Cobertura – Abril pro Rock 2015 – Primeira noite

por Hugo Montarroyos

O relógio marcava 21h50 quando a banda de Paulo Diniz resolveu passar o som para a sorte dos poucos presentes no Baile Perfumado, cujos portões só seriam abertos às 22h. De aparência frágil, sentado numa cadeira de rodas e empunhando um violão que mais servia de enfeite, Paulo Diniz era a felicidade em estado puro enquanto o grupo mandava ver “Quero voltar para a Bahia”. Sua voz, frágil e desentoada, decretava: “vou cantar do mesmo jeito que cantei no disco”. Infelizmente (ou felizmente) não foi assim, apesar de Diniz ser responsável pelos momentos de maior emoção da noite. Ver sua passagem de som era um privilégio que aos poucos ia sendo testemunhada por mais gente, uma vez que o público começava a entrar no local e a imediatamente sacar seus celulares para registrar o momento. Pois é, em pleno Abril pro Rock, Paulo Diniz, um dos donos do cancioneiro popular dos anos 1970, provava que tinha público disposto a vê-lo. Uma gente que variava entre jovens e contemporâneos de Paulo Diniz.

Bonito de ver, ainda que Paulo esteja longe da boa forma. Mas cada desafinada, cada atravessada, cada parte de letra que seria deixada de ser cantada por ele em seu show serviriam de deixa para a plateia assumir o lugar dele e cantar em uníssono todas as canções apresentadas pelo mestre, como veremos adiante.

A corajosa ideia de fazer uma noite dedicada somente aos pernambucanos, focada em nomes que despontaram nos 70 como Diniz, Flaviola e Ave Sangria, aliada aos contemporâneos Caapora, Almério e Aninha Martins teve seus altos e baixos. O público, formado por cerca de mil pessoas em local cuja lotação é de três mil e quinhentas, pode até ser considerado bom pela proposta do dia, mas teve um desafio e tanto a encarar: o palco dois. Improvisado do lado esquerdo (da visão do público) do palco principal, era muito baixo, quase no chão, o que impossibilitava a visão dele para quem não estava nas primeiras filas. Fora isso, não houve falhas técnicas graves, e os shows variaram entre o sublime (Diniz e Ave Sangria) e o tedioso, caso de Flaviola. Outra coisa que atrapalhou bastante foi o atraso. O primeiro show começou com quase meia hora a mais do horário previsto, e a catarse provocada por Paulo Diniz – que teve show esticado – fez com que o Ave Sangria encerrasse sua apresentação com o relógio já ultrapassando a marca das três da matina.

A interessante Caapora mostrou uma proposta ousada, de uma riqueza musical inegável e que bebia de várias fontes diferentes, dos pífanos ao rock ora progressivo, ora cru. Nos momentos mais saborosos, parecia um cruzamento de Hermeto Pascoal com Led Zeppelin. Por vezes, pareciam descontruir acordes, técnica difundida mundo afora por Hermeto. Soava regional e globalizado ao mesmo tempo, conduzido por excelentes músicos e (surpresa!) levando ao Abril pro Rock um pequeno público que era literalmente deles. Bela apresentação.

Assim que o Caapora encerrou o show e Paulo Diniz foi anunciado, houve uma pequena correria para a frente do palco principal e flashes de celular começaram a espocar na cara de Paulo Diniz, cujo primeiro show no Abril pro Rock havia acontecido há 15 anos para um público minguado que incluía este que vos tecla. A volta foi triunfante. Mesmo que seu violão só servisse de enfeite (ele não tocou sequer uma nota nele), ainda que estivesse doente e em uma cadeira de rodas, mesmo com sua voz falhando e sem conseguir acompanhar todas as partes de todos os seus hits (impressionante a quantidade de sucessos de seu repertório), o show foi emocionante, levado muitas vezes pelo próprio público, que cantava “Quero voltar para a Bahia”, “Um chope pra Distrair” e “Pingos de Amor”. Feliz, Diniz dizia: “Estou muito feliz de AINDA estar aqui com vocês no Abril pro Rock”. E seguia: “Eu estou com quase cem anos (na verdade tem 75) e tudo começa a cair nessa idade. Cai a perna, cai o braço, cai a rola, cai tudo! Mas continuo feliz de poder cantar pra vocês”. O show teve o maior clima de improviso de mesa de bar, e esse foi o seu grande charme.

