Livro “Devotos 20 Anos” disponível para download

Por Hugo Montarroyos em 4 de maio de 2013

Devotos20Anos-Capa_online

O livro “Devotos 20 Anos”, que lancei em 2010, está disponível para download gratuito no site da Aeroplano Editora. O livro narra as trajetórias das bandas Devostos, Faces do Subúrbio e Matalanamão, e foi editado pela escritora carioca Heloísa Buarque de Holanda. Para quem não pôde comprar, agora é só pegar de graça aqui:

http://issuu.com/tramas.urbanas/docs/devotos_20_anos

Lúcio Maia desmente fim da Nação Zumbi

Por Hugo Montarroyos em 3 de maio de 2013

Lúcio Maia

 

Como foi informado aqui pelo leitor Pablo Lopes, o guitarrista da Nação Zumbi, Lúcio Maia, desmentiu, via twitter, que a banda tenha terminado. “Amigos, não sei quem começou esse papo sobre o fim na NZ, mas com certeza não foi alguém da banda. É mentira. Beijos e abraços.” https://twitter.com/luciomaia_/status/329723458835607552 .

 

Tapa na Orelha: Possível aposentadoria da Nação Zumbi denota decadência do mercado pernambucano

Por Hugo Montarroyos em 2 de maio de 2013

Nação

A notícia saiu ontem, na página do Facebook da Nação Zumbi. A banda não entrará em estúdio este ano e não sabe se voltará aos palcos em 2014. Ou seja, uma forma paliativa de anunciar sua aposentadoria. Alguns músicos da Nação atualmente se viram acompanhando Marisa Monte em turnê nacional e mundo afora. Outros seguem com projetos paralelos.

A grande questão é: a banda parou por conta de problemas de relacionamento entre os integrantes ou por que não consegue mais sobreviver no mercado? Se a principal banda pernambucana em atividade não suportou as atuais condições do mercado (aliás, existe um mercado hoje?), fico imaginando como anda a cena independente então.

Recentenmente li uma entrevista bastante pertinente que o produtor Paulo André concedeu a Rodrigo Edipo, do site mionline http://mionline.com.br/site/blog/mi-entrevista-paulo-andre-moraes-abril-pro-rock/. Ainda que o discurso seja velho conhecido, ele não deixa de ter razão em vários aspectos. Um deles: a iniciativa privada está pouco se lixando para a produção cultural pernambucana. A não ser que você considere cultura o São João da Capitá. Pois este evento, com aqueles nomes deprimentes que fazem uma musiquinha ordinária que têm a coragem de chamar de forró, tem o patrocínio de cinco grandes marcas e parceria com a Rede Globo Nordeste. Não é à toa que lota todo ano. É o que Paulo André chama de “público alienado”. Mas como seria de outra forma?  Existe algum espaço tão grande na mídia para artistas que façam algo realmente relevante? O que mais ouvi de pessoas que acompanham de longe (o tal público alienado) o que se produz aqui foi frases do tipo “não tem nenhuma banda boa (conhecida) na programação do Abril pro Rock”. E como é que vou culpar um sujeito que trabalha 12 horas por dia e só tem tempo de se informar via Rede Globo ou rádios jabazeiras de tamanha ignorância? É como disse Paulo André: uma programação com nomes como Volver, Television, Silva, Marcelo Jeneci e Móveis Coloniais de Acaju é para poucos no Recife.

Tenho medo dessa ignorância disseminada pela grande mídia. A Globo, em suas chamadas comemorativas, ainda se lembra de Maestro Forró e Spock. Mas onde estão Silvério Pessoa, Siba e a própria Nação Zumbi? Para a maior rede de televisão do país, eles simplesmente não existem, a não ser quando desfilam no Galo da Madrugada. Ou seja, uma vez por ano.

Com uma produção musical tão rica e reconhecida internacionalmente, é absurdo imaginar que rádio alguma toque os artistas locais. Atenção, estou me referindo a artistas, e não a coisas do gênero “Musa Do Calypso”.
Na grande maioria dos shows independentes locais, o público é sempre composto das mesmas vinte ou trinta pessoas. E, na maior parte das vezes, são produtores, jornalistas especializados e alguns amigos pingados. Ou seja, não existe público. E é fácil saber o motivo. Como existirá público se não existe mídia para divulgar?

Se nem a Nação Zumbi sobreviveu, fico imaginando um terrível efeito dominó que terminará com a carreira de todas as bandas locais. A verdade é uma só: o Recife é absolutamente ingrato com os talentos da sua terra. Basta ver os lambe-lambes da cidade para constatar a triste realidade cultural a qual estamos cercados.

Humberto Gessinger se apresenta em maio no Recife

Por Hugo Montarroyos em 26 de abril de 2013

Humberto Gessinger

 

O líder do Engenheiros do Hawaai Humberto Gessinger tem show marcado no Recife no dia 31 de maio. A produção do evento ainda não divulgou local e preço. Em breve mais informações.

Cobertura: Abril pro Rock – Segunda Noite

Por Hugo Montarroyos em 21 de abril de 2013

A noite pesada do Abril pro Rock foi daquelas para fã algum de metal, punk e hardcore botar defeito. E arrastou uma multidão (cerca de oito mil pessoas) para conferir os históricos shows do Dead Kennedys (mesmo fora de forma, a banda deu seu recado) e Sodom. Sem falar nas voltas triunfais de DFC (que não tocava há 18 anos no festival), Devotos (retornando após ausência de 12 anos no evento) e Krisiun (que tocou pela última vez no Abril pro Rock em 2002). Do lado pernambucano, a boa surpresa foi a banda feminina Vocífera, que faz um Death Metal de deixar muito marmanjo com inveja. O detalhe: mesmo inexperientes (ainda nem fizeram dez shows em sua curta carreira), as meninas do Vocífera peitaram o público do Abril pro Rock com extrema desenvoltura, fazendo um belíssimo show. A única coisa que não consegui entender na noite de ontem foi por que diabos André Matos fechou o festival? Ainda que tenha lá sua importância na história do metal nacional, ele não é nada perto de Sodom e Dead Kennedys. Tanto que muita gente já havia ido embora quando Matos colocou os pés no palco. Só ficaram mesmo os fãs de carteirinha. Fora este deslize, a noite de ontem beirou a perfeição.

