Cobertura: Festival Mundo – segundo dia

Por Hugo Montarroyos em 20 de outubro de 2008

Impressionante o apelo que o Cabruêra tem em sua terra natal. A aposta da produção do Festival Mundo em colocá-los como headlinners acertou em cheio o alvo. O público era todo deles. O Galpão 14 ficou lotado, assim como o Centro Histórico de João Pessoa. Em uma praça bem perto do local onde acontecia o festival, um show de pagode animava uma multidão. E, para provar o ecletismo da noite paraibana, no mesmo hotel em que ficamos hospedados estavam a produção e toda a equipe de uma tal Garota Safada, banda de Recife cujo enorme ônibus com a logo do grupo chamava a atenção de qualquer mortal. Este evento, infelizmente, acabei perdendo…

As bandas de abertura acabaram sendo prestigiadas por parcela do público do Cabruêra. As locais Cerva Grátis, Elmo e Nublado fizeram boas apresentações, com destaque para a última. O cearense Garfo mostrou uma sonoridade bastante peculiar, um bêbado roubou a cena do ótimo show do Sweet Fanny Adams, todo mundo se espremeu para conferir o Burro Morto e o dono da noite foi mesmo o Cabruêra. Por partes…

Conheço duas alemãs que estão fazendo intercâmbio em João Pessoa. Dizem que viram o Cabruêra no ano passado na Alemanha e que viraram fã do grupo. Perguntam se eles fazem sucesso aqui no Brasil. Tento responder que “sucesso” é um termo complicado aqui no Brasil. Para não passar a noite inteira filosofando sobre o mercado independente brasileiro, limito-me a dizer que eles são provavelmente mais conhecidos na Europa do que no Brasil, e que seu público maior deve se concentrar em João Pessoa mesmo. Elas acompanham todos os shows com nítido interesse, embora pareçam não entender o porquê de tantas bandas com propostas tão distintas do Cabruêra estarem na programação. E no final ficou fácil descobrir como elas viraram fãs do grupo…

Coube a nova Cerva Grátis abrir os trabalhos da noite. Com uma caixa de isopor escrita “cerva grátis” na frente do palco, o grupo apresentou um rock sem frescuras, nu e cru, ainda um pouco verde, mas que com certeza deve melhorar se lapidado. O destaque acabou sendo o cover de “Bom é Quando faz Mal”, do Matanza.

Já o Elmo, outro bom grupo local, apresentou um hardcore que ganha seus momentos de ápice quando capricha na sujeira e no vocal gutural. Por vezes tentam soar mais pop, e a coisa desanda um pouco. Mas mostram maturidade quando resolvem investir no peso. Seu show teve uma dupla concorrência cruel: o da chuva, que caiu bem no meio da apresentação deles; e de vídeos de sexo explícito que divertiam os que preferiram ficar perto do bar. Sacanagem com os caras. Literalmente…

O Nublado pareceu, entre os novatos, o nome mais promissor da noite. Seu pecado maior: quase que a metade do show foi dedicada aos covers, seja de Radiohead, Franz Ferdinand e até uma excelente versão para “Malevolosidade”, do Superguidis, que acabou por demonstrar que, entre os vocalistas da banda, o baterista é de longe o melhor deles. No mais, o Nublado com certeza é uma banda que renderá bons frutos se for bem trabalhada.

O trio ceranse Garfo tem um leque de sonoridades extremamente volátil, embora siga a cartilha da música instrumental. Denso e ao mesmo pop, o som do grupo passeia com desenvoltura na dicotomia entre a brutalidade do peso e um certo jogo de cintura pop, oriundo do bom casamento entre guitarra um pouco mais suingada com baixo nervoso. Entre boas composições, como a nova “Al Pacino”, “Gim” e “Frank Eisntein“, o destque ficou para a excepcional “Médium”, que começa sossegada e explode aos poucos em esquizofrenia em forma de música. Ótima banda que tem tudo para trilhar um belo caminho no universo independente a até mesmo fora dele…

