Cobertura – Cavalera Conspiracy no Recife

por Hugo Montarroyos

Max e Iggor Cavalera são dois dos maiores nomes da historia da música brasileira. Ponto. Só o que eles (e Andreas Kisser e Paulo Jr) fizeram entre o “Beneath The Remais” (1989) e o “Roots” (1996) já os credenciariam a um lugar no Rock Roll of Fame. Mas, como são brasileiros, provavelmente só terão seu merecido reconhecimento depois de mortos. É a triste e mórbida realidade nacional que rege a relação entre o público e seus ídolos.

Aliás, chegava a ser engraçada a demonstração de afeição do público pernambucano em relação aos irmãos Cavalera. Quando a Van que trazia a banda surgiu no pátio do Clube Internacional, muitas pessoas correram atrás para tentar falar com a dupla. Detalhe: a grande maioria dos tietes era formada por homens com idades que variavam entre os 30 e 4o anos. E o fenômeno é bem fácil de ser explicado. Recife jamais viu o Sepultura em sua formação clássica no auge da carreira. O mais próximo que chegou disso foi através da figura de Max Cavalera, quando apareceu duas vezes na capital pernambucana: em 1997, para homenagear Chico Science em uma jam histórica com a Nação Zumbi no Abril pro Rock; e em 2000, quando ele tocou com o Soulfly, no mesmo festival. Eu dei um pouco mais de sorte. Presenciei o show do Sepultura no Hollywood Rock de 1994, aquela histórica apresentação em que Max foi preso acusado (injustamente) de desrespeitar os símbolos nacionais. Não à toa, desde que foi anunciada a formação do Cavalera Conspiracy, em 2007, era grande a expectativa para que tocassem no Recife. E a espera terminou ontem, numa noite um tanto esquizofrênica para o mercado de shows da cidade.

Ao mesmo tempo em que acontecia o MIMO, em Olinda, outras atrações bem distintas dividiam a atenção do público: a mais que sofrível banda Sedutora gravava seu DVD no Clube Português, enquanto que O Rappa e Raimundos se apresentavam no Chevrolet Hall. Junte-se a isso tudo a previsão de uma chuva torrencial para as próximas 24 horas na capital pernambucana e o resultado foi um público abaixo do esperado para ver o Cavalera Conspiracy, que deve ter ficado entre 800 ou mil pessoas (até a conclusão do texto, o público oficial ainda não havia sido divulgado). A boa notícia é que o público feminino aumentou bastante. Antigamente, shows de metal costumavam ser majoritariamente frequentados por homens. Agora, graças aos céus, a mulherada tem marcado presença em apresentações do estilo.

Em relação ao Cavalera Conspiracy, a proposta é interessante: mostrar material novo recheado com músicas (várias delas retalhadas) do Sepultura na clássica dobradinha Iggor na bateria e Max nos vocais. Em certos momentos, chega a emocionar. Em outros, parece cansativo e datado. Quando Max tenta soar como o Bob Marley do metal, a coisa desanda de vez. Mas, no geral, ainda que Max enrole mais do que toque – o guitarrista Marc Rizzo e o baixista Tony Campos seguram a onda na maior parte do tempo – em momentos como “Beneath Remains”, “Inner Self”, “Arise”, “Refuse/Resist”, “Territory”, “Atittude” e “Roots Bloody Roots” o negócio esquenta. E muito. Se a nova faixa de trabalho, “Bonzai Kamakazi”, está muito aquém de tudo que o Sepultura já produziu, uma simples audição de retalhos de “Desperate Cry” e “Dead Embryonic Cells” coloca tudo nos trilhos, e faz o projeto valer a pena. Na verdade, a impressão que fica é que o Cavalera Conspiracy é uma desculpa para Max e Iggor tocarem os clássicos do Sepultura para compensar os dez anos em que ficaram afastados um do outro.

Foi de arrepiar ver toda a plateia cantar “Attitude”. E, a cada clássico do Sepultura, senhores de mais de 30 anos se empolgavam a ponto de entrar na roda de pogo, que, por várias vezes, foi aberta durante o show.

Bem, houve também a abertura dos paulistas do Capadócia, que fazem um trhash metal bem competente, mas que foram bastante prejudicados com a má qualidade do som durante sua apresentação. E que foram solenemente engolidos pelo Cavalera Conspiracy, fazendo com que pouca gente ali lembrasse que havia acontecido um show de abertura.

No geral, o Cavalera Conspiracy vale pela oportunidade de resgatar a memória afetiva de um tempo que jamais voltará, mas que, de certa forma, permanece intacto nas batidas de Iggor e na voz cavernosa e presença marcante (mais gordo, mais velho e parecendo um mendigo do metal) de Max Cavalera. Aquele que, ao lado de Arnaldo Baptista, é o maior nome do rock no Brasil de todos os tempos. Está longe de ser pouca coisa.

Posted domingo, setembro 7th, 2014 under Notícias.

One comment so far

  1. willson durand says:

    Continuem a cobrir e trazer boas materias como essa para o site, é um prazer enorme entrar e ver que o Recife Rock esta vivo por tanto tempo.

    Abs….