Resenha – Juvenil Silva – “Desapego”

Por Hugo Montarroyos em 10 de abril de 2013

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A vida é mesmo cheia de surpresas. Quem diria que aquele moleque mod meio chato dos Canivetes (banda que fez certo barulho no underground recifense da década passada)  fosse se transformar, anos mais tarde, em um artista completo? É o que atesta este “Desapego”, estreia solo de Juvenil Silva. Como quem brinca com o tempo, sua faixa de encerramento, “De Volta para o Futuro Em Recife”, sintetiza toda a concepção estética do álbum, que tem gosto, cheiro e cor de final dos anos 60, sem, no entanto, abrir mão de ser atual. Seja no rockabilly de “Mixturado”, na manhosa “Pomba Gira Violeta” (que parece fundir Mutantes com Jorge Ben Jor) ou na instrumental “Tire o Peixe da Gaiola” ( coisa de quem ouviu muito Santana), Juvenil não perde a mão em um segundo sequer. São todas canções que dão vontade de apertar “repeat” após a execução.

A banda é extremamente afiada, e soa como se estivesse se divertindo em qualquer quintal ou garagem da vida. É psicodélico sem ser chato. E, ao mesmo tempo, despretensioso sem soar simplista. As letras são um achado, como as de “Desapego” e “Se Ela Nunca…”. O que mais impressiona é a capacidade de Juvenil de percorrer por diversos territórios da música (tropicália, blues, rock rural, Novos Baianos, Raul Seixas, Bob Dylan) sem perder a coesão. Tudo está no seu devido lugar. É daqueles álbuns difíceis de citar um destaque. Deram até um nome para este tipo de trabalho: obra. Se “Desapego” não é uma obra-prima, é um disco que deve ser entendido pelo todo, e não apenas  pelas partes.

E é assim, juntando as partes de tudo que vê, ouve e respira, que Juvenil concebe um trabalho extremamente inspirado, verdadeira delicadeza bruta de quem deixou de ser apenas um roqueiro inquieto para se tornar um artista de alto calibre. Tom Zé ficaria orgulhoso.

Cotação – ótimo

2 Comments

  1. João
    Posted 12 de abril de 2013 at 18h43 | Permalink

    Esse Hugo é o maior chapa-branca do Recifilis.

  2. Cainã OC
    Posted 19 de abril de 2013 at 23h26 | Permalink

    O Hugo sintetizou muitíssimo bem nessa resenha o primor que é a música de Juvenil e retratou muito bem o contexto do disco. Ótimas palavras!
    Parabéns a Juvenil! Que sua mensagem alcance as alturas.