Cobertura: Rec-Beat 2009 – segundo dia

São Pedro resolveu dar uma trégua no segundo dia do Rec-Beat. Parecia até contrato firmado entre céu e terra, pois se este ficou aberto na maior parte da noite, àquela serviu de palco para shows irretocáveis. Tudo redondinho mesmo. Para quem não quiser se dar ao trabalho de ler as linhas abaixo, aqui vai um breve resumo em curtos períodos: River Raid destilou um rockão enérgico em show perfeito. Clay Ross mostrou que nem todo americano que tem vontade de ser brasileiro é chato. Vitor Araújo fez uma apresentação que primou pela emoção. Wyza levou o continente africano para a beira do Capibaribe. E o Eddie lotou completamente o Paço Alfândega, que cantou junto com a banda boa parte dos seus hits.

Agora, para os mais pacientes, a coisa um pouco mais detalhada…

River Raid no Rec-Beat 2009

River Raid no Rec-Beat 2009

Uma horda humana impressionante deixava o Paço Alfândega logo após o encerramento do Quanta Ladeira, por volta das 19h30, quando o River Raid começou a passar o som. A única coisa a lamentar sobre o show deles é que ele deveria ter sido visto por muito mais gente. Mas eles não ligaram a mínima pelo fato de ser a primeira banda da noite. Subiram ao palco fantasiados e mandaram ver um rock amplificado pelas paredes sonoras criadas por três guitarras que fizeram as pessoas esquecer por alguns momentos que estávamos em pleno carnaval. Agora, finalmente, consegui ver um show deles em condições adequadas, com aparelhagem de som decente, bem diferente do que aconteceu na última vez em que os tinha visto, no Clube Português, quando a banda abriu para Pitty. “”Alcool“” é o tipo de música que desperta a raiz roqueira de quem carrega o gênero no sangue, fazendo com que até abstêmios passem a ter vontade de beber para acompanhar a canção. Quem tem rock nas veias deve entender o que estou falando. Em suma: não perca o próximo show deles.

O guitarrista americano Clay Ross é uma figuraça. Entrou no palco e tentou estabelecer diálogos entre o folclore brasileiro e yankee. Cacarejou (de verdade!) um bocado, tocou muito e colocou boa parte do público para dançar ensandecido. Alguns chegaram até ao cúmulo de simular uma roda-de-pogo tendo como trilha sonora um solo de acordeom. Seu som tenta misturar velho oeste e um sertão um tanto estilizado, mas tudo é tão divertido que não soa artificial. Na verdade, é o típico show que depende de clima. Se você aceitar a proposta oferecida pelo artista, vai se divertir um bocado. Caso contrário, melhor dar uma volta e comprar uma cerveja. As duas premissas (e suas respectivas conclusões) valeram para Clay Ross, mas o número de satisfeitos pareceu bem maior.

E aí veio Vitor Araújo tocar para um público que a princípio parecia não estar com a menor boa vontade para vê-lo. E foi fascinante ver como ele reverteu o jogo. Escudado pelo baixista Tales Silveira e pelo excelente baterista Márcio Silva, Vitor entrou no palco mais parecendo uma pilha de nervos. Após uma vinheta que destacava “Everything is The Righ Place”, do Radiohead, sentou-se ao piano e tocou “Chapéu de Sol Aberto”, de Capiba. Depois, tratou de estabelecer conexões entre Chico Buarque e Ray Charles, provando que os arranjos de “Samba e Amor” e “Hit The Road Jack” são absurdamente semelhantes, embora sejam canções que, para um ouvinte leigo, não comungam da menor semelhança. Ainda recitou o genial “Pneumotórax”, de Manuel Bandeira, aquele da “vida que poderia ter sido e que não foi (…)”, e que resta ao doente “apenas tocar um tango argentino” em seu leito de morte. E colocou jazz, música erudita e MPB no mesmo patamar, por vezes na mesma canção. Saiu de cena ovacionado. Quer saber? O menino é foda mesmo…