Do começo: as meninas do Vocífera abriram com muita dignidade a noite. Apresentando um thrash metal que por vezes descamba para o death metal, Angela Metal (vocal), Lidiane Pereira (guitarra), Marcella Tiné (bateria), Erika Motta (guitarra) e Amanda Salviano (baixo) usaram a experiência que cada uma tinha no undergroun pernambucano em diferentes bandas para realizar um dos shows de abertura mais marcantes da história do Abril pro Rock. Suas composições são bombas que explodem deliciosamente nos ouvintes que curtem música pesada, e elas saíram do palco merecidamente reverenciadas pelo público. Bela surpresa que ainda deve fazer muito barulho por aí. Anotem este nome: Vocífera.

Depois foi a vez do também pernambucano Kriver entrar em cena. Mais experientes e com proposta diferente das garotas, a banda segue a linha Iron Maiden de ser. Ainda que sejam ótimos músicos, pecam um pouco no quesito originalidade. Uma de suas músicas, por exemplo, parece cópia de “Two Minutes To Midnight”, do Iron Maiden. Fora isso, sem queixas. Banda que também não se intimidou com o palco do Abril pro Rock. E, justiça seja feita, são tecnicamente impecáveis.

Já a potiguar Kataphero apresentou um thrash metal mais vigoroso, explosivo e direto. Prova de que Natal é um belo celeiro de bandas do gênero, o Kataphero possuí todas as qualidades que um grupo do estilo precisa: um bom vocalista e uma cozinha certeira de baixo e bateria. E deu a impressão de que muita gente do Rio Grande do Norte veio ver o show deles. Destaque para a ótima “Thanatolatria”, que fechou o set.

A americana Fang foi a primeira banda de legítimo hardcore da noite. E, a partir daí, as rodas de pogo fizeram a festa durante toda a noite. Empolgados, chegaram a dizer em bom português que amavam Recife e tocaram a sensacional “Here Comes The Cops”. O problema foi que o DFC veio na sequência, e depois do show arrebatador dos brasilienses, ficou difícil lembrar que o Fang havia tocado.

O show do DFC foi tão devastador (talvez o melhor da noite) que só as frases proferidas pelo vocalista Túlio renderiam uma resenha à parte. Eis algumas delas: “convido vocês a enfiarem o pau no cu do capitalismo”. “Obrigado, amigos. São 20 anos tomando no cu”. “Feliciano, pastor filho da puta”. E, a melhor delas, cantando a capela “amanheci sozinho / na cama um vazio / meu coração que se foi / sem dizer que voltava depois…” ao dizer que se o mundo fosse uma maravilha eles cantariam música romântica, e não o punk harcore violento que rendeu a maior roda de pogo da noite. Entre os vários momentos de destaque, os que mais marcaram foram “Boletim de Ocorrências”, “Demônios da Fé Cristã”, “Cidade de Merda” – em homenagem a Brasília -,“Vou Chutar a Sua Cara” e “Política 666”, cantada por todo o público. Show perfeito!

Sou o sujeito mais suspeito para falar deles, mas fazer o quê se o Devotos é phoda (com ph de “pharmácia”). Com produção capricahada, com direito a telão no fundo do palco que mostrava ilustrações do guitarrista Neilton, o trio mandou um torpedo atrás do outro, sem perder tempo falando com o público. Pareciam estar com raiva de alguma coisa. E isso, no caso deles, rende shows memoráveis. Abriram com “Nós Faremos Que Você Nunca Esqueça”, emendando com “Caso de Amor e Ódio” e “Rádio Comunitária pra Informar”. Pegaram um público ainda cansado pela apresentação do DFC, e demorou um pouco para que a roda de pogo pegasse fogo no show deles. Mas, pouco a pouco, o público foi ficando mais animado, especialmente na sequência de “O Herói”, “Homem Monstro”, “Alien”, “Vida de Ferreiro”, “Mas Eu Insisto” e “Vida de Ferreiro”. Cannibal falou menos  que de costume, mas foi certeiro: “precisamos valoriza um festival como o Abril pro Rock. Especialmente quando é feito aqui (Chevrolet Hall), onde só rola bagaceira” (se referindo aos festivais de brega que acontecem no local). No mais, encantaram jornalistas de fora que não os conhecia, especialmente quando Cannibal recitou os versos de “Nosso Ninho”: “moramos, não esqueça, esse é o nosso ninho. Quem nunca ouviu falar no Alto José do Pinho. Subúrbio de Recife, Zona Norte, urubu. Se for discriminar o meu lugar, vá tomar no cu”. E, depois de Cannibal  berrar “Abril pro Rock, que saudade do caralho”, emendou com “Eu Tenho Pressa”, que costumava ser a música de abertura nos shows deles no festival. Ainda foram responsáveis por uma roda de pogo só de mulheres (como vem fazendo nos últimos shows) em “Roda Punk” e fecharam com a exaltação de “Punk Rock Hardcore Alto José do Pinho”, com todo o público cantando em uníssono que o punk hardcore feito no Alto José do Pinho “é do caralho!”. Que se dane a suposta e inexistente imparcialidade do jornalismo: tenho um baita orgulho desses caras.

E, enfim, a lenda viva entrou em cena. Ok, Jello Biafra não estava lá. A banda mostrou cansaço. Em determinado momento, o vocalista substituto Ron Greer (que chegou a se jogar no palco), estava literalmente sem fôlego já na metade do show. Tanto que pediu desculpas ao público: “desculpe, mas o punk é velho”. O baixista Klaus Flouride e o baterista DH Peligro pareciam querer que tudo aquilo terminasse logo. E, ainda que o guitarrista East Bay Rey também não estivesse em sua melhor forma, ficou claro que é ele que ainda leva a banda nas costas. Alguns clássicos foram tocados com velocidade bem acima das versões originais, mais uma prova de que queriam se livrar logo do palco. Mas, caramba, tratava-se do Dead Kennedys. E o público não deu a menor pelota para esses deslizes. Ficou claro que a multidão tinha comparecido ao Chevrolet Hall para vê-los. A maior audiência da noite foi, sem sombra de dúvidas, deles. “Buzzbomb”, “Moom of River”, “Nazi Punks Fuck Off” e, principalmente, “California Uber Alles” levaram o público a um transe de insanidade bonito de ver. Foram 14 músicas tocadas em cerca de 50 minutos de show. Ainda que o Dead Kennedys atual pareça uma instituição à beira da falência, ontem, no Recife, para o público, eles ainda eram os reis do punk rock hardcore. Apresentação que certamente entrou para a história de Recife. Melancólico para quem guardava na memória os bons tempos de Jello Biafra. E inesquecível para os que viam a banda pela primeira vez.

