Cobertura: Guns n’ Roses no Recife

por Hugo Montarroyos

E eis que após 23 anos da primeira visita do Gun n’ Roses ao Brasil, em 1991, a banda, enfim, pisou em solo recifense. Ou pelo menos o que sobrou dela. A capital pernambucana ainda deu a sorte de contar com a presença de Duffy McKagan, baixista da formação original. Além dele, apenas o rechonchudo Axl  Rose faz parte do núcleo base da banda. O tecladista Dizzy Reed, embora esteja no grupo há bastante tempo, entrou no Guns seis anos após a formação da banda. Aliás, o time atual, que tem, além de Axl Rose, os guitarristas Richard Fortus, Ron Bumblefoot Thal e DJ Ashba; os tecladistas Dizzy Reed e Chris Pitman; e o baterista Frank Ferrer, mostrou-se coeso e muito bom de palco.

Recife não deixará apenas más recordações (como o assalto à esposa do guitarrista Richard Fortus) para o Guns. Eles levarão daqui a lembrança de um público que lotou o Chevrolet Hall e que cantou em uníssono boa parte das músicas do grupo. Sem falar da paciência de monge budista que foi exigida dos fãs.
O Guns n’ Roses atrasou o seu show em exatas 1 hora e 57 minutos. Tempo em que muita gente vaiou e xingou Axl de todas as formas possíveis e imagináveis. Quando a coisa já beirava o limite do insuportável (você perde a paciência até com os Beatles diante deste tempo de espera) eles surgiram e quase colocaram o Chevrolet Hall abaixo.

Antes disso, bem mais cedo, começaria aquilo que quase foi uma comédia de erros. Às 21h em ponto, todas as luzes do palco se apagaram, e muita gente gritou e sacou seus celulares achando que era o Guns n’ Roses. De repente entra em cena uma banda que ninguém (a não ser a imprensa) sabia quem era, e começa a tocar sem ser anunciada e sem os integrantes dela se darem ao trabalho de se apresentar. Só depois de três músicas é que o vocalista, muito timidamente, disse que eram a banda Vatz, de Fortaleza. E foram 11 músicas que duraram 56 intermináveis minutos, cuja única parte que realmente empolgou o público foi o cover (claro) de “Seven Nation Army”, do White Stripes. Quando anunciaram que tocariam a última, o público levou as mãos aos céus em um gesto que queria dizer (e muita gente até verbalizou) um grande e típico “graças a Deus”.

E aí começou a longa espera. Tempo para dar um geral no perfil do público. Boa parte era formado pela minha geração, que pegou o auge da carreira do GNR. Mas impressionou bastante o fato de ter muita gente presente que sequer havia nascido quando a banda esteve no Brasil pela primeira vez. Era um verdadeiro festival de clones femininos de Axl Rose, com direito a lencinho na cabeça e tudo. E, cá pra nós, era bem bonitinho e engraçado de ver. Um fato curioso é que boa parcela do público parecia desconhecer completamente algumas músicas do set list, num total de 34 canções tocadas, incluindo aí os solos individuais de cada membro do grupo e as intermináveis jam sessions. E o show, que teve momentos de catarse, pecou por ameaçar, ameaçar e jamais engatar a quinta marcha. Quando parecia que chegaria ao clímax, era interrompido de forma desanimadora, seja nos longos solos ou nas chatíssimas músicas de “Chinese Democracy”, talvez o disco mais equivocado da história do rock. Bem, vamos por partes.

Após quase duas horas de espera, entra em cena um Guns n’ Roses produzido para dar espetáculo, com palco que contava com três telões e pirotecnia (explosões como as que o Kiss usa em seus shows) que soou mais patético do que eficaz.  Abriram o show com “Chinese Democracy”, surpreendentemente cantada pelo público, e emendaram com “Wellcome to the jungle”, o primeiro (de muitos) momento catártico da noite. A banda é, de fato, bastante competente. E chega a emocionar ver Duff em cena. Ele e Axl definitivamente deixaram de lado todas as rusgas do passado. Na sequência veio “It’ so easy”, em que Axl anunciou o baixista como “um cara novo do grupo”. Para meu espanto, “Estarnged” também foi recebida com fervor. Na hora de “Rocket Queen”, um dos melhores momentos da noite, uma menina (as feministas que me perdoem) subiu nas costas do namorado e pagou peitinho para geral e arquibancada, imagem que, enquanto escrevo, já deve estar bombando nas redes sociais da vida.

Mas a partir daí o show começou a mostrar problemas, o maior deles sendo a falta de “sequências de tirar o folêgo”. A cada bloco de cinco ou seis músicas, Axl, malandro velho, dava um jeito de descansar um pouco. Seja nas duas músicas cantadas ( com justiça) por Duff (“Attittude e Raw Power”) ou nos longos, desnecessários e desinteressantes solos dos músicos. Foram vários, como você pode conferir no set list abaixo.

