o quarto lugar. A Mellotrons, com o segundo. Volver levaria o prêmio máximo, e Retrôvisores ficaria com a terceira posição. Entre os jurados, eu acompanhava tudo feliz. Havia votado nas quatro bandas nas seletivas, e sentia que existia um potencial grande a ser explorado por elas.”

Estamos em 2008, na impressionante Nox. Haymone, desta vez, circula pelo público, tomando uma cerveja. O magrinho que cantou “Rock and Roll” há quatro anos está por lá também. E a Volver, com a merecida condição de headliner da terceira edição do Microfonia. Verdade que tudo ficou mais modesto. Não há mais Los Hermanos para fechar a noite, tampouco o séqüito de seguidores histéricos da banda. E, na boa, não fizeram falta nenhuma.

Um evento que reuniu seis bandas locais foi capaz de levar um número considerável de pessoas à Nox numa noite de quinta-feira. A prova que faltava de que o lugar pode, sim, tornar-se um reduto roqueiro. Pelo menos uma vez por mês, pois todas as condições são favoráveis: boas bandas, gente disposta a produzir e, acima de tudo, público interessado em consumir.

Só para não perder a fama de chato, senti falta apenas de uma coisa nessa terceira edição do Microfonia: um envolvimento maior por parte da Aeso. Lembo que, na primeira edição, alunos de jornalismo produziram programas de rádio sobre o evento. A turma de publicidade ficou responsável pela divulgação. Este ano, a integração foi mais tímida. E, justo agora, que a faculdade abriga um curso de Produção Fonográfica. Ocasião que seria perfeita para colocar essa rapaziada para trabalhar na montagem de palco, edição de som, etc. Fica a dica para o próximo Microfonia.

Vamos aos fatos de ontem. De cara, quero deixar registrado que, caso estivesse no júri, votaria no The Keith. Isso significa que o resultado foi injusto? Nem a pau. Candeias Rock City é merecedor de tudo que conquistou. E, goste-se ou não dele, Johnny Hooker é um exemplo muito bom e saudável para Recife. Em vez de ficar reclamando da vida, lamentando a falta de espaço, estrutura e tudo que joga e conspira contra todo mundo na cidade, ele não parou de produzir nesses últimos quatro anos. O resultado foi colhido ontem, e com méritos.

A noite começou com a estranha apresentação d’A Comuna. Vestidos de branca com uma camiseta escrita “Ídolos” – programa que fez de Miranda, quase que ele próprio, um -, fizeram um show que primou pelo inusitado. Primeiro, pela proposta da banda, extremamente distinta dos padrões do Abril pro Rock (alguém consegue imaginar o grupo tocando no evento?). Segundo, por um humor limítrofe entre a sofisticação e a patifaria, vide o cover de “Bonde da Orgia dos Travecos”, de MS Barney e Professor Aquaplay, que nenhum dos jurados (muito menos eu) conhecia. Na versão do A Comuna, ficou parecendo um “funk paraense”, algo como o encontro do morro carioca com o carimbó. A banda deve lançar, ainda no primeiro semestre de 2008, o EP “Maldito”. E é bom ficar de olho neles. Esteticamente, foi uma atração tão à margem de todas as outras que mais parecia um convidado deslocado na festa.

A Voyeur fez um show irretocável, sem falhas. Tudo bonitinho, seguindo à risca a cartilha do Cansei de Ser Sexy. O cover de “100%”, do Sonic Youth, foi maravilhosamente executado, em noite inspirada do guitarrista Paulista. O grupo não deve se abater com o terceiro lugar de ontem, mas, antes de tudo, mira-se no exemplo do Sweet Fanny Adams, quarto colocado na última edição e, das bandas que concorreram com ela, a que melhor trabalhou nesses dois anos.

O que me deixou de fato verdadeiramente surpreso foi o The Keith. A banda mostrou uma maturidade fantástica para a idade que tem. O show foi perfeito. A pegada da banda é irresistível, apropriando-se do que de melhor foi produzido nos anos 60 e adicionado tudo com algumas novas referências. Tudo extremamente bem arranjado e tocado. Dá para notar que é uma banda que ensaia muito, o que parece pouco, mas faz toda a diferença. Trata-se de uma banda já pronta, e, caso não seja piada do jurado-apresentador-produtor William P, a escalação deles no Abril pro Rock será perfeita. Ah, o cover para “Substitute”, do The Who, foi uma espécie de tratado e demarcação de território em forma de música, como se eles dissessem de forma subliminar: “somos isso aqui”. E, paradoxalmente, o “disseram” de forma não-reverente. Para mim, a revelação do ano. E uma revelação já madura, apesar da pouca idade.