O contraste ficou evidente quando o Krisiun entrou em cena. Com sua pegada pra lá de violenta, os gaúchos pareciam ainda melhores do que em 2002 (show que tive o privégio de ver no palco na época). Estão ainda mais raivosos e carrancudos. Ficaram empolgados com a reação do público. “Puta que pariu, tem gente pra caralho aqui”, se admirava o baixista e vocalista Alex Camargo. Com nove álbuns na carreira, o Krisiun fez uma boa síntese de sua longa carreira. A supresa ficou com a execução de “No Class”, em arranjo que lembrava o bom e velho Motörhead. Fora isso, o show deles foi o que sempre pareceu ser: a chegada do juízo final. Sério candidato a melhor da noite.

Depois foi a vez de outra lenda entrar em campo; os alemães do Sodom, que foram recepcionados por um público insano, que premiava o ótimo thrash metal do grupo em infidável roda de pogo. A grande surpresa da apresentação deles foi a execução de um clássico do punk, “Surfin Bird”, imortalizada pelos Ramones. Ao contrário do Dead Kennedys, o Sodom envelheceu bem, e seu show foi irretocável, beirando a perfeição. Deveriam ter fechado a noite.

E aí vem a grande pergunta: alguém (fora os fãs de carteirinha) ainda aguenta ouvir André Matos cantando “Carry On”? Até entendo que a noite precisasse contemplar o público do metal melódico, mas Matos não passa de um simulaco de Bruce Dickinson. Alguém que há anos vive dos restos de fama conquistados em época de Viper e Angra. Um cara que serviu de inspiração para a genial paródia do Masssacration, do Hermes e Renato. Ou seja, o nome menos tarimabado para fechar uma noite tão marcante quanto a de ontem. Tanto que uma boa parte do público já tinha ido embora durante a apresentação de Matos.

Mesmo com essa falha (grave, ao meu ver), a noite de ontem foi uma das mais emocionantes da história do Abril pro Rock. Tanto que a maioria do público (incluindo este que voz tecla) deve estar agora sem voz e com os ouvidos em frangalhos. Ainda que a morte do metal tenha sido decretada pela enésima vez, ontem ele provou que está mais vivo do que nunca. Amém.

Cobertura: Abril pro Rock 2013 – Primeira Noite

Por Hugo Montarroyos em 20 de abril de 2013

A primeira noite da vigésima-primeira edição do Abril pro Rock foi marcada pela diversidade. E de uma forma que não se via há muito tempo no festival. A sequência de shows que envolveu Volver, Television, Marcelo Jeneci e Siba foi prova cabal disso. Artistas com propostas absolutamente distintas, foram capazes de empolgar o mesmo público durante suas apresentações. No fator audiência, a surpresa acabou sendo o paulista Marcelo Jeneci: ficou claro que a maioria saiu de casa para ver o show dele. No mais, a lenda viva do rock Television emocionou a parcela mais velha do público, Volver fez show de quem já é grande há tempos no Recife e os holofotes acabaram mesmo todos  em cima de Marcelo Jeneci. Tanto que muita gente foi embora depois do show dele. A outra parcela que ficou até o final era composta por fãs de Siba e de Móveis Coloniais de Acaju, que fechou a noite.

Um verdadeiro dilúvio caiu no Recife no início da primeira noite do APR. Isto fez com que boa parte dos pagantes chegasse com certo atraso ao Chevrolet Hall. Mas, mesmo assim, no fim das contas o número de pessoas presentes acabou sendo surpreendente. Se formos levar em conta que a escalação do primeiro dia não trazia nenhum nome que garantisse a lotação do lugar (apesar de ser uma lenda, no frigir dos ovos são poucos os que conhecem Television no Recife) e o temporal que caiu no Recife, o público da primeira noite foi bem numeroso. Aquela coisa: longe de lotar; e também longe de estar vazio.

Coube ao local Tagore a tarefa de abrir a noite. Completamente influenciado pela fase inicial da carreira de Alceu Valença. Tagore brindou os poucos presentes ao seu show com um som psicodélico, fincado nas raízes nordestinas, mas sem abrir mão da universalidade – neste caso, o pop inglês -. É o oposto completo de sua antiga banda, o The Keith, que fincava os dois pés na geração – e na sonoridade – dos Strokes. Trata-se de rock com sotaque nordestino da melhor qualidade. Nota-se que é uma banda que buscou uma identidade e a encontrou de forma certeira entre discos de Alceu, um quê de lisergia e muita energia no palco. Belo show.

O mesmo não pode ser dito sobre Babi Jaques & Os Sicilianos. Performática, a banda mistura um pouco de teatro com uma sonoridade chocha e sem graça. A ideia é trazer o uniiverso mafioso dos anos 50 para a música. Algo que fica entre o “quase blues” e o “quase rock” para redundar em muita pose e pouca música. Força a barra para soar engraçado, mas, no fim das contas, acaba sendo, na maior parte do tempo, chato. Uma pena, pois são bons músicos, embora a vocalista Babi Jaques seja fraquinha. Mas, justiça seja feita, foram bastante aplaudidos durante todo o show.

O capixaba Silva acabou sendo a grata surpresa da noite. O mais novo frequentador dos cadernos culturais dos jornais de São Paulo tem uma proposta bem interessante. Com um formato minimalista, que se resume numa dupla que comanda teclado, bateria e programações, Silva reinventa o pop inglês dos anos 80 com um quê de gótico e leves tons de Smiths e Cure, mas tudo isso sobre camadas de psicodelia vindo dos teclados de Silva e da bateria digital (daquelas que o RPM usava), como na climática e densa “Falando Sério”. Ainda tiveram a cara de pau de mandar uma versão pós-moderna de “Taí” , marchinha que foi sucesso na voz de Carmem Miranda. Eis um show que vale a pena ver de novo quando passar por Recife.