O angolano Wysa entrou com uma banda toda formada por brasileiros, incluindo o excepcional Garnizé na percussão, e mostrou uma boa combinação da música pop africana com elementos de raiz. Suas músicas são todas cantadas em dialetos de Angola (a saber, quikongo, quibundo e ovibundo). Sua relação com o Brasil é de bastante proximidade. O disco “Afrika Yaya”, que serviu de boa parte do repertório do show do Rec-Beat, foi produzido pelo brasileiro Reinaldo Maia e masterizado em São Paulo. Não à toa, chamou ao palco dois amigos pernambucanos: Isaar, que dividiu os vocais com Wysa em uma das canções, e Zé Brown, que chegou a roubar a cena em um rap/repente emocionado que cativou todo o público. Belíssimo show de um cantor africano que ousa usar violino em suas composições, coisa não muito habitual na música do continente.

Eddie no Rec-Beat 2009

Eddie no Rec-Beat 2009

Mas a noite era mesmo toda do Eddie. Impressionante como o local ficou assim que a banda entrou em cena. E, justiça seja feita, se “Carnaval no Inferno” está longe de ser um grande disco, o Eddie sempre é muito bom ao vivo. Desarma qualquer um. Assim foi logo na segunda música, “Futebol e Mulher”, seguida de “Original Olinda Style”. O jogo já estava ganho. Tocaram ainda a ótima “Gafieira no Avenida”, que faz parte da trilha sonora de “Amarelo Manga”, de Cláudio Assis. Onipresente, Erasto Vasconcelos foi homenageado com duas de suas canções: “Maranguape” e a irresistível “O Baile Betinha”. Talvez o Eddie tenha tocado ontem para o maior público de sua carreira. E foi bonito ver que eles têm uma quantidade tão numerosa de fãs.

Tem dias em que tudo dá certo. Ontem foi assim para o Rec-Beat. Obrigado, São Pedro!

Posted segunda-feira, fevereiro 23rd, 2009 under Notícias.

13 comments

  1. Hugo,
    A música do Amarelo Manga se chama “Gafieira no Avenida”.

  2. Túlio Montenegro says:

    Hugo,
    Vc é “imprensa não preguiçosa”, parabéns pela cobertura!

  3. olá, pessoal! legal o texto, hugo! também estou fazendo uma ‘cobertura não-preguiçosa’, à medida da (in)possibilidade de tudo ver e sentir, do carnaval 09 aqui no recife e em olinda. o post de hoje traz link para essa matéria: cheguem por lá!
    http://bexigalixa.blogspot.com/
    abç, z.

  4. André Mantra says:

    Excelente a apresentação do Victor Araújo.

  5. Hugo Montarroyos says:

    Corrigido, B. =)

    Valeu!

  6. Guilherme Moura says:

    Comprei várias cervejas no Clay Ross. Achei chato pra caramba. Rolou o maracatu/blues ? não ouvi.

    Fui pro Marco Zero ver MLSA… roubada total. Muito cheio e apertado. Pra piorar achei o show leeeeeeento. Quem roubou a cena foi o Eugene “Gogol Bordello” levando o povo pra dançar no palco.

    Ver shows no Marco Zero é um ato de bravura :P
    Pra quem perdeu… Hoje tem MLSA + Eugene no Alto Zé do Pinho com Carfax e Devotos. O palco fica na rua do terminal, depois da casa de Cannibal. Pra quem quer ver shows na tranquilidade vale a pena ir lá. Carnaval família sem aperto.

    O show do Eddie foi pefeito. Carnaval sem o Inferno do Marco Zero. Me senti no Rec-Beat 2003, na Rua da moeda na noite com Mestres da Guitarrada, Eddie, Seu Jorge e Lenine. Muito foda. Melhor show do carnaval até agora.

    Quanta Ladeira é um gréia. Só achei quem tinha muita gente fazendo pose com o microfone sem saber cantar nada :P Lenine faz muita falta. Me falaram que ano passado o público tava mais empolgado e participativo.

  7. andre intruso says:

    Gogol Bordello

    A impressao que se deu foi de Zero O4 te-lo encontrando em alguma tribo aborigene da Ucrania! Mas foi interessante!

    Vitor Araujo toca piano com espirito de guitarra!

