Nação Zumbi – “Futura”

Por Hugo Montarroyos em 12 de outubro de 2005

Nação Zumb
Nação Zumbi amplia os olhares de sua música…
em 12/10/2005 por Hugo Montarroyos

O tempo e o espaço ficaram curtos para a Nação Zumbi. A julgar por este “Futura“, novo álbum da banda, não é exagero dizer que a Nação é, hoje, um grupo à frente da sua época e que não respeita os limites impostos pelas prateleiras das lojas de discos. Trata-se de um trabalho plural, moderno, impossível de ser rotulado nos pobres parâmetros da indústria cultural. É brasileiro e universal, pós-moderno e vanguardista. Flerta com a música regional, aposta em experimentos e texturas eletrônicas, coloca os tambores de maracatu em segundo plano e ousa traçar novos vôos. Impressionante a capacidade que eles têm de evoluir, mesmo quando já achávamos que a banda tinha atingido o ápice de seu potencial criativo.

Hoje, Amanhã e Depois” abre o disco nos dando a falsa pista de que o novo álbum virá recheado de influências orientais. A guitarra de Lúcio Maia parece saída diretamente da Índia, ao mesmo tempo em que brinca de surf music. Já “Memorando” redireciona Jorge Ben ao novo milênio, numa espécie de samba levado por batida de baião em arranjo futurista. Pois aí está uma boa síntese para “Futura”: iconoclasta e cosmopolita, dialogando com todos os sons, de todas as épocas. Outro aspecto a ser levado em conta é o esmero e cuidado com as letras. “A Ilha“, uma das canções mais climáticas do disco, traz o verso esperto “A carne é fraca e o corpo é uma ilha à espera do Sol”. “Respirando” é o que mais se aproxima ao que a Nação Zumbi fez em seu passado recente. O resto mostra claramente um grupo que já traçou uma identidade bem definida e que parece estar cada vez mais preocupado em explorar novos horizontes, novas sonoridades, novas texturas. “Expresso da Elétrica Avenida“, por exemplo, consegue ser surf music, eletrônica e soturna ao mesmo tempo. Um berimbau psicodélico anuncia a chegada de “Nebulosa“, climática desde o título, apocalíptica em sua construção, destruidora em seu desfecho. O que de mais onírico a Nação já produziu em sua carreira. Instrumental, a faixa, por si só, define bem a nova proposta da Nação Zumbi: ser cada vez mais universal e moderno, ainda que a pedra fundamental permaneça sendo o regional. Não à toa, vale salientar novamente, é um berimbau que abre a canção.

Sem Preço” traz um belo naipe de metais absolutamente chapado, daqueles que emanam puro jazz de bêbado. Jorge Ben dá as caras de novo em “Pode Acreditar“, samba travestido em arranjo funk a la George Clinton. “Futura“, apesar do título, é a mais “conservadora” do álbum. Sedutoramente calma, a Nação reafirma em tal música que aposta no futuro, mas que ainda sabe trabalhar bem com elementos do passado.

Cada vez mais distante dos tempos e da sombra de Chico Science, a Nação construiu um álbum que deve ter deixado Francisco de Assis França com um sorriso estampado no rosto e com um orgulho do tamanho do mundo, seja lá em que mundo o malungo estiver.

Nação Zumbi