Zé Cafofinho e Suas Correntes – Um Pé na Meia, Outro de Fora (2006/Independente)
A música pernembucana, nas últimas duas décadas, vem se especializando na fina (?) arte de universalizar o regional. Ou de regionalizar o universal, fica ao gosto do freguês. Assim sendo, temos a Zona da Mata como ponto de partida, e seu poder de alcance parece ilimitado.
Pois há tempos que, neste sentido, não aparecia um trabalho tão coerente como o de Zé Cafofinho. Em treze faixas, ele adiciona jazz ao samba de terreiro, pitadas de música árabe às rabecas, cordas regionais de ótimo gosto e um resultado final que, ao invés de causar estranheza, fascina. E fascina justamente pela naturalidade da coisa. Nada parece forçado. Tudo acaba combinando bem, coisa difícil de se atingir quando os ritmos nordestinos dialogam com a (pós) modernidade.
Os metais acabam sendo um dos grandes responsáveis por isso, dando um acabamento cool ao som de Zé Cafofinho.
Impossível destacar uma só faixa, pois temos aqui a sensação de se tratar de uma obra fechada, ou seja, o todo faz mais sentido do que as partes separadas.
Artista costuma ficar puto da vida com tal definição, mas não é um disco para qualquer ouvido, e não pega na primeira audição. É intelectualizado, mesmo tentando desesperadamente soar popular. Mas aqui isso também vira qualidade, e não defeito. As letras também ajudam a denunciar um tratamento acadêmico, poético, caso de “Cabotagem”.
No fim das contas, Um Pé na Meia, Outro de Fora só não é perfeito por um velho e conhecido motivo aqui em Pernambuco: a voz de Zé Cafofinho não é das melhores, e por vezes sua desafinação chega a incomodar. Mas talvez a intenção seja incomodar mesmo.
Escute: Zé Cafofinho e Suas Correntes – Campo Grande
[audio:http://media.trama.com.br/tramavirtual/mp3/m_28/141440.mp3]
Escute: Zé Cafofinho e Suas Correntes – Conceição
[audio:http://media.trama.com.br/tramavirtual/mp3/m_29/146304.mp3]
ou você baixar o cd completo no EstudioLivre.org
2 Comments
Hugo:
Ótimas as suas impressões sobre Cafofinho. Como convém a um crítico do seu nível. O problema é que as minhas impressões sobre o conteúdo do seu texto ficam um pouco comprometidas: sou pai de cafofinho, pai coruja.
Acompanho a trajetória dele desde menino, quando o levava para o Conservatório. Adoro um poema e uma canção que ele fez quando tinha quinze anos e que está no CD da Songo – Palmeiras Imperiais.
Anos depois ele ajunta uma galera incrível e dirige e produz minhas coisinhas, em Versos Vialejos e Quebranguladas. Ainda gravou meu VIALEJO no CD Variant e toca e dirige minhas poucas apresentações. É que divido a minha vida entre, a academia -dando aulas e escrevendo livros centrados na teoria social crítica e a música.
Um abraço, gaspar
Palmeiras Imperiais é uma música linda mesmo.
Cachaça tb. (Mas é uma regravação)
E tem outra lá q fala do papa.
Esse disco da Songo citado por Gaspar, já antecipava muito das coisas que o Academia da Berlinda faz hoje.
Entre outros grupos…
Acho q dá pra encontrar ele no blog sombarato.
Abraços