Cobertura: Coquetel Molotov 2013 – Segundo dia

Nunca, na história do Coquetel Molotov, a faixa etária do público foi tão baixa como na noite de ontem. Por vezes, mais parecia que estávamos numa matinê do que num festival de música. O grosso da plateia, que lotou o Teatro da UFPE, podia ser resumido da seguinte forma: meninas entre 15 e 20 anos. Algumas acompanhadas dos pais (havia até uma cor de pulseira específica para identificar os menores de idade). E a razão de tal demanda era uma só: Clarice Falcão.

E a explicação do seu sucesso por essas praias pode ser explicada por vários fatores: o fato de ter ficado nacionalmente conhecida com o Porta dos Fundos. O comercial do Pão de Açúcar, veiculado em horário nobre na TV. Ser pernambucana e filha do diretor João Falcão. E, finalmente, sua capacidade de conseguir se comunicar com um público que se identifica fortemente com ela. Todas as músicas de Clarice parecem saídas direto de algum “querido diário”. Para quem é mais novo, vale a explicação:  nos anos 80 e 90, toda menina possuía uma agenda que chamava de “diário”, onde recortava e colava artigos que achavam interessantes, fotos de galãs da época e confissões que elas só tinham coragem de revelar ali, naquelas páginas. O que Clarice fez, e de forma bem inteligente, foi abrir sua agenda e transformá-la em canções. Acho que é por isso que tem tanto apelo entre as adolescentes. O que explica, também, o natural desdém de quem é mais velho.

Novamente perdemos as atrações da Sala Cine PE, mas desta vez foi proposital. Nosso foco era guardar as energias para focar as atenções nos artistas que se apresentariam no Teatro da UFPE. Afinal, o primeiro dia atrasou bastante, e Rodrigo Amarante terminou seu show após as três horas da manhã.

A segunda coisa que ficou nítida na segunda noite (além do perfil do público) foi a disposição do teatro. A produção optou por colocar grades na frente do palco, para evitar invasões. Mas, mesmo assim, isso não evitou que uma garota visivelmente alterada subisse para abraçar Clarice e tentar cantar com ela. Deu azar de invadir no meio de uma música que não conhecia. “Não conheço essa”, disse ao microfone, antes de ser expulsa pelos seguranças. Ao final do show, triunfante, berrava para todo mundo ouvir na saída do teatro: “Foda-se a sociedade! Eu toquei em Clarice Falcão!” Era este o nível de idolatria.

Quem abriu a noite no Teatro da UFPE foi a ótima Bixiga 70, de São Paulo. Com formação que incluía dez músicos, sendo quatro metais, duas percussões, guitarra, baixo, bateria e teclado, o grupo colocou o público todo para dançar ao som de algo que mais se aproximava ao fusion, com bastante influência de música africana, jazz e ritmos latinos, tudo tocado com muita personalidade e estilo próprio. O público fez até trenzinho, que circulava por todas as dependências do teatro. “Nós somos crias da música de Recife”, diziam. E, para provar, finalizaram com uma versão psicodélica e quase hardcore de “A Missa do Vaqueiro”, clássico de Luiz Gonzaga. Estava selada ali a melhor apresentação desta edição do Coquetel Molotov.

Depois foi a vez do americano Perfume Genius. A banda, que se apresenta em trio (teclados, programações e bateria) é na verdade um projeto pessoal do músico Mike Hadreas. Suas canções são minimalistas, algumas verdadeiras joias de pura beleza. Outras resvalam para o tédio. Muitas vezes, ficamos na fronteira entre achar tudo genial ou genuinamente golpe, o tipo de música que é fácil de fazer com o mínimo de esforço necessário. Tudo que tocaram me remeteu a “Videotape”, do Radiohead. Parece que o Perfume Genius pegou tal música e a multiplicou em várias outras. De surpreender mesmo foi constatar que havia alguns fãs na frente do palco. É o típico show que cresce bastante em teatro, com iluminação propícia para criar um clima bem deprê a tudo que era tocado ali. Foi um contraste tão grande com o furacão do Bixiga 70 que chegou a ser desconcertante.

Mas, para mim, a grande decepção da noite foi o Metá Metá, que nada mais é do que um grupo de samba rock que tenta desesperadamente soar original mas que acaba passando a impressão – como bem comentou uma amiga – de soar como clone de Clara Nunes em versão mais moderna. A expectativa era tanto em torno deles, tantos músicos haviam falado que a banda era maravilhosa, que, sinceramente, esperava bem mais deles. Verdade que o show terminou melhor do que começou, mas só empolgou mesmo nas duas últimas músicas. E o grande destaque da banda é a baterista Priscila Brigante. No mais, nada demais.

E finalmente chega o momento pelo qual todos aguardavam com uma ansiedade típica dos adolescentes. A reação do público chegou a me lembrar, em vários momentos, a das fãs do Restart. E então surge Clarice Falcão, vestida com uma capa de chuva preta e um guarda-chuva enorme, também preto, aberto. Era uma referência a um de seus sucessos, uma música que contava a história de uma menina (ela, claro) que bebeu rios de álcool até corroer o fígado por conta de um fracasso amoroso. Há de se fazer justiça: a banda que a acompanha é muito boa, e Clarice realmente tem domínio de palco e controla o público. Mas é difícil embarcar na onda se você foge do padrão “menina de 16 anos que levou um fora e quer colocar tudo para fora em canções que soam tragicômicas”. Alguns versos são constrangedores, do nível “queria ser o pinguim da sua geladeira, eu ficaria parada a semana inteira”. Mas a identificação com a meninada é impressionante, e todas cantam em uníssono, como se tivessem vivenciado tudo que Clarice canta. Já na terceira música, ela se despe da capa de chuva e nos mostra o seu figurino: um vestido branco fofo, que a faz parecer uma debutante. Arrisca um discurso politizado: “O Porta dos Fundos me deu várias alegrias, mas a maior delas foi quase ser processada pelo Marcos Feliciano”. Quis ser “fofa” o tempo todo: “Estou muito feliz por tocar no Recife, porque, além de ter nascido aqui, foi onde fiz meu primeiro show, com quatro anos de idade, na sala da minha casa, segurando uma escova de cabelo no lugar do microfone e cantando clássicos da MPB como ‘lá vem o negão cheio de paixão”. E arrematou: “que bom que a escova se transformou num microfone de verdade”. O que é espantoso é que todos ali conheciam todas as letras de “Monomania”, disco de estreia de Clarice. E todas ali, sem saber, estavam cantando coisas que teriam, se tivessem crescido antes da internet, anotado em seus queridos diários. O segredo de Clarice é mostrar despudoradamente a sua agenda e não ter medo de parecer o tempo inteiro uma menininha boba e engraçadinha de 15 anos. Ela é uma espécie de Restart da MPB. Já desfruta de uma popularidade que, por exemplo, Mallu Magalhães jamais terá. Resta saber, como todo fenômeno da internet, quanto tempo vai durar. Boa sorte, Clarice!

Posted domingo, outubro 20th, 2013 under Notícias.

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