Mesmo com o som do palco longe do ideal, o Volver conseguiu fazer um baita show. Abriram com “Próxima Estação” e foram emendando um hit atrás do outro. Voltaram ao início de carreira com a já clássica “Você que Pediu”, que trouxe ao Chevrolet Hall um pouco do gosto da cena pernambucana dos primeiros anos da década passada. Tiraram da manga a sensacional “Mallu”, em homenagem a Mallu Magalhães e cuja genial letra faço questão de transcrever na íntegra aqui: “Mallu quer ser mulher / Não tá pra brincadeira / Ela só faz o que bem quer /Não sabe ser de outra maneira. / Maluco é ser mulher / Nem todo mundo aguenta / De fato não é pra quem quer / Tem gente até que tenta. / Mallu já decidiu que vai mudar / Usando salto alto em vez de All Star / Nem viu que quase nada aconteceu. / Mallu deseja um dia se casar / Ouvindo Bob Dylan no altar dizendo “Ei garota, cê cresceu.” E ainda teve “Tão Perto, Tão Cedo” e “Clarice”, todas cantadas em uníssono pelos fãs, regidos por uma banda que, em dez anos de carreira, se mostra cada dia mais madura.

E aí veio o Television. E, ainda que para boa parte do público eles mais parecessem  coroas completamente deslocados de seu tempo, foi emocionante ver a banda comandada pelo lendário Tom Verlaine despejar seu som despojado de frescuras no Abril pro Rock. Da mesma geração de Ramones, Blondie e Talking Heads, o Television meio que sempre caminhou por fora. Sua sonoridade não se encaixa nem no punk puro e simples dos Ramones e muito menos na intelectualidade de sons globalizados do Talking Heads. Trata-se de uma sonoridade crua, simples, única. Os tiozinhos abriram o show sem se dirigir ao público. Não se importavam com os longos intervalos entre as músicas, onde gastavam bastante tempo afinando guitarras e até bateria! Meticulosos ao extremo, foram ganhando o público aos poucos, com gemas do quilate de “Glory”, do clássico álbum “Adventure”, lançado, vejam só, em 1978! Houve um pequeno momento de tensão, quando alguém jogou uma lata que quase acertou o guitarrista Jimmy Rip, que ficou furioso, encarou a plateia e mandou os seguranças tomarem as devidas providências. Mas Rip e o sujeito acabaram se entendendo, e depois da execução de uma das pedras fundamentais do rock, “Marquee Moom”, os coroas estavam com o público literalmente nas mãos, que “suportou” bem as infindáveis e famosas improvisações do Television no palco. Com menos de uma hora de apresentação, foi um show curto, grosso e inesquecível para quem é apaixonado pela hiostória do rock. Afinal, uma parte bem importante dela estava ali presente ontem.

Quando foi anunciado o nome de Marcelo Jeneci, muita gente correu para a frente do palco. Ali ficou nítido que ele era, para o público, a principal atração da noite. E Jeneci não decepcionou. Acompanhado da ótima vocalista Laura Lavieri, o ex-sanfoneiro de Chico César mostrou com eficiência por que é considerado hoje um dos principais nomes da música brasileira. Seja na poesia angustiada de “Tempestade Emocional”, no hit “Felicidade” ou na linda “Pra Sonhar”, Jeneci e banda esbanjaram experiência de veteranos. Não seria exagero dizer que deveriam ter fechado a noite, pois muita gente foi embora depois do show dele. Que, aliás, foi irretocável.

Depois foi a vez de Siba mostrar seu mais recente trabalho, “Avante”, que traz o músico mais urbano do que o habitual. Trocando a tradicional rabeca pela universal guitarra, Siba conseguiu um interessante diálogo entre suas pesquisas na Zona da Mata com uma sonoridade mais encorpada, mais elétrica, mas sem jamais abrir mão de sua raiz nordestina. A plateia cantou com ele boa parte de suas canções, que soam como uma espécie de cavalo marinho revisitado. A síntese disso pôde ser conferida em “Ariana” e “A Bagaceira”, que apresentam um siba mais leve, descontraído e roqueiro. Ou seja, um Siba mais parecido com o início da carreira do Mestre Ambrósio no início dos anos 90, quando a formação do grupo ainda era elétrica. É gratificante testemunhar como Siba tem crescido como músico e compositor. Ou seja, como o grande artista que é.

E o sempre competente e animadíssimo Móveis Coloniais de Acaju tratou de fechar a noite colocando todo mundo para dançar, como de costume. Driblaram os problemas de som (todos os shows no palco em que eles tocaram tiveram algum problema técnico) e fizeram a festa com hits como “Perca Peso”, de “Idem”, seu trabalho de estreia e, de longe, o melhor deles. Já passava das três da matina, e a sensação que ficou foi a das primeiras edições do Abril pro Rock, em que chuvas violentas eram sinônimo de shows inesquecíveis. Ontem, por alguns instantes, o Chevrolet Hall lembrou o Circo Maluco Beleza de 1996. E a lembrança não poderia ser melhor…

Abril pro Rock divulga ordem dos shows

Por Hugo Montarroyos em 18 de abril de 2013

Abril pro Rock

A produção do Abril pro Rock divulgou a ordem dos shows da edição 2013. Confira também o horário de abertura dos portões e o preço do ingresso.

Sexta: Abertura dos portões 20h
Ordem dos shows: Tagore (PE), Babi Jaques & Os Sicilianos, Silva (ES),Volver (PE), Television (EUA),Marcelo Janeci (SP), Siba (PE) e Móveis Coloniais de Acaju (DF)

Sábado: Abertura dos portões – 18h
Ordem dos shows: Vocífera (PE), Kriver (PE), Kataphero (RN), Fang (USA), DFC (DF), Devotos (PE), Dead Kennedys (EUA), Krisiun (RS), Sodom (ALE) e André Matos (SP)

Ingressos:R$ 30 (meia) e R$ 40 + 1 Kg de alimento não perecível (social)

Vendas no Chevrolet Hall, Lojas Renner e Ingresso Rápido http://abrilprorock.info/2013/20-de-abril/

Entrevista – Tagore

Por Hugo Montarroyos em 16 de abril de 2013

Tagore Suassuna

 

Tagore Suassuna tem apenas 25 anos, mas já acumula experiência de veterano. Começou a fazer barulho na cena pernambucana com o The Keith, banda que seguia o jeito Strokes de ser e onde Tagore era guitarrista e vocalista. Em 2009, tocou no Abril pro Rock com o The Keith. No ano seguinte, Tagore lançou-se em projeto-solo com o elogiado “Aldeia”, disco que mesclava tonalidades regionais com influências do pop britânico. Bem sucedido, Tagore montou banda homônima, venceu a edição 2013 do Pre-Amp,  está gravando disco novo (que deve ser lançado ainda nesse semestre) e foi escalado para tocar no Abril pro Rock deste ano, onde se apresenta sexta-feira, dia 19. Na entrevista abaixo, Tagore conta um pouco da sua trajetória, fala da mudança estética de sua sonoridade e de como será sua apresentação no Abril pro Rock

Como foi a transiçao do The Keith para o Tagore?