A única canção que apresentou que não é de sua lavra foi “Na rua, na chuva, na fazenda”, de Hyldon, música tão poderosa que nem o Kid Abelha conseguiu estragar. E tome “Capim na lagoa”, “O meu amor chorou” e “Ponha um Arco-Íris na Sua moringa”, fechando com o bis de “Quero voltar pra Bahia”. Contra todos os fatores possíveis, deu muito certo. A impressão de quem assistia era a de testemunhar uma parte da história sendo escrita diante de seus olhos. Pena que pareça estar bem perto do fim. Mas foi de arrepiar ver todos pedindo mais Paulo Diniz e o aplaudindo do jeito que o pernambucano de Pesqueira merece. Alguém que, sem dúvida, deveria ter o reconhecimento proporcional ao tamanho e importância de sua obra, que, muitas vezes, é maior do que a própria vida. Saúde, Paulo!

Anunciado como “a revelação de Caruaru”, o competente Almério mostrou segurança e desenvoltura em um repertório centrado em músicas de temáticas regionais e ancorado por uma banda extremamente segura. Performático, foi prejudicado pela altura do palco, e poucos puderam ver de verdade um show que também encanta pelo aspecto visual, com valorização de figurino e passos de dança que pareciam, para Almério, tão fundamentais quanto sua música.

Flaviola merece todo o respeito do mundo. Seu álbum “Flaviola e O Bando do Sol” tem status de cult, ele é sempre mencionado como referência dos músicos mais jovens, mas seu show foi chato e tedioso. Muita psicodelia para quem parecia mais disposto a ouvir o rock direto do Ave Sangria. Algumas frases de Flaviola denunciavam o estado das coisas: “Eu não sabia que tinha público aqui”. E parecia não ter mesmo. “Vocês desculpem qualquer coisa. Foram 19 anos que tiveram três dias para ser ensaiados”. Apesar do belo reforço de Zé da Flauta, Juliano Holanda (baixo) e Juvenil Silva (guitarra) o show teve clima arrastado. Se tecnicamente não houve falhas, era nítida a falta de “cancha” de Flaviola. Foi, disparado, o pior show da noite. Uma pena, mas nem todas as histórias têm um final feliz como a de Paulo Diniz.

A local Aninha Martins, considerada uma das maiores vozes pernambucanas de sua geração, não escondia o entusiasmo de ser escalada para o Abril pro Rock. Ainda que sua voz falhasse vez ou outra (a cantora se apresentou mais cedo em um outro show), ela segurou a peteca e fez uma bela homenagem a Lula Cortes cantando “Canção da Chegada”.

E, enfim, veio o Ave Sangria, banda responsável por tudo que aconteceu em termos de rock na história de Pernambuco (e talvez do Nordeste). Mais afiados por conta dos vários shows que vêm fazendo, os músicos foram de uma desenvoltura e entrosamento fenomenais. Ainda que desfalcados do guitarrista Ivinho, que se recupera de um problema de saúde, o Ave Sangria esbanjou talento, presença de palco, musicalidade e (palavrinha manjada essa) irreverência. O vocalista Marco Polo fez piada. “Eu liguei para Jimmy Page para perguntar se ele poderia substituir Ivinho, e ele disse que não era capaz e sugeriu Paulo Rafael. Então fomos de Paulo Rafael”. Destacar um só momento do Ave Sangria é complicado, pois é o todo que faz sentido. Seja nas partes mais sofisticadas, nos rocks mais diretos ou no sambinha “cafajeste besteirol” de “Seu Valdir”, o Ave Sangria parece que finalmente começou a levar sua volta a sério. Renovados com a presença de Juliano Holanda no baixo, o final apoteótico com “Geórgia” teve pedido de bis, mesmo com o público já pra lá de cansado. O Ave Sangria, assim como Paulo Diniz, deveria ser tombado como patrimônio vivo da música brasileira. Ave!

Posted domingo, abril 19th, 2015 under Notícias.

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