Comadre Fulozinha – “Tocar Na Banda”

Por Recife Rock! em 27 de outubro de 2004

Comadre Fulozinha - Tocar na Banda (2003) YBrasil
“Tocar na banda / Pra ganhar o quê? / Duas mariolas e um cigarro Iolanda”
em 27/10/2004 por Ricardo Valença Monteiro

Três mudanças importantes ocorreram entre o primeiro e o segundo disco deste grupo formado em 1997. Para começar, o nome: Florzinha transformou-se em Fulozinha. A seguir, a formação: de sexteto, reduziu-se à dupla de cantoras percussionistas Karina Buhr e Isaar de França. Por fim, o repertório. Em Comadre Florzinha (1999), predominavam músicas de domínio público, enquanto neste Tocar Na Banda, investe-se principalmente em material original. Contudo, o som em si não se alterou. Permanece naïve e fincado nos ritmos populares do Nordeste.

Das quatorze faixas, entre vocais e instrumentais, Karina Buhr assina seis e Isaar de França, duas. Há ainda “Obá”, de Erasto Vasconcelos (Eddie); “É Ou Não É”, da dupla Venâncio e Corumba e a excepcional versão de um clássico do paulistano Adoniran Barbosa, que termina por dar título ao disco. Essa faixa, sem dúvida a melhor do trabalho, é interpretada pelas comadres com deliciosa ironia: “Tocar na banda / Pra ganhar o quê? / Duas mariolas e um cigarro Iolanda”.

Competentes tanto na percussão quanto na voz, Karina e Isaar são diametralmente opostas. Por isso complementam-se, tanto no plano visual – sim, o visual é importante – quanto no musical. De outra forma, o resultado poderia até ficar maçante, especialmente para quem não é chegado à música de raiz. Isaar tem voz crua, de gueto, aguda e potente mas algo insegura; Karina é suave e treinada, preferindo os registros médios. As diferenças entre elas são especialmente notáveis em “Amaralina” e “A Cidade Tá Subindo”, solos de Karina e Isaar, respectivamente.

O problema – não para nós mas para elas – é justamente o alcance limitado do Comadre Fulozinha. O grupo é uma idéia heróica, principalmente quando se resume à uma dupla. Não há como escapar do fato de que a música delas, com um molde extremamente rígido, só atinge a um público muito pequeno e não há o que se possa fazer em relação a isso. Se elas estiverem satisfeitas com duas mariolas e um cigarro Iolanda, ótimo; mas não parece que elas tenham escolhido regravar essa pérola do Adoniran por acaso.

O talento das duas é inegável. Ainda por cima, ambas têm experiência com uma música mais, digamos, pop. Karina Buhr já foi integrante do Eddie; Isaar é a voz central do projeto Orchestra Santa Massa, de DJ Dolores. Então, por que todo esse purismo ariano, por que não ousar, olhar para a frente – que atrás já tem muita gente – colocar um pouco mais de harmonia no som, um pouquinho de eletrônica… deixar a coisa mais contemporânea? Por que não explorar também o visual, já que são duas mulheres bonitas? As possibilidades para elas são inúmeras e o grupo só teria a lucrar, se tentasse.

Resenha publicada no site Le Mangue – Março/2004

gentilmente cedida por Ricardo Valença Monteiro