Apesar de eu ter na minha família diversos artistas de cunho regional, sempre curti mais artistas internacionais e particularmente ligados ao rock. Esse interesse repentino por uma sonoridade mais próxima das minhas raízes, com certeza se deve ao fato de eu ter ido estudar em  Caruaru e, de certa forma, bebido um pouco mais da “cultura do  barro”. Mas isso  se reflete em poucas das nossas músicas, no geral, tentamos trabalhar melodias mais universais, mais rock, porém, meu sotaque de inhame não tem como ser retirado, então sempre carregaremos uma fagulha regional nesse incêndio sonoro.

Como foi a experiência no Pre-Amp? Imaginava ganhar? Sentiu que o festival deu maior visibilidade ao Tagore?

Foi massa, de início pensamos em não levar a ideia de participar adiante, por não curtir mesmo esses eventos de “competição” musical, mas uma vez que decidimos entrar, foi de cabeça, focados em ganhar, claro. Se conseguimos, quero imaginar que tenha sido por merecimento e pelo trabalho de qualidade apresentado, e como julgar arte é semi-impossível, isso não significa que sejamos melhor que nenhum outro grupo participante. A visibilidade aumentou consideravelmente, e esperamos mais com a vinda do nosso disco ainda esse semestre.

Em recente entrevista ao Jornal do Commercio, você disse que só veio conhecer a obra de Alceu Valença em 2011. É recente esse seu “merguho” na música brasileira?

Seria um absurdo eu dizer que conheci Alceu apenas em 2011, mas foi nessa época em que tive contato com uma parte de sua obra que havia me passado despercebida, e que, por acaso, nela encontrei diversas semelhanças com a sonoridade que estávamos construindo. Foi então que “mergulhei” no Molhado de Suor e Espelho Cristalino, que são seus primeiros discos solo. Antes disso meu interesse pela música brasileira existia sim, e passava por artistas como Ave Sangria, Raul Seixas e Ronnie Von.

Da sua geração, talvez você seja o único músico a tocar em bandas diferentes no Abril pro Rock. Qual a sensação?

Meio louca, confesso. Toquei muito novo, tinha 21 anos e uma proposta de arte muito imatura ao meu ver hoje. Não que eu esteja um idoso, mas do alto dos meus 25, me sinto bem mais sólido como artista. Estar no mesmo palco 4 anos depois, mas com tudo completamente diferente à minha volta, vai ser no mínimo estranho.

Como será o show no Abril pro Rock?

Curto, suave e grosso.

Como acha que a mídia vem encarando o seu trabalho? Não está cansado de ser “rotulado” como roqueiro Zen?

Não podemos reclamar em termos de espaço, pois estamos sempre dando alguma entrevista pra matérias legais e de considerável alcance de público, o que enche um pouco o saco é o rótulo regionalista, mas que, como disse, não foi estabelecido por nós de forma intencional, é algo natural e vem principalmente das vozes. Mas garanto que  o que estamos guardando para os discos futuros vai gerar outra etiqueta.

A proposta do Tagore é se fixar no Recife ou a banda tem planos de se mudar para São Paulo ou Rio, onde o mercado é maior?

É o sonho adolescente das bandas daqui né? Ter um espaço habitável em alguma dessa duas cidades e correr atrás do lugar no olimpo. Por hora, nossa toca é aqui, mas temos planos sim de fazer essa transição experimental.

Se quiser acrescentar alguma coisa, o espaço é seu!

Gostaria apenas de agradecer a todos os responsáveis por esse projeto vir se tornando reconhecido e impulsionado, gente como vocês dos veículos midiáticos, e  os apreciadores da boa música.
No mais, até sexta.

Tapa na Orelha: Dez anos de RecifeRock! (ou a volta dos que não foram)

Por Hugo Montarroyos em 13 de abril de 2013

Galpão do Rock

 

E nessa brincadeira (que sempre levamos muito a sério) já se passaram dez anos. Começamos em 2003, muito em função da falta de referência de rock local na mídia pernambucana. Tínhamos acesso e informação sobre bandas filandesas e escandinavas na internet, mas não sabíamos o que acontecia na nossa própria cidade. Então resolvemos fazer um verdadeiro trabalho de formiguinha. Cobrir desde os shows de cunho mais underground no finado Dokas (aqueles em que as bandas, de tão iniciantes e desconhecidas, precisavam pagar para tocar) até os eventos mais tradicionais, como Abril pro Rock, Rec Beat e afins.

A ideia era  subverter as  prioridades. Nos pautávamos por Recife. Strokes e Madonna, por exemplo, só seriam temas de matéria no site se fizessem shows na capital pernambucana. Ou se alguma banda daqui abrisse os shows deles. Isso, na época, foi o grande diferencial do RecifeRock!. Estamos falando de um tempo pré-Orkut. Uma época em que o Facebook não existia para os brasileiros e a mídia impressa ainda se acostumava com a transição para o mundo digital/ virtual.

E tivemos muita sorte. Nascemos no momento em que surgia uma geração muito interessante de bandas: Mombojó, Vamoz!, Astronautas, Rádio de Outono, Volver e tantas outras. E numa época em que os veteranos Nação Zumbi, Mundo LivreS/A, Devotos (e tantos outros) viviam fases de transição em suas carreiras. Os eventos locais, na medida em que cresciam (o Abril pro Rock chegava à sua décima edição; o Rec Beat se mudava de mala e cuia da acanhada Rua da Moeda para o Paço Alfândega; nascia o festival No Ar: Coquetel Molotov), abriam espaço em suas grades para as bandas novas.

