Cobertura – Abril pro Rock 2015 – Segunda noite

por Hugo Montarroyos

Foi uma espécie de celebração autorreferente a segunda noite (a primeira no Chevrolet Hall) do Abril pro Rock 2015. As três principais atrações são figuras que dialogam há tempos com o festival. O Pato Fu, cuja estreia foi em 1997, cravava a sua quinta participação. Pitty, que tocou em 2003 e 2004, voltava após um intervalo de 11 anos. E o cultuado dEUS (não resisti), que veio em 1996, repetia a dose agora. Uma pena que o público não tenha comparecido em peso, e a sensação que ficou foi a de que menos da metade da plateia ocupou as dependências do Chevrolet Hall.

As certezas: o Pato Fu, com 23 anos de carreira, continua fazendo shows irretocáveis, agora amparados em um repertório mais pesado que permeia o novo disco, “Não para pra pensar”. Pitty é, de fato, idolatrada aqui. E foi surpreendente ver a maturidade de uma promessa que já se configura em realidade chamada Far From Alaska, um dos melhores shows da noite. De decepcionante mesmo, só o endeusado Boogarins, que fez uma apresentação bem chata.

Partindo do princípio: era de assustar a fila de fãs de Pitty esperando para entrar mesmo antes dos portões serem abertos. É uma idolatria juvenil que parece não ter muitos limites, cujos fãs seguem à risca tudo o que Pitty diz em suas letras. Parecia que a noite seria só dela. Não foi o caso. Mas, quem de fato levantou a plateia foi a cantora baiana..

O primeiro show da noite atrasou cerca de 40 minutos. Depois disso, todos os shows começaram emendados no outro, em dois palcos iguais, sem deixar tempo para o público respirar, numa dinâmica que deve ser seguida por todos os festivais. A lamentar somente as falhas técnicas no ótimo show da banda belga dEUS, que acabou prejudicando um pouco a apresentação deles. No mais, um primor de tecnologia, luz e cenografia nos shows de Pato Fu e de Pitty. O som estava alto demais, mas talvez seja a idade chegando para este que vos tecla.

A noite foi aberta pelos pernambucanos do Kalouv, que faz um belo post-rock (música instrumental, para quem não é da área) com formação clássica de duas guitarras, baixo, teclado e bateria. Tocaram para um público pequeno, mas era visível que alguns ali conheciam a banda. O grupo tocou boa parte do repertório do seu segundo disco, “Pluvero”, que rendia ótimos momentos nas partes mais densas e pesadas, levando o público a uma dimensão psicodélica e caótica sem nunca perder de vista uma sonoridade até de certa forma acessível para os padrões do gênero. Belo show.

Outro show que rendeu bons momentos foi o dos americanos The Shivas. Trio de Portland, a banda tem uma pegada bem surf music, com levadas pop e um rock que pega o ouvinte de jeito. Por vezes soava tão descaradamente pop e indie (no bom sentido) que deu a sensação de ser o grupo mais “Coquetel Molotov” já escalado em uma edição do Abril pro Rock. Destaque para as harmonias (muitas vezes desarmoniosas) vocais do guitarrista e da baterista. Se pintarem por aqui de novo, não perca.

Ok, os goianos do Boogarins são considerados um dos nomes mais relevantes e respeitados da nova safra da música independente brasileira, seus shows são elogiadíssimos pela crítica, mas o que vi e ouvi foi chato e pretensioso. O tipo de música feita para músico e com diálogo e interação zero com o público. Não sei se influenciou o fato de eles tocaram logo após uma atração tão dançante e ensolarada como o The Shivas, mas foi maçante vê-los em ação, e um verdadeiro alívio quando terminaram de tocar.

