Retrospectiva 15 anos do videoclipe pernambucano

Hoje (sábado), às 16h30, no Teatro Apolo (Rua do Apolo – Bairro do Recife) é a última chance de ver a “Retrospectiva 15 anos do videoclipe pernambucano“.

chico science e nação zumbi (divulgação)

release:
Mostra Caos, Noise e Clipes

Retrospectiva 15 anos do videoclipe pernambucano

A década de 90 virou pelo avesso a música pernambucana. De uma hora pra outra, não era mais tão jeca cantar em português. De uma hora pra outra, era aceitável usar alfaias e rabecas pra fazer música pop. A movimentação das bandas atingiu as grandes gravadoras, o Sudeste. Já são 15 anos do surgimento dos discos que mais marcaram esse  momento: Samba Esquema Noise, da Mundo Livre S/a e Da Lama Ao Caos, de Chico Science & Nação Zumbi. Esse fator comemorativo foi o mote inicial para a mostra Caos, Noise e Clipes. A mostra se estende desses anos iniciais (incluindo clipes demo) até os nossos dias.

Inegável: nesses 15 anos mudou a maneira de se fazer videoclipe e de se fazer música. Ainda assim, esse momento que vivemos é só a evolução natural daquele outro. As mudanças se dão mais por modas, por contexto histórico, por chegada de novas gerações, do que por uma proposta realmente nova. É bem diferente da geração manguebeat que precisou forjar um manifesto e abrir a duras penas um espaço que antes não existia na mídia e na atenção do público.

Fizemos em 2004 o documentário “Vamo Fazer Um Clipe?” (eu, Aroldo Araújo e Joli Campello, com apoio da Símio Filmes). A frase-título foi mencionada por Kleber Mendonça na entrevista, e resume bem a aura que havia em torno do clipe. Era como uma aventura, um passo pra dominar o mundo. A MTV brasileira tinha estreado tardiamente, em 1990. Diferente de hoje, quando se pode baixar a qualquer momento quase tudo, ou se pode assistir no Youtube, Vimeo, etc, era uma época em que você tinha de esperar seu clipe preferido passar na MTV ou em outro canal. Com um videocassete, você podia até gravar e assistir sempre, mas existia uma mediação muito forte: das gravadoras, da televisão, do rádio. Hoje, gravar e divulgar música são procedimentos cada vez mais domésticos. Fazer clipes também.

A diferença fundamental entre a cena recifense hoje e a cena de 10 ou 15 anos atrás: o assunto principal das músicas é cada vez mais o próprio umbigo de cada artista. A música se torna também cada vez mais segmentada, sem uma tendência central predominante. Enquanto as letras de Fred 04, Chico, Devotos e companheiros de cena pareciam representar uma coletividade e refletir uma visão de mundo mais abrangente e ambiciosa, que se estendia à representação visual, hoje a gente pega um clipe como o ótimo “Space Bolero”, feito por Sofia Egito para Asteróide B-612 e vê que foi tudo feito com recursos mínimos, na própria casa ou na casa de alguém da mesma classe social. Quando a gente vê uma banda pensando numa coletividade hoje, certamente é a coletividade de uma pista de dança, cantando em inglês pra universalizar logo (o que não é necessariamente ruim sempre), com raras exceções. A cidade do Recife é cada vez menos mencionada. Isso é bom, em parte, pois cantar a própria cidade e a cultura local tinha se tornado uma chatíssima obrigação por alguns anos.

Mas rever, por exemplo, o clipe da versão demo de “Maracatu de Tiro Certeiro”, feito por Paulo Caldas e Dolores e Morales para Chico Science & Nação Zumbi, é rever um momento

em que se usou com maestria as referências locais, de uma forma inédita, nova, interessante, muito pop, sem resvalar no óbvio.

Por não ter apoio de gravadoras (a gravação é anterior ao contrato com a Sony), é um clipe que poucas pessoas conhecem, mesmo aqui no Recife. Circulou pouco.

O ideal da Mostra é fazer um apanhado desses instantes criativos. E mesmo de alguns clipes mais feijão-com-arroz que se tornam interessantes por revelar uma outra época, um outro momento cultural. Com a expectativa de inspirar futuros realizadores de clipes.

Germano Rabello

Curador da Mostra Caos, Noise e Clipes

Programa

Chico Science & Nação Zumbi _ A cidade (versão demo)_dir: Nilton Pereira e Didier Bertrand (1992)

Mundo Livre S/A _ Musa da Ilha Grande _dir: Adelina Pontual  (1996)

Chico Science & Nação Zumbi _ Maracatu de Tiro Certeiro_ dir: Paulo Caldas, Hélder Aragão e Hilton Lacerda (1993)

Mundo Livre S/A _ A bola do jogo _ dir: Kleber Mendonça Filho (1995)

vídeo promocional com Nação Zumbi e Mundo Livre_ dir: Didier Bertrand (1993)

Eddie _ Buraco de bala _ dir: Nilton Pereira (1995)

Paulo Francis Vai Pro Céu _ Perdidos no Espaço _ dir: Taciana Oliveira (1998)

Re:combo _ Tá como o diabo gosta _ dir: Antônio Flávio (2003)

Cascabulho _ Vendedor de Amendoim _ dir: Lula Queiroga (1999)

Devotos _ O herói _ dir: Nilton Pereira (2001)

Iago e Jonathas _ Morcego Bandhers _ dir: Grilo (1999)

Textículos de Mary _ Propostata _ dir: Marcelo Pinheiro (2003)

Mombojó _ Deixe-se acreditar _ dir: Juliano Dornelles (2005)

Mombojó _ Cabidela _ dir: Raul Luna (2004)

Asteróide B-612 _ Space Bolero _ Dir: Sofia Egito (2006)

Grilowsky _ Traneblüt du bist schon_ Dir: Grilo, Fernando Peres, Lia Letícia, Ernesto Teodósio, etc. (2007)

Profiterolis _ Doce e Salgado _ dir: Tatiana Almeida (2007)

Programação completa da 2ª Janela Internacional de Cinema do Recife:
http://www.recife.pe.gov.br/noticias/arquivos/1379.rtf

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