Cobertura – Cavalera Conspiracy no Recife

Por Hugo Montarroyos em 7 de setembro de 2014

por Hugo Montarroyos

Max e Iggor Cavalera são dois dos maiores nomes da historia da música brasileira. Ponto. Só o que eles (e Andreas Kisser e Paulo Jr) fizeram entre o “Beneath The Remais” (1989) e o “Roots” (1996) já os credenciariam a um lugar no Rock Roll of Fame. Mas, como são brasileiros, provavelmente só terão seu merecido reconhecimento depois de mortos. É a triste e mórbida realidade nacional que rege a relação entre o público e seus ídolos.

Aliás, chegava a ser engraçada a demonstração de afeição do público pernambucano em relação aos irmãos Cavalera. Quando a Van que trazia a banda surgiu no pátio do Clube Internacional, muitas pessoas correram atrás para tentar falar com a dupla. Detalhe: a grande maioria dos tietes era formada por homens com idades que variavam entre os 30 e 4o anos. E o fenômeno é bem fácil de ser explicado. Recife jamais viu o Sepultura em sua formação clássica no auge da carreira. O mais próximo que chegou disso foi através da figura de Max Cavalera, quando apareceu duas vezes na capital pernambucana: em 1997, para homenagear Chico Science em uma jam histórica com a Nação Zumbi no Abril pro Rock; e em 2000, quando ele tocou com o Soulfly, no mesmo festival. Eu dei um pouco mais de sorte. Presenciei o show do Sepultura no Hollywood Rock de 1994, aquela histórica apresentação em que Max foi preso acusado (injustamente) de desrespeitar os símbolos nacionais. Não à toa, desde que foi anunciada a formação do Cavalera Conspiracy, em 2007, era grande a expectativa para que tocassem no Recife. E a espera terminou ontem, numa noite um tanto esquizofrênica para o mercado de shows da cidade.

Ao mesmo tempo em que acontecia o MIMO, em Olinda, outras atrações bem distintas dividiam a atenção do público: a mais que sofrível banda Sedutora gravava seu DVD no Clube Português, enquanto que O Rappa e Raimundos se apresentavam no Chevrolet Hall. Junte-se a isso tudo a previsão de uma chuva torrencial para as próximas 24 horas na capital pernambucana e o resultado foi um público abaixo do esperado para ver o Cavalera Conspiracy, que deve ter ficado entre 800 ou mil pessoas (até a conclusão do texto, o público oficial ainda não havia sido divulgado). A boa notícia é que o público feminino aumentou bastante. Antigamente, shows de metal costumavam ser majoritariamente frequentados por homens. Agora, graças aos céus, a mulherada tem marcado presença em apresentações do estilo.

Em relação ao Cavalera Conspiracy, a proposta é interessante: mostrar material novo recheado com músicas (várias delas retalhadas) do Sepultura na clássica dobradinha Iggor na bateria e Max nos vocais. Em certos momentos, chega a emocionar. Em outros, parece cansativo e datado. Quando Max tenta soar como o Bob Marley do metal, a coisa desanda de vez. Mas, no geral, ainda que Max enrole mais do que toque – o guitarrista Marc Rizzo e o baixista Tony Campos seguram a onda na maior parte do tempo – em momentos como “Beneath Remains”, “Inner Self”, “Arise”, “Refuse/Resist”, “Territory”, “Atittude” e “Roots Bloody Roots” o negócio esquenta. E muito. Se a nova faixa de trabalho, “Bonzai Kamakazi”, está muito aquém de tudo que o Sepultura já produziu, uma simples audição de retalhos de “Desperate Cry” e “Dead Embryonic Cells” coloca tudo nos trilhos, e faz o projeto valer a pena. Na verdade, a impressão que fica é que o Cavalera Conspiracy é uma desculpa para Max e Iggor tocarem os clássicos do Sepultura para compensar os dez anos em que ficaram afastados um do outro.

Foi de arrepiar ver toda a plateia cantar “Attitude”. E, a cada clássico do Sepultura, senhores de mais de 30 anos se empolgavam a ponto de entrar na roda de pogo, que, por várias vezes, foi aberta durante o show.

Bem, houve também a abertura dos paulistas do Capadócia, que fazem um trhash metal bem competente, mas que foram bastante prejudicados com a má qualidade do som durante sua apresentação. E que foram solenemente engolidos pelo Cavalera Conspiracy, fazendo com que pouca gente ali lembrasse que havia acontecido um show de abertura.

No geral, o Cavalera Conspiracy vale pela oportunidade de resgatar a memória afetiva de um tempo que jamais voltará, mas que, de certa forma, permanece intacto nas batidas de Iggor e na voz cavernosa e presença marcante (mais gordo, mais velho e parecendo um mendigo do metal) de Max Cavalera. Aquele que, ao lado de Arnaldo Baptista, é o maior nome do rock no Brasil de todos os tempos. Está longe de ser pouca coisa.

One Comment

  1. willson durand
    Posted 8 de setembro de 2014 at 11h32 | Permalink

    Continuem a cobrir e trazer boas materias como essa para o site, é um prazer enorme entrar e ver que o Recife Rock esta vivo por tanto tempo.

    Abs….

%d blogueiros gostam disto: