Cobertura: Station Brésil na Torre Malakoff

Algumas coisas parecem fadadas à desordem desde a origem

Fernanda Takai no Station Brésil

Algumas coisas parecem fadadas à desordem desde a origem. Será que é preciso ser algum gênio para presumir que um show gratuito de Zeca Baleiro e Fernanda Takai na Torre Malakoff não é lá das melhores ideias? Porque me parece óbvio que em qualquer lugar que os dois tocarem no Recife a lotação será máxima. Ou seja, a combinação acabou sendo óbvia: muita gente para pouco espaço. Para piorar, não havia barraca vendendo bebida ou comida. E era proibido entrar no lugar carregando um copo de água que fosse. Resultado: muita gente entrando com latas de cerveja na bolsa, vendedor clandestino no lado de dentro e uma confusão infernal para sair e entrar novamente na Torre. Agora imagina só: os shows começaram às 19h. Zeca Baleiro só entrou no palo perto da meia-noite. Será que alguém aguenta passar cinco horas sem tomar água, cerveja, coca-cola, isotônico ou seja lá o que for? Resultado: tumulto para sair e entrar. Gente trocando as pulseirinhas. Quem não conseguiu a sua na hora marcada pela produção tentava reciclar a de quem ia embora para tentar driblar os seguranças na entrada.

Fora esses perrengues, até que o Station Brésil teve lá seus méritos. A ideia é juntar artistas brasileiros e franceses no mesmo palco. Além de Recife, o evento passa também por João Pessoa, Brasília e São Paulo. O tal do ano da França no Brasil. E a coisa desequilibra em nosso favor. Porque todos os artistas brasileiros são infinitamente melhores do que os franceses. A impressão que dá é que a França nos brinda com um time de segunda divisão, enquanto o Brasil exporta seu time principal, o que há de melhor em sua música. Porque o desnível chega a ser desconcertante.

Chegamos nas últimas duas músicas do show de Mariana Aydar. E, justiça seja feita, o som, como em todos os shows, estava muito bom. Mariana é uma das 345345345345 cantoras jovens que a indústria tenta a todo custo nos empurrar. O que existe de nova cantora no Brasil candidata ao posto de nova musa da MPB é uma festa. Mariana não é melhor nem pior do que todas as outras. É apenas mais uma. E, quando divide a noite com Fernanda Takai, simplesmente some de nossa memória.

Mariana dividiu seu show com Spleen. Aliás, dividir não é o termo certo. Cada dupla cantava uma música junta. E os franceses faziam um show de 40 minutos, enquanto que o dos brasileiros durava 20 minutos. Pois bem, Spleen já esteve aqui, no No ar: Coquetel Molotov de 2006. Ele tenta misturar blues e hip hop, mas tudo soa tão forçado, repetitivo e chato que seria mais vantajoso se ele escolhesse apenas uma dessas duas vertentes. Engraçado que ele tentou estabelecer relação com a plateia de todas as formas: rebolou, tirou a camisa, fez careta, arriscou um português qualquer nota. No momento mais hilário, interrompeu uma das músicas e começou a gritar “Brasil”. Todo mundo ficou calado. Depois, perguntou: “Bebel Gilberto?”. Novo silêncio constrangedor. “Tom Jobim?”. Nada…E, finalmente, “Kaká?”, e todo mundo estourou em sonoros aplausos. Cheguei a ficar com pena do cara. No mais, um show para ser esquecido.

Quem virou uma artista de primeiro time e dá mostra de crescer cada vez mais é Fernanda Takai. E o faz com tamanha simplicidade e naturalidade que desbanca qualquer candidata a nova cantora do Brasil. Parece não precisar de nenhum esforço para cativar a atenção alheia. Sua voz não é potente, mas é o suficiente para preencher cada centímetro de expectativa do público. E ela é tão pequenina que sua banda precisa tocar sentada para não ofuscar sua presença. E a moça sabe escolher repertório que se ajuste perfeitamente à sua voz, casos de “O Barquinho” (Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal) e “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos” (Roberto Carlos). Impressionante como o local, que já estava cheio, encheu ainda mais durante o show dela. Que, diga-se de passagem, foi bem curto. Ela logo foi encarregada de chamar a chatíssima Jeanne Cheart ao palco.