É chato dizer isso vindo de alguém do Recife, mas a verdade é que o nível subiu bastante com a apresentação do Sweet Fanny Adams. Há pouco mais de um ano escrevi que o grupo estava bem aquém de suas principais referências. Hoje a história mudou bastante. Maduros com a quantidade de shows que vêm fazendo Nordeste afora, o Sweet Fanny Adams passa um vigor e segurança dignos de bandas veteranas. Profissionalismo que se preocupa com os detalhes, como no enorme pano de fundo com o logo da banda estendido atrás do palco. Tocaram, uma a uma (e  cada uma melhor do que a outra), as quatro músicas do EP “Fanny, You’re No Fun”. Fizeram cover do Tv on The Radio, mencionado pelo baixista e vocalista Diego Araújo como melhor banda dos anos 00. E pareceu, de fato, a coisa mais natural do mundo. Ou seja, o que antes me parecia forçado (e não era) mostrou-se completamente autêntico. Autenticidade que só foi superada ao anunciarem a última música. Assim que o baterista Rafael Borges termina a contagem para começar a música, a banda pára. Ninguém no público entende direito. Diego diz que um bêbado atrás do palco atrapalhou o baterista. Pede palmas para o bebum. Ninguém entende bulhufas, e fica no ar a sensação de ser uma piada interna. Nova contagem de Rafael, e no momento em que a banda ensaiava começar “C’mon Gilr”, surge detrás do pano de fundo um cara que atropela baterista, parte da bateria e quase acerta a fotógrafa do grupo e um dos guitarristas, que até pensou em revidar, mas mudou de idéia após se dar conta do tamanho do sujeito. A façanha não foi das menores, uma vez que o pano de fundo é dos mais grossos, Rafael não é dos mais leves e a bateria idem…E o cara voou como uma bala. A polícia interveio, expulsou a figura do palco e a banda enfim pôde tocar a música sem mais atropelos. O porquê da invasão? Nem o invasor sabe…

O Burro Morto tem os dois pés cravados na pscicodelia. Fazem uma espécie de jazz riponga, com alguns elementos da primeira fase do Pink Floyd. É cabeçóide, porém acessível. Tanto que foi grande o número de pessoas que não desgrudou os olhos do palco. Tudo bem que havia uma espécie de orgulho paraibano diante de uma banda da casa, mas era completamente justificável, pois trata-se de um grupo original e talentoso que não brota da terra todo dia.

Havia visto dois shows do Cabruêra na vida. Ambos em edições passadas do Abril pro Rock. E os tinha em alta conta na memória. Mas no Mundo a coisa foi diferente. Tudo o que o Cabruêra apresentou parecia mangue recauchutado, plastificado, artificial e malfeito. Mas caiu nas graças do público. E das duas alemãs, óbvio. E ficou fácil saber o motivo: é música para inglês ver, no pior sentido da expressão. A memória, por vezes, é um bicho rancoroso e traiçoeiro. Que o diga a minha…

Saldo final: um festival novo feito por gente ainda mais nova disposta a cavar o que há de novo na cena local e nacional. Voltarei, De novo…

4 Comments

  1. Posted 22 de outubro de 2008 at 9h32 | Permalink

    Eu fui preparada pra assistir o show do garfo e n me decepcionei, era exatamente como eu imagina, muito bom…
    O show do sfa foi muito bom mesmo, e eu cheguei a filmar o cara que se jogou…o problema é que como ele quase caiu em cima de mim pensei q fosse uma briga e no susto desliguei a câmera, hahahaha….

  2. João do Ibura
    Posted 24 de outubro de 2008 at 10h16 | Permalink

    Esse evento deve ter sido excelente, pelos comentarios desse, site, agora estranho a Cabruera parecer maguebit recauchutado, pois todos os shows que assisti,demostraram uma influencia de pink floyd à cordel do fogo encantado, o que da originalidade ao grupo, espero que não tenha mudado.
    Qaunto ao Sweet Fanny Adams, assisti sexta passada ao show deles na praça do arsenal e considero como uma das melhores bandas locais no momento, essa tambem foi uma opinião de um jornalista paulista, que converçou comigo, que achou a apresentação no Abril pro Rock uma das melhores do dia.

  3. Pávula
    Posted 25 de outubro de 2008 at 23h46 | Permalink

    PS: O público da Cabruêra na capital paraibana é realmente considerável, porém não se concentra exclusivamente lá, existem públicos iguais e até maiores que prestigiam os shows da banda em todo o Estado.

  4. Pávula
    Posted 26 de outubro de 2008 at 17h22 | Permalink

    Olá,

    Seria bom que vc soubesse receber as críticas, pois é assim que um trabalho cresce.