Resenha – DMINGUS – Fricção

Dmingus

 

A música que DMINGUS faz é daquelas que não se encaixam fácil em qualquer rótulo. Introspectivo, DMINGUS é mestre na arte de produzir álbuns em que grava todos os instrumentos. Faz isso desde 1993, época em que gravava inacreditáveis fitas K-7 em que era responsável por tudo. Seu trabalho ganhou um pouco mais de visibilidade quando fez parte da Monodecks, na metade da década passada. Mas, de uns anos pra cá, vem fazendo de seu quarto o seu estúdio. Volta e meia, é selecionado para tocar em algum festival. E aí surge o principal problema: é muito difícil transpor para o palco todas as nuances de seus discos. Este processo deve ficar ainda mais complicado com este “Fricção”, álbum que lança agora.

A primeira imagem que me vem é a seguinte: imagine que Arnaldo Baptista começou a compor hoje, tendo à sua disposição toda a tecnologia que não existia em sua época. Junte-se a isso uma formação clássica em filosofia (DMINGUS, o homem, é formado em Filosofia) nas letras e o que você irá encontrar é um típico disco em que qualquer diretor de gravadora soltaria a clássica expressão “suicídio comercial”.

Se há uma coisa que DMINGUS não pode ser acusado é de falta de ousadia. Aliás, ele até abusa dela. Alguns títulos de canções dão uma ideia da coisa, como “Vendo um meteoro passar”, “Frágil penugem nos ares gelados” e a auto explicativa “Autossabotagem”.

“Fricção”, o disco, é onírico do começo ao fim. Parece trilha sonora para alguma viagem de ácido (nunca tive uma, mas deve ser assim). É perturbador e incômodo. Se sua praia for música pop, fique longe dele. Mas, se você se arriscar pelas 12 faixas do álbum, vai dar de cara com joias como “Trêmulo”, que soa como algo esquisitamente pop, como o Radiohead fez com Kid A. Batidas hipnotizantes, teclados espertos e baixo climático. Ou “Estrela do oriente”, que mistura regionalismos do Nordeste brasileiro e ares asiáticos.

Para ter uma vaga noção, em “Eno” DMINGUS começa cantando “Põe pra tocar esse disco de Brian Eno, ele deixa o ambiente tão zen,  cheio de possibilidades estéticas”, em voz que aos poucos vai ficando incompreensivelmente robótica. É disco para quem não tem medo de estranhamento. Para quem curte Bergman e Kubrick. Típica obra de quem está preocupado apenas em agradar a si. Com todas as qualidades e defeitos que tal proposta abrange. O critério entre o tédio e o encantamento é separado por uma linha praticamente invisível. Não é para qualquer ouvido. E DMINGUS sabe disso.

Cotação – Bom

Posted quarta-feira, novembro 13th, 2013 under Notícias.

Comments are closed.