Ou seja, estávamos na hora e local certos. E, para nosso espanto, começamos a servir de fonte para a grande mídia, que não dava a menor pelota para o rock local. Mérito nosso? De forma alguma. Mas, sobretudo, da talentosa geração que surgia. Servíamos apenas de ponte, fato que já nos deixava bastante satisfeitos.

Nesses dez anos, como tudo na vida, tivemos altos e baixos. Em nosso melhor período, entre 2005 e 2006, chegamos a ter um “pequeno império midiático”. O site se desdobrou em revista, programa de rádio e televisão, onde tínhamos um quadro semanal no extinto e saudoso Sopa Diário, da TV Universitária. Em compensação, houve épocas em que demorávamos semanas para atualizar o site. A demanda e o trabalho eram enormes. E  a mão-de-obra, escassa. Fora a força de alguns colaboradores (aos quais somos gratos até hoje), na maior parte desses dez anos o RecifeRock! foi tocado por apenas três pessoas: Guilherme Moura, Bruno Negaum e este que vos tecla.

Profissionalmente, o RecifeRock! foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Um espaço que me dava total liberdade (e muitas vezes abusei dela) de escrever o que desse na telha. Que me permitiu publicar um livro e me rendeu um monte de “frilas” para uma série de revistas especializadas.

Hoje, graças aos céus, não somos os únicos a acompanhar a cena roqueira local. Ainda que o espaço continue pequeno, os jornais, rádios e TVs também cobrem, à sua maneira, o que rola no underground pernambucano. Outros sites, blogs  e revistas foram surgindo ao longo dos anos. Ainda que as rádios continuem com sua vergonhosa e jabazeira programação que todos nós conhecemos, alguns guerreiros solitários tentam cavar espaços para a cena local. E, tenho fé, um dia teremos uma rádio que se dedique exclusivamente aos artistas locais, muitos deles reconhecidos e premiados no exterior, mas absolutamente desconhecidos em sua terra.

Esta coluna é, entre outras coisas, uma forma de fazer um pequeno balanço dos dez anos de estrada do RecifeRock!. E, também, uma espécie de tratado. Ainda que de forma muito menor e acanhada, voltamos. Eu, particularmente, voltei de onde jamais deveria ter saído. Sei que muita gente ficará feliz com nosso retorno. E que outros (igualmente numerosos) torcerão o nariz. Mas, para mim, o mais importante é que estou feliz em voltar. Devagar e aos poucos. Um passo de cada vez, como foi no começo.

Shows voltarão a ter cobertura. Entrevistas e resenhas de discos serão feitas. O objetivo (pelo menos o meu) é que o RecifeRock! se transforme num noticiário diário sobre tudo o que é produzido no universo roqueiro local. Se isso de fato vai acontecer ou não, só o tempo dirá. O mais importante (sempre) é que estamos vivos. Custei a aprender  isso. E, agora que aprendi, não pretendo mais largar o osso. O RecifeRock! está de volta. Assim seja!

Entrevista – Volver

Por Hugo Montarroyos em 12 de abril de 2013

Volver divulgação

Talvez a única banda pernambucana de sua geração a conseguir completar dez anos de carreira, a Volver é uma das atrações do Abril Pro Rock 2013, onde faz show no dia 19. Por e-mail, Bruno Souto, vocalista, guitarrista e principal compositor da banda, faz um balanço dos dez anos de carreira, critica as políticas culturais de Pernambuco e diz como será a apresentação no Abril pro Rock

“De Canções Perdidas Num canto Qualquer” (2004) até “Próxima Estação” (2012), o que mudou na Volver?

Muita coisa, né? Primeiro que cada um dos três discos da banda foi gravado por formações diferentes e cada músico que passou pela banda deixou sua marca. Pra mim, o resultado disso é uma discografia da qual me orgulho muito. Cada disco, de alguma maneira, reflete o que aquele conjunto de pessoas era naquele momento.
Tudo começou com deslumbramento (até porque sempre foi um sonho meu ter uma banda), depois caiu a ficha da “realidade” (muitas bandas acabam aí) e continuo porque fazer música e estar num palco é uma necessidade.

A banda optou, já há alguns anos, em morar em São Paulo. Fez alguma diferença? A banda ganhou mais visibilidade com isso?

Antes de qualquer coisa, a banda se mudou pra São Paulo para, além da busca de uma maior visibilidade, para se sentir numa evolução. A gente sentia que estava “andando em círculos” estando no Recife. Queríamos vivenciar essa experiência de mudança, estar num lugar diferente e levando Recife na bagagem. E claro que valeu a pena. O próprio disco “Próxima Estação” foi um fruto direto dessa experiência, por exemplo.

Tive o privilégio de ser uma das primeiras pessoas a ouvir “Próxima Estação”, bem antes de seu lançamento. O disco contrasta momentos de absoluta descontração com outros de uma certa melancolia. Você acha que isso é sinal de amadurecimento como compositor?

Também. A troca de músicos e suas respectivas “bagagens” também contribuíram para o resultado final. Se até agora existiu uma fórmula na música da Volver, nela sempre esteve a melancolia e o bom humor.

“Mallu” e “Mangue Beatle” são canções um tanto “polêmicas”. Chegou a ter problemas por causa delas? Alguém chegou a ficar incomodado com versos como “Eu não consigo viver
nessa lama com vocês”?

Problema algum. Algumas críticas, sim. O que era perfeitamente normal, né? Nós pernambucanos temos uma leve queda por uma boa polêmica. Tá no sangue. (risos).  Até porque se eu não aceitasse críticas, não estaria fazendo música e dando a cara a tapa. Pra quem não entendeu tais versos, por exemplo (que, diga-se de passagem, foi a minoria), paciência. Não posso ensinar ninguém a entender contextos nem a ter senso de humor. Pra mim, tais músicas são, acima de tudo, divertidas.

Como será o show do Abril pro Rock? Será um apanhado de toda a carreira ou mais centrado em “A Próxima Estação”.

Tentaremos apresentar um apanhado, mas não sei se vai rolar fazer muita coisa. Até porque show de festival tem um tempo curto. E outra, além de ser o disco mais recente, é o segundo show do “Próxima Estação” no em Recife . É natural que queiramos tocar esse repertório, mas tentaremos dosar da melhor maneira possível.

