Cobertura: Festival DoSol – Segundo dia

Natal está de parabéns por ter um festival que escale tantas bandas locais em sua programação. Recife já foi assim. Hoje é diferente. Os festivais chamam um monte de banda de fora e duas de Recife só para dizer que chamou”. A declaração foi de Cannibal, durante o show do Devotos no DoSol. Deixando de lado a polêmica no que se refere ao Recife, a frase faz todo sentido quando aplicada à capital potiguar. Quando o Festival DoSol surgiu, em 2005, a cena de Natal era extremamente frágil. Contava-se nos dedos as bandas locais realmente boas. E, mesmo as que tinham qualidade possuíam pouco público. Hoje a realidade é inversa. Goste-se ou não do DuSouto, por exemplo, é bacana ver como a banda é popular em sua cidade. É nítido também o quanto o cenário cresceu e diversificou-se desde então: novas bandas surgiram, dos mais variados estilos. A ponto do DoSol “dar-se ao luxo” de contar com 15 bandas potiguares em sua programação. Lógico que vai existir um processo de seleção natural. Nem todas sobreviverão. Capaz da maioria não conseguir vingar. Mas, se ao menos uma delas der certo, já valeu a aposta, o investimento. Já dizia Karl Marx:”quantidade gera qualidade”.

O segundo dia de festival foi dedicado ao peso, em todas as suas vertentes: metal melódico, trhash, death, punk, hardcore e afins. E da expectativa gerada em torno do show do The Exploited. Da suposta invasão de carecas nazistas que tomaria conta do local. Das tretas punks que seriam provocadas por uma banda que faz apologia do nazismo. Tudo conversa para boi dormir. Nunca soube da existência de punk careca nazista no Nordeste. E o The Exploited já contou com três judeus em sua formação e são extremamente populares em Israel. Não deu outra. Show sossegado, clima família, violência zero. Nem uma briga sequer. E o que não faltou foi roda-de-pogo. E na maior paz, como deve ser.

Claro que o perfil do público mudou em relação ao primeiro dia. Punks, metaleiros, muita gente de preto. Guris, menininhas e gente já não tão nova assim se misturaram numa boa para curtir os shows.

Fechei propositalmente os olhos para alguns shows, e explico o motivo. Eu DETESTO metal melódico. Então, por melhor que fossem as locais Deadly Fate e Comando Etílico, não seria justo com elas ser avaliadas por alguém que não tem a menor simpatia pelo gênero e que considera o Massacration a melhor coisa já surgida neste segmento. O caso do Calistoga foi diferente: foi cansaço mesmo. E, assumo, um dos motivos principais que me levaram a cobrir o DoSol foi acompanhar o show do Devotos em Natal. E o priorizei ao máximo. No futuro explicarei melhor o motivo. Acabou acontecendo algo semelhante com o Mugo, de Goiânia, que tocou antes do The Exploited. E foi difícil chegar em tempo de ver as primeiras bandas, caso do Dr. Carnage e I.T.E.P. Em todos os casos citados acima, a culpa e responsabilidade são minhas.

Enfim, cheguei em tempo de ver o hardcore melódico local do Fliperama. E, novamente, o som do palco principal estava complicado para as primeiras bandas. Ainda que o som estivesse cristalino, tenho lá minhas dúvidas se o Fliperama faria um bom show. O emo e o hardcore melódico sofrem de um problema sério: são perecíveis. Uma espécie de Menudo punk. O tipo de som que você gosta e consome com determinada idade. E, quando cresce, morre de vergonha de ter gostado daquilo um dia. É o que acaba acontecendo com todas essas bandas…

O paulistano Nervochaos teve ótima recepção. A banda faz literalmente um som do capeta, muito bem trabalhado. Destaque para a ótima “Chaos City”, que mostrou um belo trabalho de guitarras escudadas por um baixo sinistro.

O Distro é a mais grata surpresa surgida em Natal nos últimos tempos. Fazem um som com claras influências da vertente Crazy Horse de Neil Young. Um rock duro, vigoroso e cantado em inglês. O detalhe: o baterista, soldado da polícia, não pôde tocar porque estava em horário de trabalho. Entrou na hora um amigo da banda que conhecia todas as músicas. E o resultado foi ótimo.

A atração diferenciada da noite foi, em todos os sentidos, os noruegueses do Pulverhound. O trio conta com o baterista pernambucano Lico em sua formação, e faz um som denso, ora influenciado pelo dark, ora mais pop, ora mais roqueira. E sempre muito boa em todas essas linhas. O público ficou sem saber como reagir, mas parecia não piscar os olhos e desviar a atenção do palco um segundo sequer. E o som estava perfeito durante o show deles. Eis uma banda que gostaria de ver de novo, com mais calma ainda. Foram irretocáveis, perfeitos, mas não sei se todo mundo se deu conta disso.

