Cobertura – Festival Experimental de Música

É impressionante como uma mesma banda pode soar extremamente diferente em circunstâncias distintas. A única referência que eu tinha da curitibana A Banda Mais Bonita da Cidade era o show que eles fizeram no Abril pro Rock do ano passado. E, naquela ocasião, achei a banda boba. Cheguei a comentar que tudo que eles faziam (em termos de arranjos) parecia uma colcha de retalhos do “The Bends”, do Radiohead, embalado em letras tragicômicas, a maioria bem ruim, por sinal.

Pois não foi o que vi ontem, no Teatro de Santa Isabel, no encerramento da segunda edição do Festival Experimental de Música. Ali, tudo fez sentido. A banda demonstrava um nível de profissionalismo incrível. A vocalista Uyara Torrente era um show à parte, dona de um domínio de palco digno de veterano. Ali cheguei a algumas conclusões: em 2012, a banda estava na hora e no lugar errados. Explico: tratava-se dos 20 anos de Abril pro Rock, em noite em que abriram para o Los Hermanos, no dia de maior público da história do festival: 15 mil pessoas. Ou seja, todo mundo estava lá, enlatado feito sardinha no Chevrolet Hall, para ver o Los Hermanos. A Banda Mais Bonita da Cidade parecia deslocada. Desnecessária, até.

Ontem, enfim, tocaram para um público que era deles. Em um dos teatros mais bonitos do Brasil. E fechando uma programação que primou por gente que ainda está bem no começo da carreira. Ou seja, tinha tudo para dar certo. E deu. E muito!

Ao começo: antes de tudo, vale salientar que é muito bacana ver um festival produzido por um pessoal tão novo. E, melhor ainda, testemunhar o interesse do público por tal evento. E, ainda melhor, apostar em nomes que ainda estão longe do grande circuito local. O horário é que foi bem ingrato. Talvez por uma questão de pauta do Teatro de Santa Isabel, os shows começaram muito cedo, por volta das 18h. É quase inviável tocar para um público maior numa sexta-feira em tal horário. Uma pena, pois justamente por isso perdemos a primeira apresentação, da violinista Zasha Greige. Nossas sinceras desculpas e a promessa de que não perderemos a próxima.

Depois foi a vez de Romero Ferro. É complicado falar de alguém com tão pouco tempo de carreira. Em determinado momento do show, Romero disse: “essa é minha composição mais antiga. Tem três anos”. Como Romero tem 22 anos, é de supor que a tenha escrito com 19. Justiça seja feita, o cara sabe cantar – o que, em Pernambuco, já pode ser considerado louvável. Mas ficou clara a inexperiência ao atirar para todos os lados. Seja com o teclado irritante que tenta remeter aos anos 80, ou na tentativa de fazer um pop romântico, ou em dispensar a banda inteira para tocar sozinho com o violão (bem desafinado) em punho.  Romero sofre de falta de identidade. Seu caminho ainda não está muito claro. Conseguiu driblar bem os problemas que teve com o som no início do show (que estava muito alto), mostrou desenvoltura e tal. Mas parece um bocado verde ainda. No mais, foi interessante a participação especial da cantora Vanessa Oliveira, um bom nome da nova safra pernambucana.

Já Heitor (que faz parte da banda La Cambada) entrou em cena com pinta de veterano, acompanhado de ótima banda, com o auxílio luxuoso de uma trompa que dava um requinte maravilhoso a todas as canções. Lançando o EP “Aconchego”, seu som parecia mais consistente e maduro do que o de Romero Ferro. Até o momento em que resolveu tocar “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque. Estava indo bem, até que tropeçou na letra, pediu desculpas, tentou retomar e confessou: “não vai rolar, galera. Foi mal. Essa é pro Recife Rock falar mal amanhã! Estou muito nervoso”. Heitor, meu velho, é o seguinte: até Chico Buarque esquece as letras dele. Não esquenta com isso! Mas a verdade é que Heitor esquentou e, a partir daí, começou a ter dificuldade em encaixar sua voz de forma correta em todas as canções. Parecia não encontrar mais o tom. Ainda chamou a namorada, Maria, tecladista do La Cambada, para cantar com ele, o que garantiu o “momento fofo” do show. Fez uma versão para “A Outra”, do Los Hermanos. Depois do festival, fui conversar com Heitor e me surpreendi ao constatar como ele ainda tem cara de moleque. Em certo sentido, embora mais “maduro”, o problema de Heitor é o mesmo de Romero Ferro: falta de experiência. E isso, não tem fórmula mágica, só o tempo dá.