Já estou antevendo a chuva de comentários aqui. Que Johnny Hooker ganhou porque é amigo de Paulo André; que ele é o homem-microfonia; que é muita pose para pouca música. Pois pose e música combinam perfeitamente no Candeias Rock City. A banda é ótima, Johnny tem todo o manancial de traquejos roqueiros para entreter o público, e o show da deles é diversão garantida. E, afinal de contas, qual o mote maior do rock senão a pura e simples diversão, aquela agudeza gostosa de ouvir que provoca a vontade imediata de tomar uma cerveja no embalo de seus acordes? “Rebel Rebel”, do tão caro ao Johnny David Bowie, foi o momento da noite, com todo mundo cantando junto. Ok, a banda é esperta, e tratou de levar a sua claque. Só fico na torcida para que a banda não acabe depois do Abril pro Rock. Quanto a Johnny Hooker, ficou claro que teremos de aturá-lo por anos a fio. E isso é muito bom.

A Sweet Fanny Adams esbarrou em um problema raríssimo na Nox: o som não estava legal na apresentação deles. Assim foi com as duas primeiras, “Pretending” e a ótima “She Want’s”. A novidade é que a banda está investindo em uma faceta mais lenta e trabalhada, com ótimos diálogos de guitarras. Trata-se, junto da Amp, da banda que melhor trabalhou em 2008. Viajou o país inteiro, cresceram como músicos e compositores e chegaram no patamar invejável da certeza. Gostar ou não da banda é pura questão de dialética estética/pessoal. Eles são bons pacas no que fazem.

Agora, bonito mesmo tem sido os shows da Volver. Ontem, ficou a impressão de a banda ser uma máquina de hits. Todas as 15 canções que apresentaram são extremamente radiofônicas, com um tempero comercial não-apelativo e ao mesmo irresistível. Ao vivo é ainda melhor do que nos discos, e é muito bacana ver toda uma garotada (é, estou ficando velho) dançando e cantando toda as músicas da banda, fechando os olhos em algumas partes que pareciam registrar momentos marcantes de suas vidas. Várias garotas, todas muito bonitas (é, eu deveria ser músico em vez de jornalista…), se dedicavam a esse ritual de transcendência e abstração. Nada, graças aos céus, que lembre o histerismo tresloucado das fãs dos Los Hermanos, mas uma sintonia quase silenciosa transbordada de afetividade entre banda e público. As músicas? Pode escolher qualquer uma: da abertura com “Dispenso”, até o fim, com “Mr. Bola de Cristal”, passando pela desavergonhada “Coração Atonal”, tudo foi perfeito. Fico com “Tão Perto, Tão Certo”, canção que, para mim, é a carta de intenções da banda e resume toda a proposta dela: falar de relacionamentos, de perdas e conquistas, essa corda bamba chamada vida, em que nos equilibramos tontamente, embaladas por um rock pegajoso (no que a expressão tem de melhor).

Enfim, chegamos ao fim. E com a sensação de que ganhamos todos. Às vezes a vida é doce como uma canção de rock and roll.

52 comments

  1. Felipe (The Keith) says:

    Sou um poeta morto,
    Jazendo em trajes rotos,
    N’um cemitério decrépito,
    N’uma cova mui rasa.

    Sou um poeta morto,
    E os vermes a me comer.
    Em mim não há mais carne,
    Um esqueleto! Vocês vão ver:

    Quando me desenterrarem
    Daqui há dez, cem ou mil anos
    E contemplarem as cinzas
    A qual todos nós nos tornamos

    Sou um poeta morto,
    e me sinto tão solitário
    Dentro da úmida penumbra
    Deste triste caixão de carvalho.

    Sou um poeta morto,
    Morri por causa de um hambúrguer
    Tive indigestão e infartei,
    Sou Felipe Hindenburguer.

  2. fudeu, felipe tá dando uma de augusto dos anjos agora. ei tagore, eu avisei “essas turma da crítica do microfonia é peszu”!