Às vezes a vida nos reserva algumas surpresas. E foi fantástico constatar que, assim que entrou em cena, o potiguar Far From Alaska colocou todos os que vieram antes no bolso. Com uma proposta interessantíssima que mistura rock ganchudo com música industrial com country com eletrônica com vocais robóticos (ufa!), o Far From Alaska (surpresa!) levou o público ao delírio. E dava para perceber que muita gente conhecia cada uma das canções apresentadas pelo grupo. Não é à toa que vêm chamando tanta atenção. Há tempos não me empolgava tanto com uma banda nova. Não consegui disfarçar um sorriso de orgulho por constatar que uma banda de Natal estava fazendo o melhor show da noite até então. Com duas vocalistas carismáticas, sendo uma delas também dedicada às programações e aquela velha manha de usar uma guitarra tal qual um teclado (técnica muito usada por blueseiros) e uma bela cozinha de guitarra, baixo e bateria, eles devem ter passado boa parte da vida ouvindo Nine Inch Nails. Só que desenvolveram uma sonoridade absolutamente particular, com identidade e carimbos próprios. Sei que é chavão, mas vamos lá: apareceu a próxima grande banda brasileira. Tomara que se confirme como tal.

Os belgas do dEUS têm uma sonoridade bem peculiar Fazem um som oitentista sem soar datado. Ora surge sombrio, meio dark. Ora mais palatável e até pop. E, nos melhores momentos, um cruzamento sensacional e fenomenal de uma explosão conjunta de instrumentos martelando o ouvinte sem piedade, numa combustão que sai da alma dos músicos direto para o público. Dá para entrar no clima, fechar os olhos e se imaginar em outra atmosfera. Infelizmente, tiveram problemas técnicos que atrapalharam bastante sua apresentação, que acabou muito quebrada e com gosto amargo de clímax cortado. Mas quando a coisa funcionava, era pop do mais alto quilate. Coisa fina, de banda com décadas de traquejo e de estrada. Assim na terra como no céu – não resisti de novo.

E veio o Pato Fu com o jogo ganho, embora com muita vontade de mostrar que merecia sair de lá vitorioso. Com 23 anos de carreira e uma coleção de hits distribuídos em sete álbuns, a banda acabou mostrando uma faceta mais pesada, que permeia o novo álbum do grupo, “Não Pare Pra Pensar”. O cenário e as projeções foram um show à parte, e é sempre comovente vê-los tocar “Eu”, do grande Frank Jorge e seu injustiçado Graforréia Xilarmônica. Tecnicamente impecável. Com uma pegada forte que deixou a sonoridade do Pato Fu ainda mais interessante, os mineiros fizeram o melhor – não o mais concorrido – show da noite. A versão esperta de “Ando Meio Desligado”, dos Mutantes, fez a casa inteira cantar a letra de Arnaldo Baptista. Bonito de ver. E fecharam com “Sobre o Tempo”, canção que parece resumir a própria trajetória da banda e o primeiro sucesso da carreira deles.

Passei a respeitar Pitty quando soube que “Me Adora” (aquela do “me acha foda”) não é uma música de amor “estilo dor de corno”, e sim um recado para a crítica especializada. Achei a ideia sensacional. Mas não é para mim. É difícil se identificar com as letras dela quando você é adulto e não uma menina de vinte e poucos anos – ou menos do que isso até. Ainda assim, é preciso dar o braço a torcer: ela tem uma legião de fãs fiéis. Seu novo show também é muito bem produzido, com um holograma do rosto da cantora aparecendo num telão no início, em formato “tron”, recitando poesias sobre o algarismo sete. Foi Pitty entrar no palco para o público literalmente ir ao delírio. A única atração da noite a mexer de tal forma com a plateia. Uma espécie de (perdoem a heresia) Ivete Sangalo do rock. Repito: não é para mim. Mas se Pitty serve como porta de entrada para seu público conhecer outras sonoridades, já está valendo. Sua banda é boa e ela está em uma fase madura da carreira. Mas uma maturidade ainda muito juvenil, infantilizada. Um dia essa garotada vai crescer e terá vergonha de ter sido tão fã assim dela. Normal. É da vida. Se é preciso passar por Pitty para chegar em dEUS, que assim seja.

Posted sábado, abril 25th, 2015 under Notícias.

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