E Jeanne até entrou com pinta de quem faria um bom show, guitarra à mão mandando ver um rock climático, bem feito, na linha da primeira fase do Radiohead. Só que depois a moça passou para o teclado, de lá quase não saiu mais, e seu show foi ficando burocrático, insosso, cansativo. Depois de dez longas músicas (é, eu contei), Jeanne chama Fernanda Takai, que é aplaudidíssima pelo público. Meio sem graça, Takai explica que escolheu uma música de Jeanne para cantar, cuja quilométrica letra deveria estar no palco para ela ler. Não estava. E Fernanda precisou esperar que a francesa improvisasse qualquer coisa na guitarra até que a letra fosse providenciada. No final da música, o guitarrista brigou tanto com seus pedais, que haviam desligado, que acabou, sem querer, roubando a cena delas. Pulava, pisava, praguejava, se desesperava, e nada de sair qualquer som de sua guitarra. Só nos momentos finais conseguiu extrair algum efeito dela. Parecia cena de comédia pastelão.

E, quem diria, havia espaço para rock na noite. Coube ao francês Louis Bertignac, cujo grande feito no currículo foi ter produzido (e namorado) a cantora (e atual primeira-dama) Carla Bruni. Bertignac se apresentou em trio, e mostrou um rock vigoroso, de boa pegada, cantado em francês e em inglês. Até mesmo covers de Elvis Presley e Beatles não caíram mal em suas mãos.

É preciso registrar que nos esforçamos para ficar até o show de Zeca Baleiro. Mas passar cinco horas sem comer e beber é tarefa árdua. O jogo parecia ganho, pois o público ali era dele. Você que viu, por favor, poste o que achou nos comentários. Tratamos de voltar para casa, passando por mais de uma confusão entre pessoas que queriam entrar e sair da Torre Malakoff. Uma dica: da próxima vez façam o evento na Praça do Arsenal. Todos nós agradeceremos.

Posted quinta-feira, novembro 5th, 2009 under Coberturas, Destaques.

4 comments

  1. Olha, concordo com várias coisas do artigo. Achei o Spleen forçadissimo, principalmente sua presença de palco, apesar de que as músicas dele não eram tão ruins. A música da Mariana Ayda me soou bem aos ouvidos, gostei muito do cover de Los Hermanos, e ainda me deu uma cerveja quando eu pedi para ela. Simpática.
    Fernanda Takai foi com certeza uma das melhores da noite, nada a dizer…Agora o show daquela francesa, nem fiquei para ver, só bastou ver a participação dela com a Fernanda para me fazer desistir do show dela.
    Depois disso, na minha opinião, vieram os dois melhores shows da noite: Louis Bertignac e sua SG incendiante, até demais pra falar a verdade. Enfim, mesmo com solos um pouco prolongados e umas músicas que o público desconhecia, ele mandou muito bem. Tocou o clássico “Cendrillon” da ex-banda Telephone, uma das “maiores” em termo de rock francês.
    Finalmente, perto das 00h entra Zeca Baleiro. Toca duas músicas dos Beatles com o Bertignac que depois o deixa só no palco. Baleiro foi perseguido pelos problemas técnicos de seus violões eletricos, mas no fim o show aconteceu e foi o que esperavamos, foda. Pena que o show durou apenas 30min.

  2. O pior de tudo foi ter cambista num evento gratuito !!!!
    tinha uns tiozinho com cara de levou a familia toda pra pegar ingresso e vender la na frente…
    eles estavam cobrando de 20 a 30 reais, era uma verdadaira gangues de desocupados oportunistas, pois varios mi ofereceram ingressos….. o pior e o cara chegar de regata, chhinelo, fedendo a alcool e dizendo que tinha pego ingresso pra entra mais nao ia dar tempo pois iam trabalhar…..

  3. Concordo com as criticas sobre a organização do evento, o espaço relmente era pequeno pra comportar o número de pessoas que queriam ver os shows. Quanto aos shows, gostei de todos, os brasileiros corresponderam as expectativas. Foram shows muito bons, quanto aos franceses, todos foram muito bem, dentro dos seus estilos, foram apresentações distintas não foram shows para se esquecer.
    Outro ponto negativo foram os problemas durante o shows de Zeca Baleiro, ele não conseguiu toca uma musica por completo sem que o violão apresentasse algum problema tava visivel que ele tava desconfortavel ali em cima, creio que isso foi pessimo para a organização.
    Gostei muito do evento, se ele tivesse sido realizando na prasa do arsenal seria bem menlhor.

  4. Isso ser ali na Torre foi uma palhaçada… Não tinha espaço, sem noção a organização do evento. Deveria ser num palco aberto, que pelo menos melhorava a ventilação,… um calor da porra, uma galera sem noção por lá também… Pelo menos na quarta colocaram um telão do lado de fora pra galera que não pegou pulseira.