 A Volver conseguiu chegar aos dez de carreira. Da geração de vocês, poucas bandas pernambucanas sobreviveram. Você encontra alguma explicação para isso?

Das bandas pernambucanas que não possuíam elementos regionais, surgidas em 2003, 2004, a Volver talvez seja a única que continua na ativa e sem pausas. Não sei se existe outra. Uma pena, pois aquela geração tinha muito potencial. Bandas muito talentosas…
E  se for parar pra pensar nesses dez anos de Volver, isso é um feito e tanto! Se não for inédito. Deixa eu pensar… Uma banda sem elementos regionais e sem mistura de estilos, surgida no Recife, que durou dez anos? Eu desconheço. Por favor, me diga se eu estiver equivocado.
Como explicar isso? Tesão.

A banda cativou um público realmente grande em seus shows no Recife. Por que acha que a Volver não conseguiu chegar ainda mais longe?

Realmente não sei te responder. E pra falar a verdade isso não me preocupa. Me preocuparia se estivesse compondo e lançando discos pra atingir públicos “x” ou “y”. Claro que quero que o maior número de pessoas possível escute a banda e minhas músicas, mas não vou mudar uma nota ou palavra sequer para que isso aconteça. Se conquistamos ou emocionamos, nesses dez anos, um número “x” de pessoas, foi através de canções que foram feitas e lançadas exatamente como queríamos. Sendo honestos com nós mesmos. E toda banda deveria pensar assim: primeiro se satisfaça. As pessoas gostarem ou não, é consequência.

A volver já consegue viver apenas de música?
Não. Eu consigo “sobreviver”, o que é um pouco diferente (risos).

Nesses dez anos de carreira, qual foi o melhor e o pior momento da banda?

Não conseguiria te responder isso. Foram tantos momentos inesquecíveis e outros nem tanto… Mas, para o bem e para o mal, foram experiências, e como tal, ajudaram a moldar o que a banda é hoje.

“A Próxima Estação” foi muito bem recebido pela crítica. Tem noção de quantas cópias do álbum foram vendidas?

De Cds, não tenho esses números exatos. De streamings e downloads deve ser um bom número, pois na plataforma oficial (que é o “Álbum Virtual” da Trama, onde o disco foi lançado e está disponível), o “Próxima Estação” é o quarto mais acessado e/ou baixado, à frente de nomes como Ed Motta, Nação Zumbi, Elis Regina, etc. (mesmo tendo sido lançado depois deles) Isso deve ser um bom indicativo. Fora os downloads em outros sites que não o da Trama.

A banda tem alguma mágoa com Recife? Há problemas de relacionamento com outros artistas locais por conta de divergências estéticas?

Mágoa de Recife? De forma nenhuma! Mas claro que sempre queremos o melhor pra nossa cidade, né? E é triste ver tanto potencial artístico e, por que não, comercial, praticamente engessado. Muito por culpa de políticas culturais viciadas, arcaicas e centradas no próprio umbigo.
E problemas por divergências estéticas com outros artistas, não tenho. Acho que a diversidade é necessária. Afinal, Recife é isso, né? Mesmo que uns não enxerguem nem realmente valorizem isso.

Se quiser acrescentar algo, o espaço é seu!

Espero que o site RecifeRock! volte com força total. Será um aliado importante (como já foi) pra cena musical e novos artistas de Pernambuco.

Entrevista – Rafael Cortes – Assustado Discos

Por Hugo Montarroyos em 11 de abril de 2013

O Assutado Discos é uma das iniciativas mais bacanas a surgir no mercado musical brasileiro nos últimos anos. Capitaneado por Rafael Cortes, o selo tem como principal missão garimpar raridades de artistas nacionais para lançá-las em vinil. Até agora, a Assustado Discos já lançou vinis dos Inocentes, Devotos e Wander Wildner, e está em processo de conclusão de um álbum de DJ Dolores. Na entrevista abaixo, feita por e-mail, Cortes explica qual a proposta do selo, faz um balanço do mercado atual do vinil e fala sobre os trabalhos de outros artistas que pretende lançar.

Assustado Discos

 

Como nasceu a ideia de criar a Assustado Discos?

O principal objetivo do selo é possibilitar que gravações raras, inéditas e históricas de artistas que já tenham uma estrada possam ser disponibilizadas para o público. Esse desejo por raridades me acompanha desde a adolescência, quando eu buscava os discos “piratas”, normalmente gravados ao vivo, das minhas bandas prediletas. Até hoje garimpo essas raridades e encontro pessoas com o mesmo interesse. Portanto, decidi viabilizar parte desse fetiche através do Assustado Discos. A vontade de criar um selo é antiga, o formato foi se lapidando com o tempo.

Qual o critério de escolha dos artistas?

Com o selo pretendo trabalhar com parceiros, pessoas que tenham o mesmo interesse e afeto em disponibilizar conteúdos dentro do conceito do Assustado Discos. Até agora, trabalhei com pessoas que já tenho proximidade ou que apareceram no caminho do selo e houve empatia por ambas as partes. O importante é ser música com verdade. Mas vale lembrar que a proposta do Assustado Discos é lançar material de bandas e artistas que já tenham uma história na música.

Como os artistas encaram a proposta do selo?

Normalmente, os artistas que tenho contatado tem se interessado bastante pela proposta e formato de trabalho do Assustado Discos. Assim como eu, eles vêem a oportunidade de disponibilizar para o seu público áudios muitas vezes esquecidos e que provavelmente nunca seriam remasterizados e lançados no formato vinil.

Qual é, em média, a tiragem de cada disco?

500 (quinhentas) cópias. Artigo de luxo.

 

Devotos Assustados

A proposta do selo sempre foi resgatar material inédito das bandas?

Sim, na verdade o resgate é de materiais raros e inéditos, não necessariamente de músicas inéditas, Por exemplo, disponibilizar versões demos de clássicos da banda, músicas com arranjos diferentes,
materiais ao vivo, projetos paralelos dos artistas e por ai vai. São os chamados bootlegs.

Como você avalia, atualmente, o mercado de vinil no Brasil?