  8. Diego Albuquerque says:

    Eu achei o show da River Raid legal, so nao vejo a necessidade de tres guitarras pra fazer o que o tom morelo faz com uma so. Tudo bem que ninguem ali chega no tom com uma guitarra na mão, mas simplismente nao vejo tanto som pra 3 guitarras. Porem, é um direito dos caras usarem quantas guitarras quiserem e o show de ontem foi divertido.

    Clay ross eu achei bem carnaval mesmo, divertido, o cara soube fazer o show correr bem, achei melhor do que o que eu esperava.

    Vitor é muito bom no piano, so nao tem clima pra carnaval, resolvi ir no Mundo livre ver a participação do manu chao, que eu achei o melhor momento do show deles ontem. O eugene tentou animar depois, mas a mundo livre tava lerda, nao sei porque, mais devagar que o normal…

    Depois voltei por Eddie, eles realmente sabem fazer a parada ao vivo, so esperava ouvir mais o TAL carnaval no inferno ao vivo, ficaram devendo na minha opinião. Mas era carnaval, fizeram show pro povao, pedindo os hits.

    Mas o melhor da noite pra mim foi nação com Siba mesmo, foi muito bonito o show todo.

  9. Vitor Araújo é, de fato, um músico muito talentoso. Potencialmente, ele é um pianista excepcional. O problema é que o garoto perde muito tempo com a “pose de revolucionário” que assume, dando pouca relevância – mesmo sem perceber – à música que toca.

    As suas apresentações são marcadas pela excentricidade de sua postura e não pela grandeza da música tocada. O show no Rec Beat foi apenas mais uma confirmação disso.

    Acompanhado pelo magnífico Tales Silveira, veterano baixista do quarteto Malavoodoo com formação na Berklee College of Music (olhem no Google e vejam do que se trata), e Márcio Silva, um dos melhores bateristas de jazz da sua geração (procurem ouvir seu trabalho no grupo Saracotia), Araújo sobe ao palco para uma apresentação, no máximo, morna. Os músicos foram subaproveitados – o próprio Vitor inclusive. Novamente a encenação foi privilegiada.

    Resultado: um prodígio mirim dando pinta de gênio para um público provinciano que não conhece música instrumental (para não dizer jazz) e louva tudo aquilo que é visto como o revolucionário pela mídia local (se o olhar for da imprensa nacional, a coisa fica ainda pior).

    Sinceramente, torço para que Vitor Araújo não se deixe seduzir pelas facilidades do mundo pop e se concentre na música, pois ele já deixou claro que é bastante talentoso. Só precisa de foco.

  10. “Agora, finalmente, consegui ver um show deles em condições adequadas, com aparelhagem de som decente, bem diferente do que aconteceu na última vez em que os tinha visto, no Clube Português, quando a banda abriu para Pitty.”

    Hugo, só gostaria de esclarecer que o sistema de som e iluminaçao usados no show da Pitty no clube portugues foi o mesmo usado no recbeat desse ano, o sistema da empresa PA e CIA.

    abs
    Pablo

  11. Eu também vou reclamar says:

    Talvez seja por isso que faz do Victor Araújo diferente dos velinhos sentados com direito a partituras ao piano.
    Ele ao menos fez, quem sabe, o fará mais vezes que nós provincianos, meros ouvintes de rock e outros subgêneros despertem para uma música bem executada ao ponto de satisfazer de quem realmente entenda de música seja ela erudita ou não.

  12. Resenha: Eddie – “Carnaval no Inferno”do RecifeRock! de Hugo Montarroyos (30/01/2009)

    “(…) Tanto que até uma composição da irretocável Nação Zumbi, “Gafieira na Avenida”, se transforma em uma experiência que beira o insuportável para o ouvinte. (…)”

    Cobertura: Rec-Beat 2009 – segundo dia de Hugo Montarroyos (23/02/2009)

    “(…) Tocaram ainda a ótima “Gafieira no Avenida”, que faz parte da trilha sonora de “Amarelo Manga”, de Cláudio Assis. (…)”

    Não demorou nem um mês?! =)