E veio, enfim, A Banda Mais Bonita da Cidade. E o desnível ficou evidente. Perto de tudo que veio antes, os curitibanos pareciam ter anos e anos de estrada. Abriram com “Potinhos”, que foi cantada por todo o público. E ali deu para perceber que o clima era perfeito para a banda. A vocalista, a ótima Uyara Torrente, tem formação teatral, o que a deixou, literalmente, se sentindo em casa. A banda revelou-se perfeita para tocar em teatros. Ainda que a certa altura do campeonato o guitarrista Rodrigo Lemos tenha pedido desculpas pela “barulheira”, Uyara emendou em seguida: “Que nada! Vamos deixar essas formalidades de lado”. “Mercadodrama” foi outra canção que também foi cantada em uníssono. A intenção da banda, segundo a própria Uyara, era mostrar as canções do novo disco, “O Mais Feliz da Vida”, o segundo da carreira. Mas não houve tempo suficiente para isso. Em compensação, deu para chamar Tibério Azul (talvez o artista pernambucano de sua geração que tenha melhor amadurecido ao longo dos anos) para cantar “Lá Em Casa”, composição de Tibério em parceria com os curitibanos. E veio, então, em duas partes, o começo do fim. Na primeira parte, Uyara chamou todas as atrações anteriores para “bagunçar” e participar da última música, ao que foi prontamente atendida. E, depois, com “Oração” sendo cantada por todo o teatro, Uyara desceu do palco, acompanhada pelo baterista Luis Boursheidt, que, tal como integrante de bateria de Escola de Samba tocando surdo, fez o público todo ir atrás deles, em um dos finais de show mais bonitos que já vi. E assim foi, todo o público, atrás da Banda Mais Bonita da Cidade até a entrada do Teatro de Santa Isabel, onde “Oração” continuou ecoando por um bom tempo. E foi bonito de ver. Bonito como A Banda Mais Bonita da Cidade…

Posted sábado, novembro 2nd, 2013 under Notícias.

4 comments

  1. 2 observações
    “A Banda” iniciou o show tocando “Potinhos”
    Tiberio Azul tocou “Lá em casa”
    de onde tiraram esse nomes de musicas mencionados?

  2. Hugo Montarroyos says:

    O erro foi todo meu, Tintilo! E já foi corrigido, graças a você. Mil desculpas e obrigado =)

  3. Velho.. obrigado pela crítica.

    Temos ralado bastante e é demasiadamente importante esse trabalho que o Recife Rock tem feito e que eu já acompanho desde (mais ou menos) da 2ª edição do festival Microfonia, e que tomo na humildade pra voltar a Recife melhor! No mas espero sinceramente que gostem do Ep, que foi feito com muito carinho e vamos em frente! =D

  4. Eu concordo com quase tudo que foi dito. O show do Heitor foi do caralho. A participação de ‘Maria’ foi uma das coisas mais bonitas que vi na vida. Nem Camelo e Mallu conseguiram fazer algo tão sincero em cima do palco. Quanto a ‘banda mais bonita…’, eu não achei a apresentação do ABRIL ‘boba’, o problema é que o público não estava ali por eles. Agora, a presença de palco melhorou muito. Foi evidente o quanto Uyara cresceu. E a banda amadureceu muito.