Em um processo lento mas contínuo, o mundo está retomando a cultura do uso do formato de disco em vinil, existindo já um mercado cada vez mais crescente nessa área. O crescimento das vendas de vinil no Brasil, a julgar pelos números da Livraria Cultura, que é a maior vendedora do formato, cresceu 35% nos últimos dois anos. A venda online de discos de vinil está aumentando no mundo com o surgimento de novas plataformas disponíveis em smartphones e e-commerce dedicados exclusivamente a vendas do formato, tornando o “vintage” muito mais próximo do moderno. No comércio eletrônico brasileiro, os vinis vem superando, desde 2011, a venda de BlueRays e DVDs. O formato também está contribuindo como uma forma de combate ao comércio ilegal de distribuição de música. O mercado americano é o único que tem estatísticas precisas para isso e aponta um crescimento de ordem de 50% nos últimos dois anos. As vendas em lojas americanas já chegam a 4 milhões de discos/ano, mas um levantamento feito junto às fábricas, mostra que a produção já passa de 10 milhões (diversos músicos fabricam e vendem discos de vinil diretamente em shows, sem passar pelas grandes lojas). As principais gravadoras européias e norte-americanas, por exemplo, estão editando cerca de 70% de seus catálogos anuais em formato vinil.

Inocentes Assustados
A Assustado já lançou material do Devotos, Inocentes e Wander Wildner, e está trabalhando agora para o lançamento de um projeto do DJ Dolores. Você já tem em mente outros nomes que pretende lançar?

O selo tem conversados com alguns artistas, teremos muitas novidades ainda em 2013. Estamos buscando estratégias de financiamento para possibilitar a auto-sustentabilidade do selo, então muitos projetos estão nessa dependência. Mas para adiantar algumas “bolachas’ possíveis, devemos lançar um compacto com raridades do Little Quail and Mad Birds em parceria com um selo novo de Brasília, um LP duplo do coletivo re:combo. Tem parcerias com o selo pernambucano Joinha Records que irão se concretizar e por ai vai. Volto a falar com o Recife Rock! quando as coisas estiverem mais fechadas, ok?

Se quiser acrescentar algo, o espaço é seu!

O nome Assustado Discos foi inspirado nas festas “improvisadas” que aconteciam na década de 70 e começo dos 80 em Pernambuco. Desde a minha chegada na cidade, há pouco mais de 6 anos, encantei-me com o nome da tal festa que normalmente era animada por vitrolas portáteis e discos de vinil. Essa ideia de que a música já poderia ser portátil nessa época e que o bom e velho bolachão também tinha sua praticidade de certa forma contrapõe-se a certos discursos atuais. Para minha surpresa, a definição da palavra “assustado” no dicionário, traz referência a esses momentos.

Wander Assustados
O Assustado Discos pretende atender aos colecionadores e fãs de materiais raros. Desde já sei que nunca atingirei a grande indústria e esse não é o objetivo. Os discos terão tiragens reduzidas e serão quase como objetos de arte, já que além do conteúdo, as capas receberão um tratamento especial, sendo desenvolvidas por artistas plásticos. O logotipo do selo, por exemplo, foi criado pelo artista plástico pernambucano Rodrigo Braga.

O formato vinil sempre me interessou pela possibilidade de ter uma capa num tamanho maior e de ter o lado A e o lado B, que podem ser complementares ou não. Além disso, o aumento da procura e interesse pelo formato é uma realidade, hoje reencontramos prateleiras de vinil nas principais lojas especializadas do mundo e o retorno de lojas que trabalham especificamente com o formato, no Brasil.

Quando trato os discos quase como objetos de arte, me refiro à exclusividade que cada um tem. São objetos únicos e numerados, que em pouco tempo se tornarão raridades pela pequena tiragem. Essa música “difícil” também faz parte da história do universo musical, principalmente dos colecionadores.

Acredito que esses discos inevitavelmente irão parar na internet, e eu não sou contra essa realidade, a única coisa que pretendo preservar é a vontade das pessoas de possuir um objeto exclusivo e raro.

As lojas especializadas em vinil estão voltando com força total, o Assustado Discos mantém relação com lojistas no Brasil inteiro. Além disso, o selo pretende disponibilizar nas prateleiras das grandes livrarias e através da internet, que é a grande aliada das iniciativas independentes atualmente.

Lançamentos já realizados e disponíveis no mercado:
Devotos – Demos e Raridades (2011)
Inocentes – Garotos do Subúrbio (2012)
Wander Wildner – Rodando el Mundo (2012)

Resenha – Juvenil Silva – “Desapego”

Por Hugo Montarroyos em 10 de abril de 2013

juvenil-silva_desapego

 

A vida é mesmo cheia de surpresas. Quem diria que aquele moleque mod meio chato dos Canivetes (banda que fez certo barulho no underground recifense da década passada)  fosse se transformar, anos mais tarde, em um artista completo? É o que atesta este “Desapego”, estreia solo de Juvenil Silva. Como quem brinca com o tempo, sua faixa de encerramento, “De Volta para o Futuro Em Recife”, sintetiza toda a concepção estética do álbum, que tem gosto, cheiro e cor de final dos anos 60, sem, no entanto, abrir mão de ser atual. Seja no rockabilly de “Mixturado”, na manhosa “Pomba Gira Violeta” (que parece fundir Mutantes com Jorge Ben Jor) ou na instrumental “Tire o Peixe da Gaiola” ( coisa de quem ouviu muito Santana), Juvenil não perde a mão em um segundo sequer. São todas canções que dão vontade de apertar “repeat” após a execução.

A banda é extremamente afiada, e soa como se estivesse se divertindo em qualquer quintal ou garagem da vida. É psicodélico sem ser chato. E, ao mesmo tempo, despretensioso sem soar simplista. As letras são um achado, como as de “Desapego” e “Se Ela Nunca…”. O que mais impressiona é a capacidade de Juvenil de percorrer por diversos territórios da música (tropicália, blues, rock rural, Novos Baianos, Raul Seixas, Bob Dylan) sem perder a coesão. Tudo está no seu devido lugar. É daqueles álbuns difíceis de citar um destaque. Deram até um nome para este tipo de trabalho: obra. Se “Desapego” não é uma obra-prima, é um disco que deve ser entendido pelo todo, e não apenas  pelas partes.

E é assim, juntando as partes de tudo que vê, ouve e respira, que Juvenil concebe um trabalho extremamente inspirado, verdadeira delicadeza bruta de quem deixou de ser apenas um roqueiro inquieto para se tornar um artista de alto calibre. Tom Zé ficaria orgulhoso.

Cotação – ótimo