Curioso foi o resgate de “Nice Boys”, da primeiríssima fase da banda, e que pareceu desconhecida de 90% do público. Outra grande música, “My Michelle”, passou quase que batida por boa parte dos presentes.
Não dá para negar que Axl está envelhecido e um tanto fora de forma. Mas é inegável sua entrega no palco. Ainda tem, mesmo que de forma discreta, a dança da lagartixa, o microfone sendo usado “em forma de bastão indígena para afugentar os maus espíritos” e a voz de “mulher louca que foi possuída pelo capeta”, embora esta falhe vez ou outra. Também é meio chato ver Axl no piano tentando (ainda) desesperadamente soar como Elton John, mas faz parte de todo jogo de cena.

Em alguns momentos isolados do show, a sensação que se tinha era a de estar testemunhando a melhor apresentação já realizada por qualquer artista no Recife. Em outras, a realidade voltava, cruel, e nos dizia com todas as letras que estávamos vendo um artista que há muito deixou de ser relevante e que vive de reconfigurar a si próprio. Ou, como diriam os mais radicais, de um grupo que virou cover de si mesmo.

Mas, em compensação, quando vieram “You could be mine” e “Sweet Child O’ Mine” (aquela que Pedro Bial cretinamente chamou de “canção de ninar metaleiro” na cobertura do Rock n’ Rio 2), era como se uma máquina do tempo nos levasse de volta ao final dos 80 e início dos 90. Coisa que só grandes músicas são capazes de fazer. E isso, justiça seja feita, o Guns n’ Roses tem de sobra.

No fim das contas, entre altos e baixos, erros e acertos, ingressos e bebidas absurdamente caros, som que por vezes não foi lá essas coisas, ainda é preferível vê-los ao vivo do que em DVD no conforto do lar.

Só que na próxima vez, veja se não atrasa tanto, Axl. Ainda que você não concorde com isso, Paul McCartney, que é muito mais importante do que o senhor, trata o público com muito mais respeito e pontualidade. E, ainda que o senhor cante “Live and Let Die”, você não é, definitivamente, o Paul MCcartney, mas apenas Axl Rose. Contente-se com isso que já está de bom tamanho.

Setlist do show de Recife:

1 Chinese Democracy
2 Welcome to the Jungle
3 It’s So Easy
4 Mr. Brownstone
5 Estranged
6 Nice Boys
7 Rocket Queen
8 Attitude
9 Raw Power
10 My Michelle
11 Better
12 Solo de guitarra de Richard Fortus
13 Live and Let Die
14 This is Love
15 Solo de piano de Dizzy Reed
16 Catcher in teh Rye
17 You Could Be Mine
18 Solo de guitarra de DJ Ashba
19 Sweet Child O’ Mine
20 Solo de piano de Axl Rose/ Jam instrumental
21 November Rain
22 Abnormal
23 Don’t Cry
24 Usede to Love Her
25 Civil War
26 Schacler’s Revenge
27 Knoning’ On Heaven’s Door
28 Jam instrumental
29 Nightrain

Bis:
30 Jam instrumental
31 Patience
32 The Seeker
33 Jam instrumental
34 Paradise City

Posted quarta-feira, abril 16th, 2014 under Notícias.

6 comments

  1. Muito boa a cobertura, Hugo, parabéns!

  2. Cara, OBRIGADA por uma crítica que corresponde ao que eu vi. Já tava me sentindo a excluída do mundo e vc me salvou. O show foi muito bom, mas quando vejo gente se derretendo em elogios sem nenhuma crítica eu me pergunto se eu estou errada. A música que eu mais esperei que foi November Rain, teve um solo tão meia boca que deu vontade dr chorar na hora de RAIVA. E aqueles solos super chatos? Pow foi bom demais, mas não foi perfeito.

    Ps: Concordo com você quanto ao Paul. O show dele sim foi perfeito e acho que prestei mais atenção no guitarrista do nele próprio.

    Muito bom seu post!!!

  3. Hugo Montarroyos says:

    Bruno, obrigado!

    Lorena, valeu mesmo! Normalmente fãs não têm uma visão muito critica da obra do artista. Fico feliz que tenha gostado do texto!

  4. Jaime Filho says:

    Muito bom seu comentário Hugo. Realmente foi um panorama completo do show que esperei a vida toda para ir. Agora, pausa para reflexão: Imagine um show de Gun’s aqui em Recife sem as músicas de Chinese Democracy e sem os solos excessivos? Sonhar não custa nada, principalmente pra quem achou que para ir para um show desse porte teria que ir pro Rock’n Rio.
    Abraço!

  5. Hugo Montarroyos says:

    Grande Jaime! Valeu mesmo! Eu também queria muito ter visto o Guns no auge. Ainda gosto e ouço muito o primeiro disco deles.

    Abraço!

  6. ja tem a foto dos peitinhos da namoradinha? :P