O Confronto foi tremendamente devastador. Os caras pintaram e bordaram. Com um hardcore de guitarras “cheias”, com belos riffs, regeram rodas-de-pogo de todas as formas possíveis e imagináveis. Inverteram seu sentido, a dividiram em duas, estimularam moshs e deixaram ensandecidas mais da metade da plateia. Foi, junto com Devotos e The Exploited, o melhor show da noite. Talvez um dos melhores da história do DoSol.

Perto de mim, na parte superior do galpão, dois moleques conversavam durante a passagem de som do Devotos: “cara, vamos descansar. A gente vai passar o show todo na pogação”. O trio é apresentado, e abre com “Nós Faremos que Você Nunca Esqueça”. Emendam com “Caso de Amor e Ódio”. E, estranhamente, nada da roda. E aí começou a acontecer algo mágico. A cada música tocada, a roda surgia tímida e ia aumentando e se intensificando. Foi assim com “Vida de Ferreiro”, “Eu Tenho Pressa”, “Mas Eu Insisto”. Em determinado momento, Cannibal desabafou: “nós temos um minuto para tocar quatro músicas”. E isso parece que deu um peso e velocidade ainda maior às músicas, como em “Roda Punk”. Muitas pessoas de Recife estavam na plateia. Até torcedores uniformizados do Sport. Veio o final com “Punk Rock Hardcore Alto José do Pinho”. E a surpresa reservada para o fim, que nem a banda esperava: anunciaram um bis. Talvez pela primeira vez na vida a banda não tenha encerrado um show com “PRHAJP”. Tocaram “Tem de Tudo” e “Faz Parte do Cotidiano”, e fazia gosto de ver como Neilton estava feliz e entregue à música ao tocá-la.
Acompanho o Devotos há pelo menos 15 anos. Perdi a conta da quantidade de shows que vi deles. E nunca testemunhei uma apresentação ruim dos caras. Com quantas bandas você pode dizer o mesmo? É a banda de Recife da qual tenho mais orgulho, e não tenho o menor problema em dizer isso. Por quê? Porque, entre outros motivos, seja lá o local em que tocam, o “estrago” provocado é o mesmo. Porque estão há 21 anos fazendo o mesmo som sem se repetir. E porque seu hardcore é diferente de tudo o que há no gênero. Na segunda-feira de manhã, Wattie Buchan, vocalista do The Exploited, tomava café-da-manhã, no hotel em que estava hospedado, vestindo uma camisa do Devotos. Isso talvez explique muita coisa.

No fim das contas o melhor estava reservado para o fim mesmo. O show do The Exploited foi perfeito. Muita gente de fora de Natal foi até a capital potiguar para vê-los. E duvido que tenham se arrependido. A roda de pogo não parou um só minuto. O grupo mostrou que é relevante ainda hoje, mesmo depois de tantos anos de estrada. Decadência é uma palavra que está bem longe de caber no sensacional Wattie Buchan, que, por várias vezes, bateu com o microfone na parte posterior da cabeça e tentou em vão conversar com o público. Em vão porque o inglês falado na Escócia é indecifrável. Não dá para entender uma palavra do que o cara fala. A parte mais surreal coube ao bis. Chamaram algumas pessoas do público para o palco, e um cara chamado André deve ter tido o melhor dia da sua vida. Visivelmente emocionado, abraçou toda a banda como se fosse um integrante da família que não via há anos. Uma menina à minha frente baixou a cabeça e disse: “meu Deus, que vergonha”. E eu, cá com os meus botões, dizia para mim mesmo que entendia perfeitamente o sujeito. Ele e outras pessoas da plateia foram convidadas a subir no palco para cantar “Sex and Violence”, e o único que o fez com desenvoltura e no tempo certo foi o André, que, por uma música, virou o “quarto exploited”. Foi bonito de ver. Primeiro, que ainda existam bandas como o The Exploited. Segundo, que tal banda consiga arrancar caravanas de várias cidades do Nordeste. E, finalmente, para enterrar de vez essa baboseira de nazismo associada ao grupo.

Este foi o terceiro DoSol que cobri. E, disparado, o melhor deles. 2010 promete…

Posted terça-feira, novembro 10th, 2009 under Coberturas, Destaques.

3 comments

  1. Bacana a corbertura, porém vou fazer um esclarecimento.

    O Fliperama não é uma banda de hardcore melodico e sim de Punk Rock Bubblegum ou Pop Punk como dizem os gringos, inclusive respeitada pela mídia especializada aqui no Brasil.

    Abçs

  2. Mermãão, hardcore melodico é muitoo diferente do estilo da Fliperama, né!! Tenha dó!
    Antes de ser dizer jornalista e escrever em um site de rock, é melhor tu estudar um pouco do assunto pra não sair por ai falando besteiraaa!!! Sem viagens, velho!